Paquito - Xará (Short Songs) (2019)
por Alexandre Marzullo

Xará (Short Songs) é o terceiro álbum solo do cantor e compositor Paquito, lançado pela Dubas Música em 2019. Composto por vinte faixas, muitas delas de curta duração - e daí o subtítulo - Xará (Short Songs) apresenta o artista com seu inescapável violão de aço, reverberando, ao mesmo tempo, Caymmi, João Gilberto e uma atitude rock'n roll que se desenvolve, mais espírito do que forma, em tonalidades afetivas: tremenda intimidade, à meia-voz, que é como se deve cantar na altitude das madrugadas, e na proximidade dos amantes. Existe aí, de pronto, uma concepção da canção popular em Paquito, elaborada pelo compositor ao longo das vinte faixas de Xará: a canção como um veículo afetivo de convergências: objeto cultural, complexo e histórico.

Para dar conta da canção popular em tal altura, deve-se aceitar as suas convergências enquanto objeto brasileiro da mais alta importância. Mais do que um percurso de síntese, a ideia é a de um fluxo de tensões e repousos entre diferentes manifestações culturais, preservando assim suas diferenças. Em outras palavras, abraçar o ofício do compositor popular implicará em lidar com a literatura de cordel e com a alta literatura como se ambos fossem um glorioso livro único, de páginas mutáveis; implicará em lidar com as instâncias da filosofia e do pensamento crítico, e com a herança religosa (católica; africana; neopentecostal) que moldou cidades e gerações brasileiras como se fossem metades de uma mesma fruta, suculenta e surpreendente. E implicará em lidar com as formas poéticas e musicais que atravessam as camadas populares, dos regionalismos às vanguardas eruditas, do mainstream ao cantochão esquecido. A responsabilidade pelas escolhas será sempre do artista. Como Villa-Lobos, que disse, altivo e fenomenal, "o folclore sou eu", e Caetano Veloso, repercutindo a Tropicália, "eu inauguro o monumento / eu oriento o Carnaval", o compositor popular toma para si a tarefa de reinaugurar o mundo a partir do desfolhar de sua bandeira (Geleia Geral). Mas sem perder a ternura; sem esquecer a sensualidade e o chiste, a doçura e a reflexão. 

Particularmente, pela audição do disco Xará, suspeito que Paquito concordaria com o parágrafo acima; faço notar, inclusive, suas escolhas estéticas na composição, na lírica e nos arranjos de suas canções como atos deliberados, em seu minimalismo - a maior parte das canções possui arranjos esparsos, concentrados na voz e violão de Paquito -, para a exposição de uma intensidade poética que se alimenta e se amplifica pelas convergências articuladas na canção. E assim, como nas figuras luminares de Caymmi e João Gilberto, conjugando tantos mananciais e referências, o que sobressai é a voz própria do compositor. Paquito é um artista da canção lapidada, inquieto sem perder a tenrura; inconfundível.

O disco recebe inúmeras participações ao longo de suas vinte faixas. Nomes como Lívia Nery, Morotó Slim, Tata Honorato (sobrinha de Paquito, com quem o cantor faz um charmoso dueto na faixa Melô do Aquecimento Global), Eduardo Luedy e Geronimo Santana, além da presença de Caetano Veloso, com quem Paquito dueta na genial faixa Barulhento. Chegaremos lá.

O disco abre com sua faixa-título, entoada como se fosse uma oração a Santo Antonio (daí o título), sussurrante, mas logo desenvolvida à maneira de uma conversa que, ao mesmo tempo, é toda súplica e reclamação (desça desse velho altar / e desfaça seu mal-feito / eu ando por aí a rodar / só porque fui seguir seu preceito / me socorra meu santo e xará / eu carrego o seu nome em meu peito). O "malfeito" de Santo Antonio é um amor, ou melhor, o mal de amor que fustiga o narrador (Antonio meu xará / um amor eu arranjei / como faz pra me livrar). Um piano pontua os graves ao longo da canção, que termina com um órgão sacro, arpejando ascensionalmente ao sinal do pungente verso o amor é um céu imperfeito. A partir desse momento, o mal de amor se mescla com as faces e matizes do sentimento divino, e não sem ironia: quem quer? amor de José / quem quis? amor de Luís / quem queria? amor de Maria. 

Amor, fé, canção, humor, a profunda beleza e ternura: estão dispostos os termos do percurso que Xará (e Paquito) elaborará ao longo das demais faixas. Caro Canto traz o regionalismo nordestino em uma letra repleta de acidez, denunciando os aspectos mais perniciosos do mercado (no caso, supõe-se, musical), que, em si mesmo, é apenas uma das facetas da perniciosa condição humana: convém eliminar o decoro quem é louco de cantar a peso de ouro / convém manter o decoro / se necessário eliminar o decoro / amor no fundo do poço / poço sem fundo a condição pra esse corpo. O vocalise que abre e fecha a canção (arrematada com o verso, caro canto / mais que puro) contribui para a inteligência crítica, pela ironia, que sustenta os versos.

