O Giro dos Artistas

algumas anotações sobre o funk paulista

por Marcos Lacerda

 

 

 

Nunca acompanhei bem o funk paulista, muito menos o carioca. Eu digo acompanhar, no sentido de parar para ouvir de forma sistemática as canções, saber reconhecer os artistas, diferenciar os grupos, as variações de gênero ou subgêneros. É uma música de jovem, feita para jovens, por jovens. Quando eu era jovem, o que tocava nas rádios, como fenômeno de massa era a axé-music, o pagode romântico, as duplas sertanejas, as bandas de rock da MTV e o rap nacional, a partir da capital paulistana, com Racionais MCs a frente. No entanto, sempre fui, e continuo a ser, muito entusiasmado com as variações do funk, especialmente com essa variação atual, por ser de São Paulo, da periferia da cidade.

 

Ora, eu sou de São Paulo, da periferia da cidade, de uma geração nascida na década de 80, que jamais imaginava que o funk, até então muito associado ao Rio de Janeiro, ou às cidades litorâneas, incluindo a baixada santista, teria a força, a relevância, o nível de inventividade e a importância comercial que tem hoje em São Paulo. A capital paulistana hoje é a capital do funk, por isso, podemos falar em algo como um funk paulista

 

São muitos artistas, compondo regularmente, fazendo hits e mais hits, com clipes no youtube. Clipes diários e com muitas variações temáticas, e conversas genuínas com o rap, com o trap e com a música eletrônica. Algumas das canções chegam a ser hegemônicas no mercado de canções, e também no carnaval. Taí, outra coisa impressionante. O Carnaval de rua de São Paulo, o carnaval dos blocos, rivaliza e, em algum sentido, até mesmo supera, o carnaval de rua do Rio, com muito mais blocos, tomando conta da cidade. Não somos nem o túmulo do samba – nunca fomos; muito menos o túmulo do funk.

 

Eu, que vivi muito tempo no Rio, e adorava o carnaval de rua carioca, passei a gostar ainda mais do carnaval de rua de São Paulo. Imaginar São Paulo orientando o carnaval era uma ficção pro meu coração. Hoje não é mais. Assim como no caso do funk. Estes versos bonitos, “ficção pro meu coração”, aliás, são de uma canção do Mc Kevin, “O menino encantou a quebrada”. Mc Kevin ficou conhecido para além do ambiente de massa do funk paulista por conta de uma história trágica, que acabou culminando na sua morte. O artista se foi muito jovem, uma pena. A obra ficou.

 

Além de Mc Kevin, podemos mencionar aqui nomes como Mc Hariel, também chamado de “Haridade”, e Mc Salvador da Rima. Os dois muito jovens. Hariel tem feito grandes canções, com um cuidado maior com a palavra e um senso de responsabilidade crítica, sem com isso perder o caráter impulsivo, de alegria trágica de viver, que se vê no funk desde sempre. Ele fez um dos momentos mais impressionantes da canção Ilusão “Cracolândia”, com arranjo de Alok. “Um barco sem direção/o mar leva pra rocha. A viagem é muito louca e sempre perigosa”

 

Salvador da Rima vem das batalhas de MCs. Outro acontecimento muito interessante da cultura jovem de São Paulo. Uma moçada se encontra em algum lugar da cidade e do Estado. Tendo uma base sonora de fundo, começam a rimar em desafio. Uma pessoa, ao fundo, coordena a rixa. Vão se sucedendo rounds, e o público, sempre muito ativo e quente, vota em cada momento da disputa. Outros nomes podem ser lembrados aqui. Kant, July, Juh Altão, Ravena e muitos outros e outras. Existe alguma aproximação entre a batalha das rimas, cuja base sonora pode ser rap, funk, trap, e o funk paulista.

 

Recentemente, um vídeo de uma das canções de um funkeiro paulista se tornou um dos maiores, se não o maior, sucesso da história do youtube. A canção se chama “Bum bum tam tam”, e usa como sampler um tema do Bach, um tema para flauta. Em meio a isso, o arranjo de funk, a batida bem manejada, e as palavras da canção que são como reverberações do som. Essa canção ainda ganhou notoriedade com a vacina do Butantan, em tempos de pandemia. Mc Fioti fez um clipe, boníssimo, com os funcionários do instituto. 

 

Ainda seria preciso falar de muito mais. A série da Netflix, Sintonia, cuja ambiência é o mundo funk paulista; As produtoras – Kondzilla e GR6, especialmente; artistas como Mc Livinho, que tenta aproximar o funk do soul e da black music; a relação com o Rio de Janeiro: o hit “Vai malandra” tem como sampler um lindo tema musical de Mario Zan: São Paulo Quatrocentão; podcasts famosos como “podpah”, que trazem vários artistas do funk como convidados; a canção mesmo que dá título a este texto, cujo refrão é do Mc Bruninho da praia. Mas é tema para próximos textos.

 

Cabe finalizar essa conversa sobre o giro destes artistas, com uns versos de uma canção bem conhecida, ainda do Mc Kevin, “Cavalo de Troia”, que sintetiza bem o sentido da aparição, consolidação e permanência do funk paulista como um fato da cultura musical do Brasil contemporâneo: “Nem sempre foi assim, mas hoje, com intensidade/ Não deixo pra amanhã, porque amanhã pode ser tarde

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