INTRODUÇÃO

O querido amigo Gabriel Gonzaga, músico, professor de canto e escritor – biógrafo de Sylvia Telles, em obra que está prestes a ser lançada – me presenteou faz alguns meses com dois fascículos da antiga revista Música Viva, fundada por Hans Joachim Koellreuter em 1940, na esteira da fundação do coletivo musical de mesmo nome. Ambos os fascículos (Outubro e Novembro de 1940, números 5 & 6, respectivamente) estão em excelente estado de conservação. Acredito na importância histórica desses documentos. Portanto, tomei a decisão de transcrever, de próprio punho, o perfil de Hans Joachim Koellreuter, de autoria de seu contemporâneo Luis Heitor. Os negritos são do próprio Luis Heitor. À exceção da palavra "tournée", que achei charmosa, adaptei o texto ao nosso português corrente (em vez de “recemchegado”/ “recém-chegado”; “inhóspita” / “inóspita”). A matéria está presente na edição 6 da revista Música Viva; a quem interessar, ao final do texto, disponibilizo também a partitura para “Invenção”, composição de Koellreuter para oboé, clarinete em Si bemol e fagote, constante do mesmo fascículo. Uma Canção, música viva.

por Alexandre Marzullo

COMPOSITORES DE HOJE:

Hans-Joachim Koellreuter

                                 por Luis Heitor

 

Em 1937, quando eu ainda era Bibliotecário da Escola Nacional de Música, vi-o entrar, certa tarde, na sala da Biblioteca, à minha procura. Um amigo comum nos apresentou e durante algum tempo conversamos – ele, recém-chegado da Europa, desejoso de ambientar-se, de conhecer as possibilidades do novo habitat que elegera para viver; eu a fornecer-lhe as indicações possíveis e a observar com curiosidade esse moço flautista, de quem já me haviam falado, a sua boina, as suas roupas de tecido pesado e de um corte diferente, a energia contida de suas palavras e de sua entonação, flama de juventude de seus olhos inquietos. Mais um! Mais um entre os muitos que a Europa inóspita nos havia atirado, nesses anos que precederam a guerra. O que fazer, porém, em nosso meio musical tão acanhado, de um flautista-virtuoso que já havia percorrido quase todos os países da Europa realizando concertos, que frequentara os cursos de Harmonia, Contraponto, Composição e Regência do Prof. Kurt Thomas, na Staatlich Akademischen Hochschule für Musik de Berlim, e se diplomara em Genebra, na classe do grande Marcel Moyse? É verdade que naquela época eu ainda não sabia exatamente de quem se tratava; desconhecia o excepcional preparo musical e a maravilhosa aptidão para o trabalho desse pequeno alemão escapo à coerção nazista. Julgava-o apenas um instrumentista, quando na verdade era, além de finíssimo intérprete, um erudito em questões musicais, especialmente versado nas obras de Bach e Mozart, Hindemith, Bela Bartok e Stravinsky, bem como nas teorias estéticas de A. Schoenberg e Alois Haba; um compositor de vigorosa técnica, cuja imaginação o sol do Brasil havia de aquecer, conferindo-lhe redobrada força de criação; um regente de orquestra egresso dos famosos cursos do dr. Hermann Scherchen. Posteriormente pude apreciar a sua atividade multiforme, assistindo às suas audições, cheias de revelações de obras novas ou esquecidas pelos anos, travando conhecimento com a sua própria obra de compositor, acompanhando os primeiros passos do grupo “Música Viva”, por ele fundado em 1939, e o lançamento desta revista mensal, tão imprescindível ao nosso meio, e que, com os seus suplementos musicais, tão bem serve à causa da divulgação da jovem música brasileira. Admirei, sobretudo, neste artista, discreto nas atitudes e sempre pronto à cooperação, o tato sutil com que ingressou nos círculos musicais do país que o acolheu, só formando amigos à sua roda, incapaz de inspirar ressentimentos ou ferir as susceptibilidades de quem quer que seja. E compreendi que não só a sua atividade seria possível, no Brasil, mas sobretudo muito útil para nós, e merecedora de todo o nosso incentivo.

