Produção Crítica

Marcos Lacerda entrevista Letícia Helena

Produtora cultural, atriz, diretora, roteirista, maquiadora, carnavalesca e encenadora, formada em Artes Cênicas pela UnB, Letícia Helena trabalha com o universo artístico faz algum tempo, a partir de 2001.Desde 2015 vem trabalhando com a cultura popular, através dos festejos do Carnaval. É atualmente criadora e produtora do Coletivo Folia com Respeito; contribuiu com a Rede Carnavalesca de Pesquisas e Memórias do Carnaval e, com a Praça dos Prazeres, o maior polo de Carnaval no DF. Integrante do Bloco do Amor desde a sua fundação, é responsável pela construção visual e cênica através do figurino e indumentárias. além de fazer parte do corpo performativo . 

Trabalha com Produção Musical desde 2016, através de sua banda performativa Cantigas Boleráveis e em colaboração com diversos artistas brasilienses. Recentemente fez parte da equipe de produção do GRV Live & Digital Music Conference, um evento virtual e gratuito que fornece capacitação para músicos e musicistas que queiram entender como o mercado musical. 

 

Atuou também na coordenação de produção da 6a edição do Prêmio Profissionais da Música, que acabou de acontecer, um evento 100% gratuito e digital. Desde junho vem trabalhando em sua pesquisa sobre a autoprodução cultural de artistas independentes e apresentando o programa Pala Virtual onde conversa com artistas independentes do Brasil com alguma conexões pelo mundo.

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Marcos Lacerda: Eu queria que você falasse um pouco da sua relação com a música, com a canção popular em especial.

 

Leticia Helena: Acho que minha relação com a música hoje está diretamente ligada à enorme admiração por todo o trajeto pela qual ela passa, do processo de criação à emoção que ela causa quando chega ao público. Quem nunca ouviu uma música que te fez chorar, rir ou sentir saudades? Mas esse vínculo realmente se estabeleceu através do teatro. Foi na faculdade de Artes Cênicas, na Universidade de Brasília/UnB, que aprendi a me preocupar com a sensação que a escolha da trilha sonora poderia causar. Desde a primeira peça que dirigi optei pela criação de uma trilha original e pela execução ao vivo por acreditar que o público conseguia se conectar mais profundamente e assim, ser transportado para o mundo que criamos. Foi na UnB que fiz parte da primeira banda de músicas autorais, e eterna em meu coração, Cantigas Boleráveis. Foi com o Cantigas onde, pela primeira vez, senti que música, teatro e performance se entrelaçam e se complementam em uma relação intensa e poligâmica. E, foi por ela que acabei indo atrás de aprender cada vez mais sobre produção cultural.

 

 

ML: Então você além de produtora cultural, é atriz e musicista? Fala um pouco para nós sobre isso também, a sua carreira como atriz e cantora.

 

LH: Sim. Me graduei na UnB em Artes Cênicas e foi justamente da vontade de dar continuidade à diversos projetos maravilhos que via nascer na Universidade que, veio a produção na minha vida. Foi nesse espaço acolhedor onde experienciei diversas técnicas e, onde entendi a dimensão da cadeia produtiva que move as artes. Me apaixonei por diversas áreas. Dentre elas ainda trabalho como maquiadora, cenógrafa, diretora, roteirista, carnavalesca, cantora, atriz e produtora.

 

Como atriz tive o prazer de ser dirigida por diretores e diretoras fantásticas como Hugo Rodas e o saudoso e queridíssimo William Aguiar. Me encontrei dentro do drama e da tragédia, e Antígona foi a personagem com quem mais me identifiquei.

 

E como cantora, isso é uma paixão de sempre, principalmente com a música popular. Na banda Cantigas Boleráveis pude representar minhas raizes pantaneiras e trazer releituras para músicas que habitam a memória afetiva brasileira e sul americana. Mais uma vez busco a carga dramática em minhas performances musicais muito inspiradas por ícones femininos como Chavela Vargas, Violeta Parra e Alcione.

 

 

ML: Isso nos interessa muito. Você, além de artista da canção, atriz, e com uma forte ligação com a música e com os experimentos estéticos em geral, é produtora cultural. Atua nestes meandros difíceis e muitas vezes ásperos de articulações que envolvem tantas coisas - Estado, sociedade civil, questões econômicas e assim por diante. Fale um pouco para nós sobre a sua atuação como produtora cultural...

 

LH: A produção veio como uma necessidade e uma manifestação do meu "inconformismo aquariano". Eu ficava muito chateada com a vida tão curta de projetos que eu admirava e sentia que o mundo todo tinha de assistir para sentir o mesmo que eles me provocavam. Sabe, quando você gosta de uma música e você quer que todo mundo escute também? Era assim que eu me sentia quanto a diversos projetos fantásticos que não tiveram continuidade por não possuírem uma produção que agendasse shows, apresentações, e também que pudesse ser uma fonte de renda para as e os artistas. Comecei produzindo os meus projetos e, conforme eu ia aprendendo uma coisa nova, eu também compartilhava com amigos artistas com quem realizo diversas colaborações até hoje.

Acredito muito em crescermos juntas e juntos, no auto gerenciamento e na auto produção cultural mas, também penso que existem perfis distintos e, que, é importante identificar onde o seu perfil te leva a trabalhar e identificar onde possui mais dificuldades e buscar parcerias para executar essas funções.