Destino e Sorte, com versos do poeta e filósofo português Agostinho da Silva (1906 - 1994), grande modernizador do sebastianismo, é a terceira faixa do álbum. Quase uma vinheta, com pouco mais de um minuto de duração; parece complementar, com seriedade, a atmosfera mais reflexiva que se insinuou em Xará : para gozar de uma vida / já ressurrecta da morte. Tal ponderação sobre a vida repercute na faixa seguinte, Igual a Você, de um lirismo perfumado de inteligência, concentrando num diálogo com a pessoa amada o desejo impossível de mais amor, na criação de um encontro com outro ser igualzinho a você, meu bem / outro ser mas você também. O acompanhamento é mínimo: um piano, uma guitarra pontual e um dueto com Livia Nery, que entoa com doçura os versos de Paquito. A sensação resultante é de um pertencimento atmosférico a um profundo amor, um embevecimento que desce da canção (talvez, o destino e sorte final de seu ouvinte). Na sequência, outra ponderação sobre a finitude, mas que assume um cenário surpreendente em Eu Quero Ser Fruta, xote com participação de Morotó Slim, ressoando cores fortes e vibrantes para os versos maravilhosamente bem humorados de Álvaro Lemos, musicados por Paquito: quando morrer quero ficar aqui na terra / que se plantando tudo dá e se desfruta / enterradinho nu em pêlo é o que interessa / se é pra morrer e renascer quero ser fruta / eu quero ser fruta / poderosa, necessária, absoluta.

No decorrer da canção, Paquito passeia, macunaínamente, pelas diversas qualidades possíveis das variegadas frutas brasileiras: quero ser a manga espada / pra transar com o bicho da goiaba / quero ser um cacho de banana / e fazer suruba em plena madrugada / ser comido por bocas donzelas / e desvirginá-las sem cautela / arranca o meu caroço pra minha meta / ser uma jaca enxuta porque eu quero ser fruta / eu quero ser fruta / poderosa, necessária, absoluta. É impossível não se divertir com esses versos; mas observe-se que Paquito canta com ternura e até de forma contida, o que valoriza a própria qualidade poética de sua lírica.

A canção seguinte, Esquisita, retoma o gesto de introspecção, com guitarra baiana de Morotó Slim. Dessa vez, o artista nos apresenta uma bela, quieta e insólita canção de amor (me descubro sem querer / te amando esquisita), que canta a singularidade e o desejo de união: vou estar dentro de você / pra nunca mais eu me soltar / do teu ser / mito particular / infinito sei lá / lá lá lá lá / vivo e solar. O verso final - vivo e solar - parece ser a deixa para o convidado especial da próxima faixa, Caetano Veloso, que dueta com Paquito em Barulhento. A canção, um baião com inflexões bluesísticas, tem um prumo crítico, sem perder a ternura, e serve, de certa forma, como uma das chaves de leitura do disco:

Rock'n roll som ambiente

Axé music também

Sob o sol mais inclemente

A gente no vai e vem

Chuva e sol de shopping center

Onde a gente vai évem

Decibéis indiferentes

Ao coração de ninguém

Silêncio silêncio

Vai ninar meu bem

A especificidade da canção, seu tema imediato, é a poluição auditiva nas grandes cidades, um dos braços malditos da destruição do meio ambiente pela sociedade capitalista neoliberal. Mas ao mesmo tempo, subjacente e como uma espécie de plano geral, está a consideração da relação entre música e silêncio, entre ruído e informação, e em sentido mais profundo, entre artista e recepção (público). É a questão em jogo em Caro Canto: afinal de contas, como dar valor ao que se cria, no meio de tanta indiferença indiscriminada (decibéis indiferentes / ao coração de ninguém)? Tudo se homogeneiza num grande pastiche - rock'n roll som ambiente / axé musica também. A consideração, assim é existencial, e a saída é estética; nada mais justo do que realizar um dueto com outro grande discípulo da quietude (e da estridência calculada), aluno dileto de João Gilberto, o luminoso Caetano Veloso.

 

Barulhento é a sétima faixa do disco; estabelecida a poética e apresentados os instrumentos de percurso - a quietude, a intensidade lírica, o minimalismo ambiente, as convergências culturais - Paquito prossegue em Mel e Pus, um lamento em tons sertanejos quase moda de viola, debruçando seus versos sobre o próprio fazer cancional, e suas peculiaridades: pensamento sem razão / corpo são dejetos vis / mel e pus luz dos debris / assim fiz essa canção. Enquanto Isso, Sissi... traz de volta as ambiências em blues, com fraseados de slide em uma canção-folk que aceita inúmeras facetas, melodias concêntricas ao basso contínuo do violão de Paquito, reflexos dos versos em fluxo de consciência, e "enquanto isso, Sissi", a gata, brinca na mesa da sala com as flores falsas / e pacientemente escuta música ambiente. Enquanto Isso, Sissi... é um formidável exemplo do humor já característico do compositor: eu morro a cada semana / assim não dá pra dormir. E não por acaso, a canção termina com a oração de um criativo "Pai Nosso" (pai nosso cristais no céu... e eu me pergunto: existe algo mais "som ambiente" do que a oração?). 

