Rogério Skylab - Os Cosmonautas (2020)

 por Alexandre Marzullo

Este texto se pretende uma espécie de cartografia, faixa a faixa, do álbum Os Cosmonautas, de Rogério Skylab. Contudo, que seja dito desde já que não tenho a ilusão de fornecer um mapa confiável, ou sequer compreensivo das complexidades da obra do compositor; inclusive, tenho certeza absoluta de que, enquanto cartografia da jornada cosmonáutica de Skylab, este texto falha miseravelmente. Mas ainda assim aprecio minha tentativa expedicionária (a verdade mesmo é que não consegui, realmente, me aproximar do disco de outra maneira). Estruturei esta resenha em dois momentos: o primeiro, uma introdução, elaborei como um prelúdio, uma reflexão sobre chaves de leitura na obra de Skylab. O segundo, a resenha em si (ou sua malograda tentativa - "o esforço é grande e o homem é pequeno", já dizia Pessoa), a que chamei de cartografia.

 

I - PRELÚDIO AOS COSMONAUTAS

 

Pois bem; no momento em que escrevo, Os Cosmonautas é o álbum mais recente do prolífico Rogério Skylab, e, dentro do arco de seus lançamentos até aqui, talvez seja o que apresente de forma mais clara e evidente a visão estética do artista a partir das íntimas estratégias de seu ofício. Com quase todas as faixas escritas em parceria com Lívio Tragtenberg (à exceção de Ruídos), Os Cosmonautas é, certamente, um dos discos mais confrontativos de Skylab; certamente, um de seus mais desafiadores, e por isso mesmo, um de seus (arrisco dizer) mais preciosos. É o veredito do que me parece: Os Cosmonautas, com suas canções autorreferenciais, metapoéticas e meta-anti-poéticas, brutalmente cruas dentro de seu próprio lirismo, se ocupa intimamente com a possibilidade de dizer o impossível, ou então, de perecer tentando. Poética.

 

A partir disto, suponho ser razoável admitir que o pano de fundo para Os Cosmonautas seja justamente a reflexão sobre a canção, seu papel, e principalmente, seu limite. Ao afirmar isto, devemos manter em mente que esta é, na realidade, uma inquietação essencial a atravessar o cancioneiro de Skylab, desde o começo de sua carreira; basta lembrar da faixa Fora da Grei, de seu álbum de estreia homônimo, lançado de forma independente em 1992. Enquanto liricamente uma declaração de motivos, os arranjos de Fora da Grei são todos matizados pelo exotismo que a vontade de expansão de consciência traz àquele que por suas possibilidades se encanta; ou seja, música como a própria visão da inquietude, em si e no mundo.

 

Se, para falar de Os Cosmonautas, volto ao princípio cosmogônico de Skylab em Fora da Grei, é apenas para demonstrar a coerência e a lógica interna que permeia o corpo de obras do compositor. Skylab é um de nossos grandes cancionistas, um dos grandes pensadores da canção no Brasil. Quero insistir em Fora da Grei mais um pouco; é importante ressaltar as linhas fortes do campo poético skylabiano que ali nascem. Perceba: dentro de toda inquietude se alimenta, consequentemente, algum desprezo (que se espera sadio) aos limites e convenções. Nesse sentido, e de imediato, fora da grei pode muito bem ser lido como fora do cânone, expressão que não por acaso pode ser tomada como uma descrição muito razoável da condição fundamental de todo artista independente, em maior ou menor grau.