 

E, de tanto ir produzindo no cenário independente, acabei indo trabalhar em grandes produções aqui de Brasília como, por exemplo o Prêmio Profissionais da Música (PPM) onde faço parte da equipe de produção desde 2018. Ali, tenho a oportunidade de acompanhar artistas e trabalhadores de todo o Brasil, nessa enorme cadeia produtiva que a música move. Para mim produzir é fazer acontecer. É tornar os sonhos tangíveis, estreáveis e (preferencialmente) rentáveis, para quem vive da arte.

 

 

ML: Você participou também de projetos ligados ao carnaval...

 

LH: Sim, tem uma produção da qual tenho muito orgulho que é o Folia Com Respeito. Uma campanha que surgiu da necessidade de fazermos algo contra a crescente violência em eventos populares contra mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+. Eu trabalho com Carnaval no DF desde 2010 e acompanhei o crescimento do festejo de rua e, infelizmente, junto desse crescimento veio também o aumento da violência nesses eventos. Um reflexo das violências cotidianas mas, concentrada em um dos maiores eventos populares do nosso país. Quando uma de nossas amigas foi atacada e espancada por cinco caras e, com nossas queixas sendo ignoradas pelas Secretarias de Estado, decidimos produzir nós mesmas uma campanha. Hoje temos uma Carta Compromisso e um Selo onde diversos blocos e atrações firmam juntos e compromisso de mantermos um ambiente livre de violência e assédio, onde o foco da organização seja a segurança e respeito em seus espaços e territórios.

 

 

ML: Ah, muito interessante. A próxima pergunta é sobre a relação que você vê entre produção cultural e mediação crítica. A produção cultural é uma forma de mediação crítica? Os produtores culturais, assim, além do trabalho fundamental de viabilização de eventos/acontecimentos culturais, acabam voluntária ou involuntariamente atuando no âmbito da crítica? Eu digo isso porque acho que a produção cultural tem uma relevância muito grande para a mediação crítica...

 

LH: Marcos, tem uma super relação sim. Dentro de um mercado onde é ainda muito difícil conseguir, de forma independente, um alcance suficiente para que a ou o artista viva da sua arte, é sim uma forma de dar visibilidade, de auxiliar esses artistas onde eles não possuem afinidade, não tenham interesse ou não saibam atuar.

 

Bom, eu trabalho com artistas independentes autorais, uma classe com pouquíssima visibilidade comercial. Quando conseguimos colocar algum artista em projetos de relevância isso é maravilhoso pois, os grandes espaços geralmente são reservados às atrações já consagradas e com público garantido. Sendo assim, acho que produzir é conseguir fazer com que mais e mais artistas consigam alcançar seus objetivos e consigam viver de seu trabalho artístico.

 

Eu, como artista e produtora decidi contribuir com trabalhos que tragam bandeiras em que acredito. Apesar da maioria delas possuir pouco espaço ou apelo comercial, são as mais importantes de alcançar os corações das pessoas. É aquela peça que te impacta, aquela música que te faz entender algo sobre si e sobre o outro, aquela performance que vai arrebatar seu coração e reverberar por dias... Esses são os projetos que mais amo escrever. O texto sai fácil porque você acredita em cada linha que escreve e, coloca ali um bocadinho de como você gostaria que o mundo fosse.

 

 

ML: Para terminarmos, fale um pouco sobre projetos culturais que você vem acompanhando, de outras produtoras e produtores culturais, o que vem acontecendo em Brasília, mas não só. Em suma, quais trabalhos que você considera mais relevantes no cenário atual?

 

LH: Vou aproveitar o espaço para enaltecer as profissionais e os profissionais que se auto produzem, ou produzem espaços culturais, além de serem artistas autorais fantásticos e fantásticas. Brasília é um caldeirão cultural, Marcos. Mas, é um caldeirão onde o governo vive apagando nosso fogo! (risos)

Aqui temos algumas atrocidades jurídicas, como a Lei do Silêncio (Lei Distrital nº 4.092) que dificulta muito o nosso trabalho. Mesmo assim, temos muita gente maravilhosa, que continua produzindo lindos trabalhos. Gente como Paula Sallas e João Porto Dias que estão à frente do Galpão do Riso; pessoas como Victor Hugo Leite (vhafro) e toda equipe do Odu Festival de Arte Negra; o cantor, compositor e administrador de espaço cultural Ferdi; Arthur Scherdien com seus projetos necessários; Tonhão Nunes com sua voz e interpretação única; Mestre Betinha, força e resistência à frente do Asé Dudu; a banda Protofonia, que emprega a música experimental como trilha para a vida; Yuri Pleno, à frente da Banda Pleno e envolvido em diversas produções importantes; a voz de Bruna Torre na Banda Mirante... Tem também as com os corações em Brasília e o corpo no mundo como a cantora, compositora e dona do meu coração Puta Romântica, ou a artista performativa Jaja Rolim e Tita Maravilha com seu fantástico projeto “Art Travesti Is Urgent”; natália carreira, com suas composições e shows intimistas e deliciosos; e a drag queen Mackaylla Maria, ambas em SP; o trabalho sem defeitos do Distrito Drag que promove capacitação, empregabilidade e exposição das fabulosas artistas drags que temos aqui no DF; Nanãm Matos com sua força, grandeza e suavidade; Emilia Monteiros que nos oferece o delicioso som do Pará...

Brasília provoca esse delicioso encontro de sons, de sotaques, de batidas e de manifestações culturais que a posição geográfica e federativa nos confere e, que resulta nessa explosão de encontros e feets deliciosos.

No restante do Brasil tenho muita gente ainda a conhecer mas, graças ao programa Pala Virtual, que apresento no meu Instagram tive a oportunidade de conhecer artistas deliciosos e deliciosas como Karola Nunes do MT, Bella Nogueira e Joaoeascoisasnaoessenciais, ambos do ES.