Soneto para Anecy, de pouco mais de um minuto, traz uma parceria com Rogério Duarte, e a forma soneto como modelo para os versos, que orientam a harmonia e indicam a melodia da canção. É seguida por O Monstro, canção em parceria com Chico César, com voltagem poética de forte contundência política, refletindo criticamente a ressurgência dos ideais (?) de extrema-direita, conservadores ao extremo, ao ponto da necrofilia: o monstro chegou / no mundo pleno de ódio e amor. O monstro, os monstros, a monstruosidade. A acidez da canção dá lugar à ternura que já tivemos vislumbre em Igual a Você, mas dessa vez na canção Por Encanto, escrita em parceria com Eduardo Luedy, que também participa na faixa. Serve como contraponto de alívio à tetridez de O Monstro; nos versos amorosos de Por Encanto, eu sou humano / você também / bichos estranhos / do querer bem.

Adentramos, assim, na segunda metade do disco. Porto de Chegar, décima-segunda canção, homenageia o Porto da Barra, em Salvador, e evoca imeditamente as canções praieras de Caymmi, com direito a ambiências marinhas, em versos dedicados ao sentimento de pertencimento à Natureza e ao Amor; lugar do meu viver / lugar do meu lugar. Participa na faixa o ilustre Gerônimo Santana, que também assina a composição em parceria com Paquito: o amor me trouxe aqui / e a paixão me fez cantar / nesse fim de tarde ainda / vou nadar com Janaína / a dona Rainha do Mar. Na sequência, Às Vezes Entre a Tormenta, traz a inquietude de Paquito e sua reverência à obra do poeta Fernando Pessoa, sendo a composição uma parceria entre ambos artistas (isto é, com Paquito musicando o poema de Pessoa). A voracidade poética dos versos é evidente, tratando-se da poética de Pessoa; ressalto a inteligência musical de Paquito aqui, vestindo os versos melancólicos com cadências menores, um piano atmosférico e ominoso, e seu próprio canto, doce e sirênico, como uma entidade atemporal (atemporal como Pessoa), repetindo, com gravidade compassiva, porque verdadeiramente / sentir é tão complicado

O peso inescapável da parceria com Pessoa se elude na faixa seguinte, Rock de Conceição, um folk-rock que poderia muito bem estar arranjado em guitarras e power chords (o anjo exterminador / acertou na cara do compositor / já em decomposição), mas funciona maravilhosamente bem também na ambiência das cordas de aço de Paquito. Apesar do tema terrível, a canção seguinte, Melô do Aquecimento Global repercute o bom humor de Rock da Conceição; aqui, trata-se de uma canção quase de ludicidade infantil (como qualidade), cantada em dueto com Tata Honorato (tudo vai virar mingau / inclusive eu e você). A inteligência e a pluraridade cultural de Paquito marcar em presença mais uma vez, em versos como valei-me exu e oxalá / do apocalipse caruru.

Já na parte final do disco, Duas Ameixas é outra doce "canção-quase-vinheta", com cerca de um minuto, contemplando as queixas com os olhinhos da amada (duas ameixas). Segue-se a ela a faixa Short Song, parceria com Capinam que, com versos geniais, aproveita a polissemia da palavra inglesa short (calção pequeno / tamanho curto), dando a deixa para a canção acontecer quase como um trava-língua, imageticamente explosivo: curto teu short curto e o biquíni cine-mudo / mudo. Não por acaso, a canção é curta (ironia da forma, ou afirmação conceitual) e desvela uma verdadeira aula sobre a potência da síntese poética, honrada na musicalidade de Paquito: pequena cena / mostra o mundo / mis en scene / céu e tudo.

 

A faixa seguinte é a penúltima do disco. Parceria com Tony Lopes, Só o Sol traz novamente uma concisão formal quase neoconcreta, hipnotizante em versos mínimos (só o sol / só o sol / só o sol sorri perverso / e que tudo mais vá para o inverno; é impossível, aqui, não notar um aceno ao Roberto Carlos jovemguardista), Ironicamente menores, os versos estabelecem um apropriado clima de despedida poética para o álbum, materializado na canção final, Canção-Cabeça

E trata-se de uma conclusão tremendamente densa. Canção-Cabeça é uma canção que trata do próprio tema da poética em si; não como princípio de caminho, mas como resultado de um percurso; de um processo; de um álbum. Como tal, elabora uma visão retrospectiva, filosofante, sobre as faixas anteriores, com uma cadência lenta que simula uma procura, e uma angústia (onde está a cabeça desta canção / saiu do pescoço / caiu lá no fosso do seu coração). Escutada de tal maneira, acho razoável dizer que a canção apresenta-se quase que como um comentário pós-escrito em relação ao álbum, um gesto a posteriori, e um tanto assombroso, pois identifica na margem e na penumbra o lugar ideal para a própria canção - seria necessário pensar o que seria, simbolicamente, tal "canção", e o que seria, simbolicamente, tal "cabeça", para trazer estas afirmações com maior severidade -, como finaliza o artista: minha canção talvez não mereça / a estrela da disputa / minha canção talvez não mereça / a cabeça absoluta.

Ouça Xará (Short Songs), de Paquito

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