 

Pois bem; mas existe uma outra leitura para fora da grei, que acolhe a anterior acima, e sobre ela exerce uma amplificação. Pois para além da imediata consideração acerca do “cânone”, estamos falando, sobretudo, de um marginalização do próprio indivíduo; em outras palavras, se perceber "fora da grei" é descrever um doloroso deslocamento de centro (um deslocamento da grei), e portanto, confessar uma espécie de ocultamento sofrido, uma invisibilidade forçada. Esta é a crítica chave, central, inaugurada e desenvolvida por Skylab em seu disco de estreia, e desenvolvida ao longo de toda sua carreira. Crítica esta que deriva de uma leitura muito rente, muito próxima da própria história da arte moderna, e mais intimamente, da história da literatura e da poesia moderna, e das complexidades que dali derivam. Afinal, como se sabe, o arquétipo do artista como um criador à margem da sociedade moderna se encontra, pristinamente, no berço poético da literatura francesa do século XIX, e especialmente em autores como Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, dentre outros. O que se depreende da leitura destes poetas e escritores, como uma linha de força fulminante, é a contundência do trabalho sobre a linguagem como um ato crítico em si mesmo, amplificado pela própria condição marginal do artista dentro da grande metrópole (mas não somente).

 

Em suma, o que pretendo dizer é que, até onde entendo, é neste mesmo sentido que Rogério Skylab atua: seu elaborado e idiossincrático uso da linguagem, seus interesses filosóficos, suas pesquisas tímbricas, rítmicas, estilísticas, suas obsessões numéricas, sem falar no uso extensivo de figuras escatológicas e sobremodo chocantes; tudo isso se realiza, no corpo de sua obra, como atos poéticos de perspectiva crítica, constelando seu cancioneiro e dramatizando sua busca por horizontes para além das qualidades e categorias do possível - para além das expansões da grei. De modo que os eventuais exageros skylabianos marcam, antes de qualquer coisa, a própria obsessão lírica que movimenta o artista; sequer sua persona escapa. A radicalidade de seus “sulcos” críticos em si mesmo, em sua própria obra, no cenário que lhe circunscreve, e nos seus alvos mais diretos e também nos indiretos, são todos corolários dessa disposição íntima e fundamental: o ato crítico-criativo como fio de Ariadne, seu próprio devir.

 

II - CARTOGRAFIA COSMONÁUTICA

É assim que chegamos à análise do álbum, de fato. Tendo em vista este mergulho nas dobras poéticas da linguagem, atravessado pela ponderação acerca dos limites cancionais, já não surpreende que a canção de abertura de Os Cosmonautas se chame, justamente, Uma Canção Impossível. Skylab e Tragtenberg apresentam, aqui, como um verdadeiro ás para o jogo que seguirá, uma canção inabitável, feita de restos, cacos, fragmentos; completa ruptura da canção - e, ainda assim, uma canção. E como tal, trata-se de uma das faixas mais importantes do disco, justamente por ser sua faixa de abertura e de entrada crítica e poética. Em Uma Canção Impossível, somos convidados a entrar em Os Cosmonautas. Ou alertados a não entrar, a depender de como se escuta. Eu entro.

 

Uma Canção Impossível parte, principalmente, de uma aporia. Espécie de traição ontológica: ela não foi feita para ouvir. Suas estrofes (se é que este é o termo devido, justo) organizam enumerações da impossibilidade (mais aporias), como que justificando esta linha maior e absoluta de uma impossibilidade cancional. Somos informados de que se trata de um canção feita de interditos e fragmentos, que se encontram na terra, rastejam na lama entre excrementos (a cobra, o escaravelho); que é uma canção desiluminada, ao léu e duplamente perdida (cheia de sombras, no fundo da noite escura); que está nas dobras da linguagem, e dorme na dificuldade melancólica do dizer (no rastro de um triste tigre), e assim por diante. Ainda assim, o paradoxo final é inescapável: apesar do impossível, a canção existe. Tem um corpo, tem um território (à sombra de uma palmeira); é feita de sobras, isto é, dos restos de sua morada: “a tua cabeça - uma oficina”. E sobretudo, é feita de mistérios, que devemos e pretendo aqui respeitar, também.

