Rogério Skylab, o artista da canção

 por Marcos Lacerda

Assim como muitos, comecei a conhecer a figura e a obra de Rogério Skylab através do programa do Jô Soares. Não lembro qual foi exatamente a entrevista que vi, pois Skylab participou de muitos dos programas. Acho que era um em que ele cantava “Acorda Siva Maria” (Skylab III, 2002), uma canção que repete uma fala da sua tia, um chamado para acordar a irmã. Sabendo que a tia costumava chamar um pouco antes do horário, ou seja, mentia sobre o horário exato, o ouvinte impassível, o próprio Skylab, não se contém e começa a revelar, exasperado, o truque da tia: “Mentira/Mentira”. A canção segue duas modulações. A primeira, monótona, emulando o chamado da Siva Maria (“Acorda Siva Maria/Ô Siva Maria”); a segunda mais agressiva, com o grito exasperado contando a verdade.

A performance levava ao riso da plateia. Viam ali uma figura esquisita, na forma de olhar, nos gestos, no modo de caminhar e, também, no tipo de canção que apresentava. Seguiu a ela, se me lembro bem, aquela que talvez seja a sua canção mais conhecida: “Matador de passarinho” (Skylab II, 2000). Uma crítica muito bem feita ao que pode haver de caráter ameno na MPB mais consagrada. Uma conversa direta com a canção “Passaredo” de Chico Buarque e Francis Hime, que se tornou numa ode à natureza, com seu tom bucólico, citando uma série de passarinhos e terminando com a reprimenda ao homem. Algo do tipo, “cuidado que o homem vem aí”. A canção de Skylab, ao contrário, inverte radicalmente os polos. Começando num tom de bossa nova, ou de um samba adocicado, vai também desfilando o nome de passarinhos e falando coisas doces e puras para depois, num átimo, dizer que aqueles passarinho serviam para serem mortos a bala e, assim, acabar com o tédio de existir. Ou seja, para o exercício da caça. Daí a coisa virava uma festa, com o refrão repetindo o título da canção: “matador de passarinho, matador de passarinho, matador de passarinho”.

Não é pouco. Para quem acompanha suas entrevistas, e elas são muitas, sempre muito vivas, o que faz dele para mim um dos grandes pensadores da cultura, sabe que a sua poética suja, altamente libertina e, mesmo, escatológica vai se desenvolvendo como resposta justamente ao que pode haver de excessiva amenidade em momentos da MPB, até mesmo de parte expressiva do chamado rock nacional, salvo algumas exceções. Em “Matador de passarinho” a resposta é direta: a música popular brasileira precisa ter mais vitalidade, afirmação, desejo.

Depois fui procurar ouvir os seus discos e canções. Comecei por “Fátima Bernardes Experiência” (Skylab V, 2005), em que se utiliza de um procedimento comum em suas canções: o deslocamento de sentido, que causa incômodo e desperta o ouvinte ao mesmo tempo. O incômodo pode gerar riso, mas também espanto. Skylab ressalta com frequência o mal-estar que sente quando as pessoas riem das suas performances e canções. Ele tem razão. O riso parece ser uma forma de defesa com relação ao espanto que causa os constantes deslocamentos de sentido da sua poética, o uso de figuras como as da ambiguidade. Eu diria ainda que existem quatro formas comuns às suas canções: a ambiguidade, o deslocamento de sentido, a estética do espanto e a poética suja.

Veja uma outra canção, por exemplo, “Tem cigarro aí?” (Crítica da faculdade do cu, 2019). Skylab pega um termo cotidiano, uma expressão que se pode ouvir pelas ruas, e a transforma em algo novo, dá a ela um outro sentido, de estranhamento. Junto a ela cita outras expressões que se tornaram comuns por conta da cultura de massas, por exemplo, os dizeres do Chacrinha: “Terezinha...”, uma chamada telefônica, uma propaganda de um radialista, e assim por diante. Aquilo que está no repertório dos clichês, do comum, do saturado, ganha vida nova e parece ser uma expressão que nunca foi ouvida antes, ou que ao menos não demos a atenção devida. Ao redor da expressão vão se seguindo falas de telefone, rádio, televisão e parábolas bíblicas. Mesmo Lázaro ao ressuscitar pergunta a Jesus de Nazaré: “tem cigarro aí, cigarro, tem cigarro aí?”. A força dos slogans é imensa, atravessa várias regiões da política, da história, dos meios de comunicação de massa e assim por diante.

