Caos e Cosmos 1 (2021), Rogério Skylab

por Alexandre Marzullo

...uma partícula, uma canção

I - preliminares

Quando Rogério Skylab lançou o disco Os Cosmonautas, eu fiquei espantado. As verticalidades estéticas do disco me comoveram; sua inacessibilidade, de certa forma, me desafiou. Imediatamente soube que deveria escrever sobre o álbum, muito embora a empreitada me parecesse impossível. Como esta palavra - impossibilidade - é um vetor poético muito contundente na obra de Skylab, com matizes e sutilezas variadas, muitas vezes residuais e pouco óbvias (ainda que tantas vezes explícita), me pareceu que assumir tal impossibilidade, isto é, a extrema dificuldade de abordar o disco, seria uma boa estratégia de escrita. Bolei então uma espécie de "cartografia" para Os Cosmonautas, "cartografia" esta que, na realidade, tinha por objetivo único mapear o meu próprio fracasso em sua exploração. Como um Robert Falcon Scott na Antártida, meticulosamente anotando em seu diário de bordo, dia após dia (e com todo estoicismo possível), sua própria tragédia. O texto sobre Os Cosmonautas está na primeira edição da revista Uma Canção.

Justamente pela experiência de Os Cosmonautas, e pelo meu apreço pela obra de Skylab como um todo, me vi bastante empolgado quando soube do lançamento de Caos e Cosmos 1. A similaridade no projeto gráfico me deixou um tanto ansioso por uma perpetuação da iconoclastia de Os Cosmonautas. Novamente surpreendido! A resenha que segue é uma resenha produzida sob o choque de um novo espanto, dessa vez provocada, ou melhor, impulsionada pela própria inquietude do artista em seu mais recente álbum. 

Antes de iniciar meu texto, quero aludir ao ensaio do camarada Marcos Lacerda sobre a obra skylabiana, construído com apuro crítico e abrangente compreensão do espectro poético de Skylab. O texto de Lacerda me ajudou a repensar meu próprio posicionamento diante da obra de Skylab. A complexidade da cosmografia de Skylab, sob a análise de Lacerda, ganha o diálogo das luzes que a boa crítica proporciona.

II - caos e cosmos, início da resenha e início do enigma

Voz, violão e uma especie de retorno cristalino do lírico, canção a canção. Eis aí os elementos norteadores de Caos e Cosmos 1, disco mais recente de Rogério Skylab, sustentando todas as dezoito faixas do projeto. De imediato, a limpidez do som evoca o erotismo de uma quase nudez sonora: lança luz, e por vezes, leves panos sobre o corpo das canções; ao fazê-lo, rompe com qualquer expectativa por uma continuação estética da proposta de Os Cosmonautas, seu disco anterior. Tive de ouvir repetidamente Caos e Cosmos 1 para superar o espanto; me parece que a diferença entre ambos os discos é específica e localizável: está na apresentação – na verdade, seria melhor dizer: na artesania – do objeto-canção, da concepção da própria ideia de canção à sua execução.

Afinal, em seu disco anterior, Os Cosmonautas, Rogério Skylab realizou uma espécie de escavação da própria tessitura da ideia de canção – feito notável, dentre outros exemplos, em faixas como “A Canção Impossível”, “Nenhum Fio no Labirinto” e  “Poética”. De certa forma, a resenha-ensaio que produzi na Uma Canção #1 sobre Os Cosmonautas – com todos os seus limites – tentou concentrar-se nesse eixo poético, a saber, de uma experiência-limite para a ideia de canção, simbolizada na ideia de uma impossibilidade poética (e da poética).

Mas é diametralmente inversa a orientação de Caos e Cosmos 1: em todas as suas faixas, a canção está livre, arejada, tranquila; não à toa, o álbum é primaveril (quero dizer, sabendo-me tolo, que ele foi lançado em outubro) – sua pele cintila. Skylab, inclusive, se deixa sorrir ao longo das faixas (ou assim me parece; ouça “E recomeça tudo a girar”, ou “Esse nosso papo”). Ao tomar a existência da canção como condição a priori da nova obra, Skylab desloca-se das problemáticas de forma e estrutura composicional que caracterizaram o disco anterior, despreocupando-se, a partir daí, com seus limites. Tal movimento, contudo, suscita um punhado de perguntas de segunda ordem: afinal, podendo existir, o que a canção revela? Ou ainda: o que a canção canta? O que a canção diz? Como em tudo o que se refere à canção, precisamos ouvi-la para considerar alguma resposta. Acompanhemos, portanto, os enigmas, verso a verso:

