Clarão (2020), May Honorato

por Alexandre Marzullo

(texto originalmente escrito em maio de 2020)

"Clarão" é o álbum de estreia de May Honorato, jovem cantora e compositora da pujante cena musical alagoana. Com 10 faixas de autoria da artista, sendo duas em parceria com o também cantor e compositor Rodrigo Avelino, o álbum conta com Toni Augusto na guitarra, Janeo Amorim nos teclados, piano eletrônico e arranjos, Allyson Paz na bateria, Roberi Rei na percuteria, Misael Dantas no baixo elétrico e Félix Baigon no baixo acústico. Willbert Fialho participa como violão convidado na faixa "Lua". Mixagem e masterização a cargos de Toni Santana e Marcelo Saboia, respectivamente.

 

O álbum irrompe com o canto prístino e forte de May, na tocante primeira faixa, "Ninando Chico". Desde esse momento justifica-se o título do disco – clarão! – uma vez que a voz de May Honorato certamente atende a esta imagem luminosa, levando-nos pelas paisagens melódicas e poéticas que a cantautora inventa e constrói por intermédio de seus versos. Ao redor destes, temos os arranjos inventivos e delicados de Janeo Amorim, canção a canção, ambientando o canto de May de acordo com as escolhas líricas que cada composição exige. Nesse sentido, Clarão é um disco bastante atmosférico, com uma poética algo noturna, apesar de luminosa, sendo os versos de May os lugares de amparo para seu ato de cantar.

 

Não surpreende então que a “imagem do canto” seja um motivo tão forte ao longo do álbum. Em diversos momentos, May apresenta poeticamente sua própria expressão vocal, o “canto novo”, como uma expressão de cura e liberdade: ora o sinal de uma perfeita correspondência no amor, ora a redenção para uma vida plena, ora o desaguar natural da imaginação. E afinal de contas, a imaginação é a matéria-prima de tudo. Como fulgurantemente canta May, “gosto de te imaginar / finalmente livre”, na faixa "Ninho" e, ainda mais contundentemente, “o amor é um raio que invento / clarão” na canção-título, "Clarão".

 

Por vezes, ainda, a poética de May parece revelar uma subjetiva narrativa ao longo das faixas; desde a abertura - "Ninando Chico" - até a canção derradeira, "Canção de Partida" sugere-se uma travessia sob a nau do canto de Honorato, abordando as grandes alturas - "Lua" e "Clarão", por exemplo - sem jamais desconsiderar as grandes profundezas - "Solidão", "Poço".

 

De todo modo, a revelação ou a súbita iluminação, enquanto motivo poético, é uma herança milenar e muito cara para a poesia de todas as gerações e séculos. Em May Honorato, esta revelação em particular - a "lua que atravessa a noite" - parece acontecer naturalmente, no disparo de seu canto afinadíssimo. É sua voz, afinal de contas, que agrega e acolhe as diversas influências musicais que naturalmente surgem em suas composições; mas subsiste um mistério acerca das origens últimas daquilo que nos impele a fazer arte, a querer arte. Em "Canção de Partida", parceria entre May Honorato e Rodrigo Avelino, a última faixa de Clarão, estes mistérios são abordados sob a perspectiva de um rompimento afetivo. Como cantam os artistas, "meu bem, vi o rosto do amor / tinha gotas de mar". A busca é eterna.

Ouça Clarão, de May Honorato:

https://open.spotify.com/album/54E81Dwg0X46PbcODdaLLw

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