 

À canção impossível tal qual nós paradoxalmente acabamos de ouvir, ao mesmo tempo indefinida e real pelo milagre estético da canção, segue-se a próxima faixa, Nenhum Fio No Labirinto. Em verdadeiro modo skylabiano, Nenhum Fio No Labirinto se apresenta como uma refinada mise-èn-scene, com arranjos agressivamente doces e assíncronos, nenhum aceno a resoluções sonoras possíveis, mas cantos de sereia a torturar sonhadores. A exceção, e nossa possibilidade, está na voz incorpórea do artista; eis ali o sinal que contradiz seu próprio título, pois nos apegamos à voz de Skylab como se ela própria fosse o derradeiro fio labirintino que nos foi negado. E o que tal voz nos diz? Nos diz, "acabou: nenhum fio no labirinto". Jogo de espelhos; mais uma vez, trata-se de uma impossibilidade que se articula e que, a bem da verdade, parece irrefreável em se articular: intensa, atávica, como se fosse a memória mais querida da infância, em alusão aos timbres utilizados na faixa... mas, já não afirmara Baudelaire que a poesia é a infância recuperada?

 

É também neste diapasão que a terceira faixa, Um Quarto Sem Janelas e Uma Cama de Pregos, se desenvolve. A citação a Bim Bom, de João Gilberto, é explícita; eu diria, é verdadeiramente respeitosa, e justamente por isto, se permite irônica. Afinal, é quase inescapável não ler a canção como uma paródia bossanovista, talvez a mais radical já feita. E como bem sabemos, se o ambiente composicional bossanovista, por excelência, é o quarto - um cantinho, um violão, etc. -, a imagem de “um quarto sem janelas” talvez seja sua inversão simbólica mais perfeita. Ora, neste âmbito, “a cama de pregos” se apresenta como o correlato do ethos bossanovista, também invertido: o desconforto, ao invés da consolação do violão (nenhum sinal de violão na faixa, aliás). É a imagem, nem tanto de uma situação torturante, mas antes de uma tentativa de ascese autoimposta; e neste caso, e eis a homenagem, o retrato de uma obsessão pelo limite que, tipicamente, é completamente joãogilbertiana: um quarto sem janelas e uma cama de pregos, “e não tem mais nada não”.

 

A quarta faixa, A Engrenagem, é mais um mergulho sonoro e poético, desta vez no que poderíamos chamar de atomização da experiência da canção. Mais uma vez, o mote instrumental parte do que parecem ser brinquedos infantis de corda, sobrepostos com estranhas batidas que sugerem picaretas quebrando pedras (ironia: obra em progresso), em tempos diferentes, com aleatoriedade algo calculada (isto é, premeditadamente aleatórios). O que é a engrenagem? Ou, onde tudo é impossível, e mesmo assim algo se manifesta (repare nas inúmeras complexidades metafísicas que se abrem a partir deste algo que se manifesta no impossível), o que existirá verdadeiramente, senão a liberdade? Seria tacanho, decerto, afirmar que a liberdade é a engrenagem. Deixemos o mistério em plena vista aqui.

 

Enfim a faixa título, Os Cosmonautas, retoma o leque de sintetizadores de Uma Canção Impossível, e os recursos (des)composicionais das faixas anteriores, embora agora sob a novidade do drama, notável desde a abertura da faixa, algo sinfônica (é estranha a associação afetiva; a mim, remete a algo entre Mars e o Saturn, de Gustav Holst). A construção atmosférica, a partir de recursos dramáticos - seja na lírica, na interpretação ou no arranjo - é uma das especialidades de Skylab, apontando inescapavelmente para sua íntima relação com a literatura, como já afirmei acima. Tematicamente, Os Cosmonautas resume, congrega as inquietações até aqui testemunhadas, e o suspense não é outro senão a grave presença da confusão: ...qual deles eu sou / difícil saber / o mesmo, o outro (...): é sempre o infinito. Ora, se o que existe é a liberdade absoluta, então dentro dela de que serve a identidade?

 

Na sequência, O Fora. Esta é a primeira faixa onde escutamos propriamente a voz cantada de Skylab no disco, inclusive com seus maneirismos tão familiares, e trata-se da primeira faixa também onde o arranjo é propriamente percussivo, em contraste com as camadas de sintetizadores (e estranhos instrumentos) que protagonizaram as demais músicas até aqui. Na seção final da canção, somos contemplados com vozes e ritmos, timbres que interferem e se misturam ao tema, dominando a paisagem sonora. Como que advindos, realmente, de fora (mas afinal, caberia perguntar, o que é que está realmente fora?). Incidentalmente, é de tomar nota a quantidade de incisões que, faixa a faixa, o disco abre no ouvinte.