 

se espalharam pelo mundo

sem destino, sem lugar

o seu tempo é agora

são inúmeros, não têm fim

os seus olhos não tem mágoa

não têm culpa, nem perdão

sempre em busca de outra gente

de outras terras, de outro mar

 

eles dormem ao relento

e atravessam grandes extensões

vão seguindo sempre em bando

como ave de arribação

 

seu caminho é contínuo

não são de nenhum lugar

inconstantes, arredios

vão em busca de outro mar

 

Nômades (12ª faixa de Caos e Cosmos 1)

 

 

III - manufatura da canção, índice do sujeito

A canção não é um objeto solto no espaço – ela exige uma manufatura, e portanto um sujeito, um cancionista que a concretize. O significa dizer que a possibilidade da canção demanda um sujeito por revelar: um sujeito que canta, ou um sujeito que diz o que canta - entoação e entonação. Em suma, a canção demanda um sujeito. 

Por consequência, a possibilidade da canção é a possibilidade do artista. Não de um artista, e sim do artista, com determinação; isto é, falo daquele que nasce de uma linguagem que ele mesmo inventa. Portanto, há um deslocamento que se opera no cancionar (o verbo do cancionista): há uma visão do entre-mundos, uma hiância entre antes e depois da canção, espaço lógico onde o artista se inventa; algo no próprio ato o inaugura. Mas não é qualquer ato, e de todo modo a consideração deste ato inaugural é da ordem do mistério. Ao cabo e ao fim, tudo se resume a este problema: para o artista fundar-se, ele precisa ir além de si. Como fazê-lo na canção, senão demonstrando-o cancionalmente? Ou ainda, qual o nome desta zona de fronteira, hiância entre o ato e sua memória, entre a intenção da canção e a canção manifesta, berço do artista diante de sua obra provir? E finalmente, que travessia é esta, ou melhor, quem é o artista, senão aquele que, por necessidade de ser, cruzará (toda e qualquer) fronteira? Mais enigmas, verso a verso:

 

estava tão a leste

mas tão a leste

que não havia ninguém

mais a leste do que ele

 

era tão intensamente leste

que já alcançava as planícies estranhas do oeste

 

teve mais ímpeto no interior do oeste

quanto mais avançava

mais estranha a paisagem

 

continuou sua travessia

até o limite do oeste

quando pisou novamente suas terras

 

reconheceu seus pais

reconheceu sua casa

e no entanto, já não eram os mesmos

 

daí continuou sua travessia

é o que lhe resta

sempre na direção leste

 

Leste (9ª faixa de Caos e Cosmos 1).

 

 

IV - canção como linguagem como tudo

 

Outra consequência, que suponho tão evidente quanto a anterior, é que a possibilidade da canção, será, também, a possibilidade da linguagem: floresta viva e não-trilhada, cuja força assombrosa está justamente naquilo que ainda não veio à flor da língua, mas nela já se pressente: a palavra porvir, filha do vazio, mãe do improvável: o que não tem sentido, e espanta o homem. Pergunta: precisa fazer sentido?

 

se me perguntarem

o que eu quis dizer

eu não sei

por onde é que começa

como vai ser o fim

o meu fim, já nem sei

 

acontece que entre as notas

no vazio da canção

meu samba

não carece de entender

não tem uma explicação

 

No Vazio da Canção (5ª faixa de Caos e Cosmos 1).

 

V - leitmotiv

Vocação: o poeta é aquele que imprime nome e sentido ao mundo – do caos ao cosmos, as palavras e as coisas. Atua sobre o vazio, isto é, sobre aquilo que não tem representação possível ainda – dessarte, atua sobre os resíduos de algo que é, caracteristicamente, sempre ausência. Poiesis: silhueta sobre o vácuo, teu outro nome é canção. E no entanto, o que é poético reverbera: vocaciona de volta o poeta – o determina, o faz nascer em sua capacidade. Leitmotiv, a possibilidade da canção é a possibilidade do artista.