 

Já em “Música para paralítico” (Skylab IV, 2003) temos um punk-rock que aproxima a dança, movimento do corpo com paralisia corporal, um curioso quiproquó que termina com uma citação-crítica a uma canção de muito sucesso no período: “Na boquinha da garrafa”, entre tantas outras da chamada axé-music. Assim, temos a figura do paralítico com movimentações corporais e o sucesso popular em meio a um arranjo de punk-rock. A ambiguidade, o espanto, o deslocamento de sentido e a poética suja podem ser percebidas nesta canção. Mas também em tantas outras. Pode causar horror uma canção como “A dança do corpo sem membros”, descrevendo uma movimentação do corpo desfeito, mutilado, com suas partes gerando movimentos que remetem a algum tipo de dança. Já em “Samba” (Skylab II, 2000), o ouvinte não espera, em meio às citações de andanças pelas ruas do Rio, às livrarias, ao catatau do Paulo Leminski, Ulisses de James Joyce, um verso como “gosto de ficar deitado com o meu peru na mão”.

 

Uma das suas canções mais conhecidas, talvez até mais do que “Matador de passarinho” é “Uma carrocinha de cachorro quente” (Skylab II, 2000). Os versos são divididos em estrofes, suspendidas por riffs de guitarra. Nos shows ao vivo, todos costumam cantar verso a verso. No primeiro, a seguinte situação. Um vendedor de cachorro-quente pego no pulo. Olhando de um lado para o outro para ver se não tem ninguém o vendo, começa a coçar as suas partes baixas, com a mesma mão que faz o cachorro quente. O narrador ao ver tudo aquilo se desespera: “moça, ô moça, não compra cachorro quente não!”. Não se sabe se é a descrição de uma situação real. Existe uma aproximação curiosa com “Você é feia” (Skylab V, 2005), aliás. Skylab emula certas entonações: o feia pra caralho se transforma em feia “pácaralho”, o “moça, ô moça” é dito quase com a boca fechada.

 

Segue a próxima estrofe. Nela é descrita a imagem da beleza feminina na sua máxima formosura. Olhos de esfinge, pés pequenininhos, seios redondos para terminar com o exato oposto, o negativo dessa imagem: “mas tem uma trolha”. Aqui temos novamente os quatro procedimentos que mencionamos, em especial a ambiguidade. Mas ela é seguida pelo deslocamento de sentido, o espanto e a poética suja. A descrição amena é seguida por um espanto exasperado. A aparição da “trolha” em meio aquelas ambiências de suavidade e beleza das curvas causa estupor, espanto, riso e incômodo. Imaginemos um quadro com uma paisagem lisa, extensa, horizonte bem definido, que causa conforto ao olhar ter, de forma súbita, a presença de uma rugosidade que se exterioriza à paisagem, com formas agressivas, como unhas que são cravadas nos nossos olhos e interrompem o bem-estar da visão anterior. É algo neste sentido, como ele mesmo o disse em muitas das suas muitas entrevistas, se referindo ao que mais lhe causa estranhamento e inquietação estética.

 

A forma se aproxima de “Matador de passarinho”, que segue a mesma lógica: descrição amena e grito, exasperação. Acontece com certa frequência, podemos apresentar mais dois exemplos. “Puta” (Skylab IV, 2003), um deles, onde o narrador vai descrevendo uma situação amena, conciliadora, de encontro com a beleza, para depois explicitar o conflito, o grito de alerta, numa boa crítica à mercantilização dos afetos nas relações comerciais. Outra, “Dedo no cu e gritaria”. A primeira parte anuncia um grande acontecimento, uma dupla sertaneja que vai sendo descrita e, quando acreditamos chegar no seu ápice, o nome da dupla está eivado de crítica e senso de ironia. A dupla se chama justamente “Dedo no cu e gritaria”.

