O Que Aprendi Com Os Homens (2021), Paulo Ohana

por Alexandre Marzullo

...existe amor, existe o som

...começa em movimento:"Camisa Xadrez", uma pequena-canção-quase-vinheta. Trata sobre um rapaz que vai ao encontro de seu encontro; nos versos, o amor, a paixão, a transa delicada, quem sabe; principalmente, o não-saber ansioso, antecipando todo porvir. Apenas voz e violão na faixa, e nesta pequena canção habitam tantas outras: das crônicas noturnas do cancioneiro celebrado da MPB aos relatos cantados à margem, na literatura secreta das esquinas. Sim, angústia de existir & vontade de amar: camisa xadrez, anunciando o próprio álbum que ela mesma inaugura, O Que Aprendi Com Os Homens, do cantor e compositor paulista Paulo Ohana.

Autor de todas as canções do disco – assinando em parceria com Letícia Fialho a canção “Caboclo” –  Paulo Ohana é também, nitidamente, um poeta com a qualidade rara da crônica na canção. A eloquência de suas versos sugere, por vezes, um caráter autobiográfico penetrando o forro das composições; suas narrativas são alimentadas e adensadas com a verossimilhança de seus protagonistas, ardentes no seio da noite. Ohana é um cronista do eu que ama.

Em outra oportunidade, eu escrevi que o amor inaugura seu próprio tempo, sua própria orbe e urbe; ao longo de O Que Aprendi Com Os Homens, o que escuto é que o amor inaugura São Paulo. Há amor em São Paulo, embora talvez não seja o que se espera, e sim o que se encontra; a cidade é o centro da segunda faixa do disco, "Retrópicos", que encerra com a bela, firme voz do cantor relatando sua própria sublimação amorosa: fragmenta-se de paixão, como Orfeu despedaçado pelas bacantes, ao longo das paisagens paulistanas.

a solidão de São

São Paulo, meu amor

Há em "Retrópicos", mais em ideia e imagem do que em música, um eco da paradoxal tradição de vanguarda que tanto parece sintetizar a metrópole paulista; são reverberações que partem da Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade e passam pelo Caetano Veloso de Tropicália, cinemático, inaugurando o monumento, orientando o Carnaval sob a fragilidade de toda parte. Essas reverberações, como sombra e como luz, se perfazem contemporâneas em Paulo Ohana – e se tornam personalíssimas: antigo e jovem ao mesmo tempo, tradicional e subversivo, o artista e sua canção reinauguram-se. Não se estranha, a partir disso, que a próxima faixa seja justamente seu anúncio e manifesto: a faixa-título – O Que Aprendi Com Os Homens.

 

com os homens aprendi a ser homem

com os homens vivi

com os homens aprendi a ganhar

com os homens perdi

com os homens aprendi a maldade

com os homens fui bom

com os homens aprendi a crueldade

com os homens não aprendi nada

 

Os versos são contundentes, com uma lâmina dupla; de um lado, Paulo Ohana retrata como a convivência masculina – uma convivência contínua, como revela a reiteração "com os homens (...) / com os homens (...) / com os homens (...)" – é a maior prova da própria falência da identidade do homem, ou melhor, desta ideia estranha que é o “ser masculino” na contemporaneidade. Pois está posto como um espelho quebrado: conviver com os homens se torna o caminho ideal para a despersonalização de si, e este é o próprio nervo exposto pela canção: o que é que se aprende dos homens, afinal?

Mas, cautela: afinal, se a lâmina é dupla, essa é apenas uma das faces do que nos diz o artista. Pois por outro lado – e talvez seja o lado mais importante na canção – a música retrata uma tomada de consciência, uma saída dessa mesma despersonalização: o sujeito vem, mas é por força dos desencontros que lhe fundam, que lhe frustram, e que lhe urgem a finalmente vir. Logo, compete ao sujeito o sentido, e como séculos atrás escrevera Novalis, este - o sentido - é sempre amoroso.

com os homens aprendi a confiar

com os homens me enganei

com os homens aprendi a arrogância

com os homens me arrependi

com os homens aprendi a verdade

com os homens menti

com os homens aprendi a coragem

com os homens fugi

com os homens aprendi a matar

com os homens morri

Justamente, há quem diga que todo mito, toda história e toda canção, no fundo, tenha por objeto o amor ou a vontade de amar. É uma generalização perigosa, como todas as generalizações, mas me parece uma generalização encantadora. E sinto vontade de aplicá-la ao belo disco de Paulo Ohana; suas próprias canções são meu incentivo para tanto. Como prova, aponto a singela "Carinha", que segue com delicadeza a dinâmica faixa-título; apenas a voz do artista e dois ou três violões ao redor, embalando o desejo que tinge as noites e os dias:

quero ser menino, homem, bicha, ser humano com você

"Carinha" dá lugar à assombrosa faixa "Caminho Caminho", sobre a qual já escrevi no Blog Uma Canção #1. Muito embora não seja a faixa-título, me parece que "Caminho Caminho" é a pedra de toque do disco; é a canção onde tudo converge – o primeiro caminho leva ao segundo caminho, do título ao refrão. Eis o que escrevemos, na ocasião:

"Caminho Caminho" é uma canção que mantém os olhos fixos em um percurso interior e amoroso, sem esquecer dos dias saídos. Ao mesmo tempo, seus belos versos anunciam um abre-alas, um despertar para novas idas e vindas; reiteram a vocação andarilha do compositor, bem como a de todo ouvinte que nela se reconhece. 

Pois há algo de extraordinário ocorrendo em O Que Aprendi Com Os Homens, e esta canção é testemunha.

caminho, caminho

não sei bem por onde ir

eu quis te encontrar menino

ainda não tinha feito as pazes

com o meu destino

A partir de "Caminho Caminho", as próximas faixas demonstram facetas musicais muito interessantes do artista; experimentações de timbre, forma composicional, com tempos diferentes, quase pequenas suítes e muito vigor instrumental, além da ampla demonstração dos recursos de Ohana também como intérprete de si; Ohana-cantor. Veja-se "Caboclo", que retrata um enamoramento a acontecer no Planalto Central, entre as matas, e o faz com um matiz literário quase; impressiona a exatidão das imagens, a percussão distante, a atmosfera rústica e úmida que domina a faixa (há uma quase quebra de textura em relação às outras faixas). Sobretudo, impressiona a extensão vocal de Paulo Ohana. O refrão é como um gemido, um uivo noturno de desejo. A glória do amor entre dois homens.

Já "Pálida Estrela", uma canção de inquietudes, começa com uma bonita cantiga, desaguando logo depois em uma canção repleta de perdas e arrepios – nenhuma estrela virá / guiar meus sonhos vadios / no canto escuro de um bar –; o protagonista adquire feições de um trem que descarrilha, quase; mas não dura. Uma paz, talvez a própria canção, talvez o amor, sobrevém com o retorno de seu primeiro tema – é permitido sonhar, apesar de tudo. E quase como mensagem implícita, sucede "Perdão", outra joia no repertório do disco. "Perdão" é uma crônica confessional, inteligentemente ambígua: ao mesmo tempo na carne e ausente. O arranjo traz o que parecem ser guitarras portuguesas; talvez não sejam. Entre a sinceridade e uma saudável ironia, Paulo Ohana mantém seu canto no limite do mordaz; a voz, quase falada, e a ambiência da faixa realmente remetem a um fim de noite sem maiores alumbramentos, na luz silente de uma mesa de bar. Mas se há canção, então alguma esperança subsiste, mesmo “sem querer querendo perdão”:

eu tô pagando o preço, pode crer

tô fechando a conta do bar

o troco pode ser que venha na mesma moeda e só na semana que vem

quando eu estiver valendo o mínimo pra pedir perdão

Caminho, caminho: de "Perdão" às "Duas Almas", penúltima faixa, dobrando sinos e vozes em um único som: esta sim, a grande ode ao amor do disco, após o intenso percurso de descobrimento de si ao longo do álbum - fundação, refundação, floresta e trilha rica. A utopia do uníssono, este fenômeno quase que exclusivo da música (ou, pelo menos, até onde tenho conhecimento) é a deixa para o canto de Paulo Ohana acontecer em uma dimensão mais etérea, quase propriamente mística, da experiência do amor; sim, este amor é como o de outrora: é o amor dos trovadores, dos enamorados do divino; é a noite dos românticos. Aqui, estamos todos perdidos em plena luz.

como pudesse fundir a voz

a nossa voz

em um som

E por fim, o final depois do fim: "Desencanto" nos traz de volta à São Paulo: é o retorno a terra. Outra pequena-canção-quase-vinheta, um samba impecável, apenas na bonita voz do artista, e no ritmo improvisado, penumbrado, emocionado. Paulo Ohana é um artista que ama:

 

mais velho, mais forte, eu me levanto e vou

Ouça O Que Aprendi Com Os Homens, de Paulo Ohana:

https://open.spotify.com/album/0qOkhUYysFnNtToCphFYUa

paulo ohana.jpg