Retorne às audições então, ou ainda, como no dito freudiano: "recordar, repetir e elaborar": a canção possível é aquela que revela o sujeito: aquela em que o sujeito, pela própria manufatura, se revela como parte do mesmo espanto que carrega. Em outras palavras, no vazio da canção, o sujeito é o véu que desvela: palavra, pronome, aquilo que decai e se destaca: eu. Quem sabe, uma das chaves do enigma?

eu fui um homem só

dentro da multidão

eu que partiu

eu não voltou

e agora, onde está?

eu que nunca cantei

eu foi quem nunca vi

eu é uma sombra

eu não é meu

eu não é de ninguém

 

eu foi quem desenhei

eu é um monstro

eu estava ali

foi quem me viu

eu desapareceu

 

eu anda por aí

eu em qualquer lugar

às vezes ele

é o que sou

eu é quem está aqui

 

eu não o conheci

eu que aconteceu

eu é pronome

eu foi encosto

eu quem me possuiu

 

eu não sei onde foi

eu não tem rosto

e quando choro

eu é quem ri

ele me contradiz

 

EU (4ª de Caos e Cosmos 1)

VI - o resenhista retorna

Volto a chamar a atenção para o lirismo do álbum que, presumo, já está bem destacado com os exemplos de algumas de suas canções que, um tanto narcisista, pus em diálogo com o ensaio que escrevo. Mas o motivo é justo: ressaltar, nelas, outro valor costumeiramente pouco associado à obra de Rogério Skylab: a delicadeza. Pois arrisco dizer, o eu lírico das composições de Skylab nunca esteve tão entregue, tão meticulosamente exposto quanto em Caos e Cosmos 1. Os subterfúgios deste lirismo, agora, são mínimos; os arranjos, isto é, o pensamento musical além-palavras, são tão pontuais quanto potentes. No dizer de Ezra Pound, a crítica adequada seria aquela que, fosse como fosse, funcionasse. Não sei dizer se o meu aparato crítico funciona, presumo muito honestamente que não, mas se em Pound a crítica era tão somente uma das funções poéticas, como o era para os primeiros românticos, então a equivalência entre crítica e poesia pode oferecer-se, também, no gume inverso: poesia como crítica. Nesse caso, Skylab, porque poeta (da canção ou não) é também arguto crítico, e sua obra, de um e outro lado do corte, funciona

 

um homem

sozinho

cruzando

a ponte

carrega

um saco

escuro

nas costas

se enverga

com o peso

do seu

conteúdo

vedado

aos olhos

de quem

o encontra

é um saco

escuro

nas costas

de um homem

cruzando

uma ponte

 

Cantos de Maldoror (14ª faixa de Caos e Cosmos 1)

 

 

VII - a verdade, e a beleza, estão no furo

Sei que existem sambas belíssimos que tratam de solidão, bem como canções extraordinárias da era clássica da MPB que abordam o tema. Mas da solidão como deserto onde floresce o sujeito, não creio que conheço exemplo além de Caos e Cosmos 1 - ao menos, não na discografia brasileira da canção. Na capa do disco, aliás, há uma singular figura singular; singular duas vezes, como sinal insuportável de sua solitude. Sinal insuportável, reiterado, como um saco escuro nas costas. Mas dentro ou fora, um violão nas mãos ou por perto emoldura a voz tão breve, e por vezes flautas, metais colorem a nuvem que o céu carrega mais acima. E  o veredito é este: tudo converge nele, no artista, ou dele se aparta (e, por consequência, o revela) – e o que é mais incrível: um ou outro, tanto faz, na verdade. Porque não há diferença nas alturas do sublime; nunca cessam. Jamais param.

uma cidade

uma janela

uma imagem

uma distância

 

uma estrela

uma ferida

uma viagem

uma doença

 

uma história

uma saída

uma estrada

uma alegria

 

uma faísca

uma palavra

uma bobagem

uma avenida

 

uma linguagem

uma repulsa

uma fantasia

uma estranha

 

uma ventania

uma memória

uma vontade

uma certeza

 

uma metade

uma poeira

uma plumagem

uma partícula

 

uma só

 

Uma Partícula (18ª faixa de Caos e Cosmos 1)

ouça Caos e Cosmos 1, de Rogério Skylab:

https://open.spotify.com/album/38AohYS7xgb4FMaOx4WQBq

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