 

A faixa seguinte talvez seja, dentro do viés que estou empregando para abordar/escutar/enfrentar/fruir o álbum, a mais contundente acerca do posicionamento estético dos compositores. Poética não possui letra: são grunhidos como que amordaçados, abafados, agoniantes, que neste contexto evocam, cinemáticos, a impossibilidade de uma canção, a claustrofobia de um recinto sem janelas, a estranheza de algo que não pertence a ideais recorrentes e convencionais de composição. O poeta Michel Deguy certa vez afirmou que poética não é o poema, mas o ponto de vista teórico, pensante, de ordem meditativa, que toma por objeto o poético. E coerentemente, dentro do contexto do álbum, nada mais justificável, teorético, do que uma anti-canção, com uma anti-melodia e um anti-canto. Em suma, uma poética que é (é possível argumentar) antipoética; antiteorética; impossível (ou, simplesmente, muito difícil). O que se articula, se articula como desafio para nossa leitura.

 

Após Poética, segue-se The Jolly Corner (a esquina alegre, em tradução livre), definitivamente mais amena que a anterior (qualquer coisa o seria, motivo pelo qual seu título é quase uma desfaçatez), mas ainda apontando para a subversão das convenções musicais - no caso, Skylab dueta consigo mesmo na devastação sonora delicadamente tecida por Tragtenberg, com um ligeiro delay entre as vozes do artista. Sou tentado a ler neste delay uma sarcástica fugue, mas creio que exagero.

A audição continua na impressionante (talvez, musicalmente falando, minha predileta) Todo Mundo, com um arranjo executado pelo que parece ser um quarteto de cordas, manipulado sonoramente e pontuado por uma econômica e instigante guitarra em slides. O clima é, pela primeira metade da composição, tradicionalmente sinistro, romântico e talvez fúnebre, com lânguidas e agônicas notas executadas pelos violinos tremelosos - em suma, para minha sensibilidade, notavelmente bonito. A segunda metade da peça observa um maior protagonismo da guitarra, com fraseados de blues em slide, em contraponto aos ataques dos violinos. Tudo se resolve naturalmente numa mini-canção, que fecha a composição (quase que como uma composição dentro da outra, ou uma suíte), onde Skylab entoa versos solares, quase publicitários sobre “tudo o que é todo mundo”. É preciso realmente ouvir para entender. E no entanto, a alegria e a doçura na voz do cantor devem ser tomadas cum grano salis, como diriam os juristas (com um grão de sal; com reservas). Eu realmente acredito que se trata, ao mesmo tempo, de uma honestidade e de uma ironia (não é por acaso que os melancólicos violinos perduram entre a percussão moderninha e os versos solares). Todo Mundo é uma das canções mais exuberantes de Skylab, decididamente emocionante em sua complexidade de feixes estéticos. Ao contrário das demais, sua acidez acontece pelo excesso. E com ela, se inicia a seção final do disco, que penso ser a mais forte, composta de outras composições absolutamente geniais.

 

Vide Le Bateau Ivre (O Barco Ébrio), próxima faixa e batizada a partir do célebre poema de Rimbaud; a composição é evocativa, pesadamente atmosférica, e talvez por causa da imagem tão forte de seu título, sua construção sonora me sugira uma espécie de marinha nebulosa, vaporosa, toda breu e cinza e névoa. Aqui, Skylab conduz a experiência mais com suas inflexões vocais do que propriamente com os significantes cantados; após a explosão de Todo Mundo, Le Bateau Ivre é como a implosão de si novamente: barco perdido no mar / sem direção (...), errando sozinho, mais uma vez, mais uma vez. Penso em Plotino, "de solidão em solidão", mas sem a doçura, sem a beatitude neoplatônica (nenhum fio no labirinto). E observe a narrativa oculta, faixa a faixa: Todo Mundo, Barco Ébrio.