Hans-Joachim Koellreutter é natural de Friburgo, na Alemanha. Foi aluno de Kurt Thomas, na Staatlich Akademischen Hochschule für Musik, de Berlim, e de Hermann Scherchen e Marcel Moyse, em Genebra, em cujo Conservatório concluiu os seus estudos instrumentais. Ainda em Berlim acompanhou os cursos e conferências de Paul Hindemith sobre a composição moderna. Como flautista e regente de orquestra empreendeu tournées artísticas pela Alemanha, países bálticos, Suécia, Noruega, Holanda, Bélgica, França, Suíça, Itália e Hungria. Encarregou-se da revisão de importante grupo de obras clássicas inéditas e desconhecidas, muitas das quais ele mesmo fez ouvir em seus concertos: 2 Sonatas para piano, com acompanhamento de flauta, de Mozart, o Concerto em Lá, para flauta e orquestra de cordas, de Quartz, a Partita para flauta, violino e basso, de J. A. Hasse, além de outras, de Gluck, Schultze, Sammartini e Haydn. Em 1937, fixou residência no Brasil, passando a exercer, aqui, importante atividade, pois já percorreu, em suas tournées artísticas, quase todo o nosso país, até o Estado do Amazonas. A fundação do grupo “Música Viva”, dois anos mais tarde, abria campo às suas especulações artísticas prediletas: a apresentação da música nova e a exumação da música esquecida. Já nesse tempo casado – e logo depois tornado pai de um Claudio brasileiro, que foi mais uma raiz a prendê-lo ao nosso solo – Koellreuter fez realizar, em sua casa, os primeiros concertos da sociedade, que no corrente ano recebeu o apoio da Associação dos Artistas Brasileiros, passando a efetuar, em conjunto com ela, as suas audições. Um grupo importante de autores modernos figuraram nos programas, muitos deles com primeiras audições. Citemos, entre os brasileiros apenas, Brasílio Itiberê, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Francisco Braga, Villa-Lobos, Radamés Gnatalli, Camargo Guarnieri, Ernani Braga e José Vieira Brandão. No primeiro concerto de 1940, a audição de vários trechos da Oferenda Musical, de Bach, foi um acontecimento de relevância, que despertou o mais justificado interesse em nosso meio musical. E ainda está na memória de todos os grande êxito obtido por Koellreuter, em companhia de Gabriella Ballarin, no magnífico concerto de cravo e flauta, que realizaram, na série oficial da Escola Nacional de Música, e que teve de ser repetido, nesta cidade e em São Paulo. Desde 1938, é professor do Conservatório Brasileiro de Música.

 

Não é este, entretanto, o aspecto da personalidade artística de Koellreuter que devo encarar, no presente artigo. O suplemento de “Música Viva” estampa, hoje, uma de suas composições: Invenção para oboé, clarinete em Si bemol e fagote, 1940; e é do compositor que me vou ocupar, procurando esclarecer o que em suas ideias estéticas conscientemente adotadas puder encontrar alguma resistência, em nosso primeiro contato com a sua produção.

 

Em geral o compositor alemão, ou sujeito à influência alemã, canaliza a sua fantasia criadora num plano construtivo previamente adotado ou imaginado, laboriosamente estabelecido e justificado, com o mais paciente esforço de inteligência. Esse processo de estimular forças de criação com os ditamos do raciocínio é inato em todos eles. Deu-nos os gigantescos desenvolvimentos de Beethoven ou de Brahms, o leitmotif e todo o aparato dramático do teatro wagneriano, a teoria dos 12 sons da harmonia schoenbergiana. Koellreuter permanece fiel à estética do Pierrot Lunaire, que tantos adeptos conquistou na Europa central; emprega, em suas obras, o mais deliberado atonalismo, tendência essa de que não se afasta – antes procura acentuar até as suas últimas produções, datadas do Rio de Janeiro, em 1939 e 1940. Isso confere à sua música um cunho de agreste modernismo, ao qual o nosso público ainda não está muito afeito, mas que conserva um grande equilíbrio na dosagem e nas combinações de sonoridade. Nele, como geralmente em todos os autores alemães, essa fachada de modernismo esconde um temperamento inclinado às divagações românticas e à melancolia. Esse é o verdadeiro espírito de grande parte de sua obra, onde a alegria vivaz e mordente da III Bagatella, ou a insensibilidade mecanizada da Tocata com que se inicia a Sonata 1939 (piano), constituem uma exceção.

 

Um grande cuidado com a linha melódica, que em suas obras é de uma pureza e de uma elegância de contornos que logo revela o compositor formado na severa escola do contraponto e da fuga, parece-me a qualidade mais importante dessa música, sublimada no delicioso Improviso e Estudo, para flauta solo, sem acompanhamento, que Koellreuter escreveu no Amazonas (edição da Casa Artur Napoleão). A liberdade de ritmo dessa peça é notável. Mas o seu movimento se acha tão naturalmente integrado ao melos que, na simplicidade com que o autor a escreveu, distribuindo normalmente as barras de divisão, sem assustar o leitor com repetidas mudanças de compasso (que ocorrem sem estarem anunciadas), essa liberdade passa desapercebida; sentimos, apenas, a transparência de um desenho muito expressivo e de uma grande distinção.

 

Na Invenção hoje publicada em suplemento à “Música Viva”, Koellreuter leva ainda mais longe as tentativas de criar uma linguagem musical diferente. Essa obra é um estudo para uma outra peça de grande orquestra, em que ele trabalha, neste momento, e na qual procura aplicar as ideias expendidas por Busoni em seu Entwurf einer neuen Aesthetik der Tonkust. Trata-se, ainda aqui, do predomínio melódico; da melodia soberana, livre de quaisquer relações harmônicas antigas. “A única base e o único elemento de relação que cria a forma nova é a linha melódica livre”, escreve o próprio compositor, precisando o sentido dessa obra. Aliás, esse intuito torna-se patente ao mais ligeiro exame de cada uma das 3 partes instrumentais de que se compõe essa peça, entrosadas com uma tão surpreendente habilidade, dentro da absoluta independência que rege as suas combinações. É essa a obra mais recente de Hans Joachim Koellreuter, e desvenda os misteriosos caminhos pelos quais se embrenhou, à cata do seu ideal, esse rijo e valente desbravador do universo sonoro.