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  • Alexandre Marzullo

Blog Uma Canção #01/ 11 - Gustavo Infante - Pássaros (2021)

No Blog Uma Canção #01, seção móvel da revista, recebemos o mais novo álbum de Gustavo Infante, o belo e singular álbum Pássaros, lançado em setembro de 2021 pelo selo Bastet em colaboração com a gravadora ybmusic.


Segundo álbum do artista, Pássaros apresenta ao mesmo tempo uma continuidade e uma redefinição de seu universo sonoro e poético, apresentado pela primeira vez em seu álbum de estreia, SER (2019). As continuidades estão nas tapeçarias de violões, dedilhados e ritmicamente explorados, com uma certa ausência de percussões, o que contribui para a sensação de leveza e suspensão das canções de Infante. Igualmente, continuam os temas poéticos que, de certa maneira, refletem o estilo violonístico do artista: imagens marinhas, espirais, caracóis, um campo onírico e sugestivo de visões e anseios, além da forte consciência do próprio canto. Em suma, nos dois discos há uma grande atenção ao ambiente instrumental e aos detalhes composicionais de suas faixas, bem como ao relacionamento entre voz, violão e poesia.


Mas como dissemos, há também uma redefinição entre um disco e outro, disposta em uma verdadeira reorientação de sua concepção sonora: em Pássaros, todas as quatorze faixas foram elaboradas com o uso de fitas cassete e microcassete, com o uso ativo de tape loops, processamentos de som e modos diversos de captação. Como resultado, o famoso “chiado” obtido pela reprodução das fitas cassete se tornou um valor presente ao longo de todo o álbum – elemento habilmente poetizado pelo artista, e singularizante em plena era de streaming. Há muito a ser dito sobre isto, e o faremos em momento oportuno.


Seja como for, a partir daí, as canções se desenvolvem como pássaros de sonho, ou melhor, marés de caracóis: feixes luminosos em fita magnética cor de âmbar, com brilho de tenor. A atmosfera intimista dos arranjos de Gustavo Infante sugere imersões ao ouvinte, cortes temporais realçados pelo chiado da fita cassete (daí termos mencionado um campo onírico em suas faixas); além do mais, como o próprio artista anuncia na primeira canção do disco, "o sonho esfumaça".


Do mesmo modo, talvez venha daí a recorrência das figuras de travessia, como nas faixas "Canoa Dança", "Canoa de Dentro" e "Passagem" (dentre outras); a ideia de travessia é importante porque, da mesma forma como a canção, o sonho é uma experiência em movimento: um ingresso em campos de abertura de sentido. E este parece ser o limiar de Pássaros, e da poética de Gustavo Infante: uma interpolação possível entre o som e o sonho, "esfumaçante": o sinal é o chiado.


Ouça Pássaros (2021): https://open.spotify.com/album/43U3t28yQkSdzjFYEMoKou?si=xJxV_t0qR_efye0BJsTUUQ&dl_branch=1




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