 

O Mensageiro altera nossa percepção musical novamente. É uma composição formidável, fundada sobre o ritmo, bateria e percussão, como O Fora, e recupera o dueto consigo mesmo da faixa Jolly Corner. É interessante como, depois da desoladora Le Bateau Ivre, sentimos a percussão de O Mensageiro com o próprio corpo; é como se o artista, ao propor a experiência da desolação e do confronto, acabasse nos despertando pela própria força, pela própria violência desta ascese estética tão rigorosa. Somos nós e os padres do deserto, guiados pela glossolalia cosmonauta de Skylab. A genialidade em O Mensageiro está na sobreposição de seu jogo lírico sobre os incessantes, exóticos e ritualísticos padrões rítmicos: no clímax da faixa, Skylab repete, tântrico e xamânico, eu não entendi / eu não entendi / eu não entendi / eu não entendi / eu não entendi nada / o que você quer / que você pediu / eu não entendi nada / eu não entendi / eu sou o mensageiro / o que vou dizer aos deuses? Seriam os deuses, dentro de tantos cortes críticos, aqueles que fingiram que entenderam o impossível? Mas então é possível algum entendimento? Ou ainda: é possível fingir?

 

Mas eis que vem um novo corte na faixa seguinte: Álbum de Família já nos joga para as alturas emocionais de um lugar-comum quase New Age; uma grei, de certa forma. E por isso, já aclimatados ao álbum, ficamos aguardando a subversão. Skylab enumera regiões geográficas, lugares pretensamente visitados, idílicos, exóticos, álbum de viagens, cartões postais, o brilho nos teus olhos... é bonito, até não ser mais; algo perigoso em sua aparente singeleza. Por isso, quando surgem o cemitério são joão batista / o céu negro a tempestades / esta foto está desfocada, ironicamente, nos sentimos em casa. E realmente, trata-se do fim de uma imagem: algo se encaminha para uma conclusão.

 

A audição agora está na parte final do disco. Rota em Transe é uma anti-canção na tradição do compositor, cuja base percussiva serve de cama para que Skylab enumere uma série de comandos e recomendações à guisa de um comissário de voo, ou mesmo de programa GPS de automóveis. Claro, este recurso composicional já foi utilizado algumas vezes pelo artista (lembro da célebre Qual Foi o Lucro Obtido?). Mas, afinal, para qual caminho ele nos orienta? Seria piegas afirmar que seria para um caminho impossível, a esta altura do álbum. Não, é justamente ao contrário; estamos sendo guiados para o caminho de todas as possibilidades. Estamos de frente para a falta: de Rota em Transe chegamos em Ruídos, onde a própria figura de Skylab se ausenta, sendo a única faixa assinada e performada unicamente por Lívio Tragtenberg.

 

E finalmente, derradeiramente, La Reina. Uma marcha esquisita, tão pomposa quanto patética, com timbres quase cyberpunks, serve de cama para uma guitarra assincrônica, absolutamente lunática. E sobre tudo isto, Skylab canta em espanhol, intencionalmente mal (como uma bad painting); os versos lideram os arranjos, que se intensificam em sua loucura projetada, enquanto a marcha continua. Eu não sei precisar se os versos em espanhol se referem a alguma canção ou poema específicos em língua espanhola, ou se são fruto da própria lavra de Skylab; La Reina traduz-se por "A Rainha", e os versos falam muito apropriadamente de uma rainha louca aos olhos de um de seus súditos (assim se supõe), que, narrando as desventuras da monarca na insanidade, se pergunta, quién sabrá lo que pasó? quién sabrá los misterios que rodean? por donde vá a caminar? por qué abismos y amarguras? (quem saberá o que aconteceu? quem saberá os mistérios que a rodeiam? por onde ela caminha? por quais abismos e tormentos?). Eu suspeito que sei quem é a Rainha, sem confundi-la com o artista; este, qualifico com uma palavra (e sei que ele entenderá): impossível.

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