 

As estrofes de “Carrocinha de cachorro quente” seguem essa mesma dinâmica. Começam amenas e vão subindo o tom até se transformarem em grito, desespero. Há uma relação de sentido entre versos como “Seria patético se não fosse pateta!”, “Um marimbondo entrou na minha calça e está picando a minha bunda!” e assim por diante.

 

Nem todas as canções são assim, claro. O samba “O meu pau fica duro” (Skylab IV, 2003)  apresenta a descrição de uma situação fisiológica comum aos que têm altos níveis de testosterona, mas ela também é seguida de uma citação inesperada: o clássico “Não deixa o samba morrer”. Também se nota algo parecido em “A empadinha de camarão” (Abismo e carnaval, 2012), descrição feliz da degustação do quitute que se transforma, no imaginário fortemente sexual do autor, na genitália feminina. “Deslizando na boca/penetrando macia”.

 

E onde mais é possível ver na canção brasileira a presença de palavras ou expressões como ureia, mictório, curra, glande, câncer no cu, prozac, lexotan, rato, Urubus, corvos, corpos desfigurados, mutilações, ou versos como “teus olhos são duas hemorroidas a escorrer” e assim por diante?

 

Existem também uma série de canções de um lirismo trágico e belo, que não acompanham necessariamente a estética do espanto, a ambiguidade, o deslocamento de sentido. Parece haver aqui uma condensação da sua poética, a incorporação dos procedimentos que mencionamos. Um caso desses é “Urubu” (Skylab II, 2000), em que o narrador traz um urubu machucado para a casa e fica descrevendo as belezas de veludo da ave, que enfeita a sala, é objeto de uma ode. Uma das estrofes salta aos olhos ao mostrar as reações da ave aos alimentos que oferece a ela o narrador

 

Se eu te dou banana e alpiste

Tu vomitas, endoidece

Mas se for carne estragada

Bate as asas e agradece

 

Depois, o narrador solta o urubu, após curá-lo: assim ele poderá achar no caminho bois, cachorros e criancinhas, e seguir o seu “honroso ofício”.

“Quem será que ele é” (Caos e cosmos 1, 2021) remete a mesma estrutura formal, dessa vez não exteriorizada no arranjo da música, que segue sem nenhuma alteração, muito menos exteriorizada nos saltos da voz. O canto é monocórdico. Mas a letra da canção remete à tensão. Em meio à festa de carnaval, som histérico, dança na rua, festejo, um sujeito está ali parado, duro, não se mexe, quase como um voyeur que apenas observa tudo. O narrador, em terceira pessoa, se pergunta: “Quem será que ele é? O que será que ele pensa? O que será que ele quer?”

 

Em “O impossível” (O rei do cu, 2018) a antítese no DJ surdo, no Cantor mudo, no Fotógrafo cego e na Bailarina manca. Sempre a denotar a imagem da ambiguidade, do deslocamento de sentido, da estética do espanto, da procura do abismo, do impossível, do vácuo. Aliás uma das suas canções se chama mesmo “Vácuo” (Skylab IX, 2009). Tem também o “Cego em Bagdá lendo o alcorão” em Cântico dos cânticos (Skylab III, 2002).

Em meio a tantas canções, discos, e uma carreira muito profícua e de alto nível, termino com três das suas canções que mais ouço entre todas: Bengala de cego (Skylab & Tragtenberg" vol. 1, 2016), O Amor tem razões  (Nas portas do cu, 2019)  e Venham saturno, júpiter (Nas portas do cu, 2019). A primeira é uma das suas canções mais belas, descrevendo a relação de um cego com sua bengala, e mostrando o quanto a bengala é uma espécie de continuação do corpo (estende meus braços/ continua minha mão) e da percepção do cego (Alerta, investiga, espreita, enxerga)

 

Essa bengala é meu corpo

Tateia o que me cerca

Diz o que não saberia

 

A bengala compensa todos os sentidos e também avança para caminhos novos, estende a sensibilidade, permite fazê-lo percorrer limiares, o coloca à beira do abismo, o faz avançar por caminhos suspeitos. A canção é toda em modo menor. Tem algo de trágico, evidencia a vulnerabilidade do cego que serve como metáfora para a nossa própria vulnerabilidade, o desespero da consciência da finitude, os limites da existência pessoal, a consciência madura da castração originária.

