Produção Crítica
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O Alcance da Canção: ensaios sobre música popular. Luis Augusto Fischer & Carlos Augusto Bonifácio Leite (orgs.). Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2017. 392 p.

por Alexandre Marzullo

O Alcance da Canção: ensaios sobre música popular é fruto de um percurso formidável e longevo, traçado com profunda dedicação e paixão pela canção popular, palmo a palmo, curso a curso. Me refiro, claro, à atuação do professor e ensaísta Luís Augusto Fischer, literato dedicado ao estudo e ao ensino da canção brasileira, sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Um dos organizadores de O Alcance da Canção, junto com o poeta e professor Carlos Augusto Bonifácio Leite, Luís Augusto Fischer foi o fundador da pioneira cadeira de Canção Popular na UFRGS nos anos 1990 e, posteriormente, do Núcleo de Estudos da Canção, em 2008, ponto de pesquisa e atuação multidisciplinar dentro da própria UFRGS, vinculado ao departamento de literatura da mesma faculdade.

 

Os estudiosos da canção sabem muito bem da dificuldade que o objeto “canção” apresenta, epistemologicamente, ao seu interessado observador. Mercurial, a canção, ao mesmo tempo em que “puxa por todos os lados”, parafraseando Wisnik, também parece escapar a qualquer leitura que não lhe identifique um sentido essencial; quase como se, alcançando tudo, a canção, esta forma estética inacreditavelmente livre, jamais abdicasse de seu ímpeto primeiro, isto é – jamais deixasse de ser canção. É assim que ela, à guisa de um sonho todo águas, escorre por entre os dedos, não se fixa em definitivo algum e, ao mesmo tempo, docemente, está sempre presente. Como isso é possível? Como falar de canção assim?

 

Bom, os estudiosos da canção também sabem que existe, pelo menos, um sistema de análise da canção compreensivo e elaborado com terminologias e metodologias próprias. Trata-se, evidentemente, da Semiótica da Canção, inaugurada pelo músico, compositor e professor Luiz Tatit. Mas na margem da Semiótica, e justamente pela ampla maleabilidade da canção, seus aspectos estéticos, poéticos, metafísicos, se assim quisermos, suprassensíveis ou mesmo simplesmente sociais, econômicos, em suma; justamente pela sua pujante diversidade de amplitudes, outros métodos e visagens sobre a canção, para além da Semiótica, se acumulam; e isso é bom. Enquanto houver sociedade, haverá dissenso, e não só a pesquisa agradece, como o próprio fazer-canção; o próprio pensar-canção. De modo que talvez a palavra fundamental, ao se observar o fenômeno cancional no Brasil, seja justamente sua pluralidade possível.

Observando a coletânea O Alcance da Canção, tenho a sensação de que é este também o norte do projeto, encetado por Fischer e por Bonifácio Leite. Ao longo dos 22 ensaios, uma série de aspectos distintos e multifacetados, todos pertinentes à canção, mas espraiando-se dela com ímpeto híbrido e transdisciplinar, são abordados. Ensaios que tratam da canção como dado do real e do imaginário-mais-que-real: da capilaridade da canção em suas permeabilidades poético-literárias, às instâncias sociopolíticas enunciadas criticamente pelo verso cantado, seja no estudo das encenações do feminino e sua identidade de gênero, seja na cartografia dos maquinários da opressão; ensaios que tratam da canção como percurso continental: do manguebeat ao desenvolvimento da canção popular porto-alegrense, incluso seu “vai-não-vai” e sua Califórnia Nativa, à análise musicológica e semiótica de obras clássicas e figuras canônicas, fundamentais do repertório brasileiro, como João Gilberto e Caetano Veloso, sem esquecer, claro, da própria problemática na expressão “música popular”; ensaios que tratam da canção como fenômeno além-domínios: da milonga solta no tempo, encontrando-se com o perene fascínio na mística de um compositor como Athualpa Yupanqui, ao espanto transfigurador das fissuras brasileiras na lírica de Bob Dylan; ensaios que tratam da canção como diálogo do horizonte: das relações insólitas e possíveis traçadas entre a estética do frio – viva Vitor Ramil! – e a música australiana, mas não somente, pois é possível aproximar Cortázar e o jazz; mas ensaios que tratam, também, da canção como dissensão: sua crítica e seus críticos e os encontros e desencontros entre palavra de análise e palavra de artista, bem como ao conflito interno dos jabás no circuito musical; mas ensaios que tratam, também, da canção como benção, sempre: com a licença e o devido cuidado de ouvir e estudar os patriarcas: salve, Catulo! salve, Donga! salve, Sinhô! salve, Noel! sem esquecer de suas formas, como o samba-enredo; e finalmente, ensaios que tratam da própria possibilidade da canção como método de ensino; como instrumento formativo; como caminho sentimental e educacional, seja em sala de aula, seja na temperança da vida:

 

em suma, vinte e dois ensaios que tratam da canção como civilização.

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