Parador Neptunia (2017), TAMY

por Alexandre Marzullo

 

(texto originalmente escrito em maio de 2020)

Parador Neptunia é o quarto disco de TAMY, lançado pela Dubas Música em 2017. Nome de um balneário secreto na costa uruguaia, Neptunia foi o lugar onde a artista se instalou para compor e gravar o álbum. Em certo sentido, Parador Neptunia é um desdobramento natural da pesquisa sonora de TAMY, mas ao mesmo tempo - pela originalidade do próprio disco - se porta como um importante marco na carreira da artista.

 

O disco reúne a sensibilidade típica da canção brasileira, fundada na voz e no hábito do violão e suas dissonantes possibilidades, com os pulsantes ritmos do candombe uruguayo, gênero tradicional uruguaio oriundo da chegada dos negros, séculos atrás, no continente. O resultado é um disco insinuante, alternadamente denso e suave, sempre sensual, e em todos os momentos embalado pela cristalina e carismática voz de TAMY. Além disso, o álbum conta com participações de Ruben Rada e Hugo Fattoruso, artistas lendários da música uruguaia; suas composições engrandecem o projeto.

 

As faixas são esmeradamente construídas, e repletas de texturas delicadas e inúmeros cruzamentos musicais: inflexões jazzísticas, sensibilidade soul e arranjos minimalistas, mas eficientes, somam-se aos tambores e repiques uruguaios, sem desprezar sintetizadores. TAMY navega entre a língua portuguesa e a espanhola com a mesma naturalidade, e se apresenta como avatar de um horizonte sonoro totalmente novo, apesar de familiar, e por isso mesmo surpreendente.

 

Em tamanho contato com os impulsos folclóricos uruguaios, seria mesmo estranho não observar a presença de figuras próprias da religiosidade afro-uruguaia nas canções. Felizmente, são muitos os pontos de contato entre as culturas uruguaia e brasileira, permitindo uma continguidade de sensibilidades, e portanto de compreensão e encantamento. Além disso, o ouvinte tem o privilégio da condução de TAMY, que atua como guia do formidável balneário misterioso (Parador Neptunia), repleto de forças de outrora, repleto de bruma misteriosa e feminina.

 

As canções de Ruben Rada que figuram no álbum, "Te Parece" - com o formidável verso "todos los negritos repicando el tambor" - e "Ayer Te Ví", assim como "Festa de Iabá", de Francisco Vervloet e TAMY, e principalmente, a bela "Naná de Água", de Ernesto Díaz, fortalecem esta imagética distinta e tão numinosa no disco, sempre com bastante ritmo e alegria, dotando-lhe de uma tensão distinta, uma densidade peculiar. A experiência final é por vezes fugidia e sedutora, uma imagem instigante; netuniana miragem.

Ouça Parador Neptunia, de TAMY:

https://open.spotify.com/album/4524Af8lA8qLZVX4cnLsnH

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