 

Se em “Bengala de cego” o clima é de afirmação trágica da realidade, “O amor tem razões” como que nos desperta e dá a nós, de forma generosa, algo como uma reparação simbólica, a possibilidade de alguma euforia, o deslumbramento, a quentura da vida, a luminosidade do afeto. Após a dor profunda, o choro solto, a queda, a fuga, o desaparecimento temos o delírio do canto, da dança, o retorno, a impulsão do desejo, a afirmação da vontade de vida “porque o amor tem razões/que ninguém vai descobrir”.

 

Por fim, terminamos com uma das suas mais belas canções. Também ela, uma canção de afirmação da vontade de vida, “Venham saturno, jupiter”. Skylab vai desfiando figuras mitológicas, da literatura, da canção popular e do pensamento humano. Nereias, Ninfas, Musas, Amazonas, Eros, o surgimento, no fim de tudo, no espaço impreciso entre o ser e o nada, do grande cavalo de troia, do fogo de Atenas, de um querubim que surge em meio às nuvens negras, ao risco da melancolia e do luto, para afirmar que nada acabou, que a vida permanece ativa e luminosa.

 

O narrador relato o que já viveu, fala sobre o mal que já viu durante séculos, parricídios, tempestades, tiranias, traições de filhos, irmãos, irmãs, a miséria dos que precisam comer o resto, o lixo, o esgoto, e mesmo assim vê a luz surgir, como se pudesse reconhecer a beleza que emerge num lugar impreciso, entre o abjeto e incandescente, o terrificante e o Belo  “que queima, arde, faz tudo brotar outra vez”. Belo que pode ser vivenciado no poder de baco, na visão das bacantes dançando em volúpia, fogo e fúria. O desejo aqui é de afirmação trágica da vida: “Quero a convulsão de quem delira numa noite de ópio”

Uma performance excepcional desta canção é a que se pode ver numa das muitas participações de Skylab no programa The Noite, de Danilo Gentili. Após ressaltar seu interesse pela metáfora, por aquilo que não é a coisa em si, mas a realidade simbolizada pelas palavras, e a palavra que pode ser a poética, filosófica, literária, mas também cotidiana, jornalística, do senso comum, do slogan publicitário, Skylab começa a cantar a canção, só com o violão de Thiago Martins, e sentado no sofá. Vai mencionando verso a verso, as estrofes que vão com os personagens míticos, as figuras gregas, que são também expressões do inconsciente e do imaginário humano e, mesmo, para-além ou aquém do humano. Uma a uma, ele mesmo tomando o papel do narrador, o poeta-épico que conta para o menino ao lado, no caso, o jovem humorista Murilo Couto, as desventuras que viveu, os horrores que viu, mas também a beleza e a luminosidade da vida, que deve ser afirmada na sua tragicidade.

 

Num determinado momento, se levanta e parece ser um poeta flamenco. Faz gestos com os pés, olha para cima, o riso da plateia parece ser um riso de compreensão do significado daquilo. Se misturam ali, a poesia da Grécia antiga, o ambiente de programa popular televisivo, o refrão dos Beatles, a menção ao rock dos anos 60, bacantes, bacos, nereidas, ninfas, cavalo de troia. O público vai ao delírio no final. Involuntariamente, Skylab tropeça e cai no sofá. A canção termina. O apresentador pergunta: “este tropeço estava previsto?”. Skylab responde, como que troçando: “Estava”. Claro, não estava. Ou será que estava? “É tudo falso, é tudo falso” (Skylab III, 2002) Ou seja, é tudo excessivamente Real.

Crédito da foto: Zô Guimarães / Folhapress

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