Maô: Danças Típicas de Cidades Imaginárias (2021), Maurício Tagliari

por Alexandre Marzullo

...intercomunicáveis Maôs: ali, aqui, adiante

 

 

I - O sinal irônico

Caro leitor, segure-se firme: entraremos em um vórtice musical.

Mas com a promessa de poesia.

Em 2019, quando Maurício Tagliari iniciou sua série de álbuns prenomeada Maô, desde o título do primeiro projeto – Maô: Contraponto e Fuga da Realidade – me pareceu evidente que a força motriz do trabalho estaria na inquietude que, a rigor, marca todo processo criativo. Tomada como princípio fundamental da dúvida, esta inquietude frequentemente se traduz como vontade de descoberta, e se apoia em pressupostos irônicos, tomados em sentido propriamente estético – a ironia como comentário do autor sobre sua própria obra.

De fato, naquele primeiro disco – primeiro Maô – há, sob o pano de fundo da própria tradição da canção brasileira, alicerçado principalmente em sua matriz do samba, um campo para experimentações harmônicas e rítmicas, articuladas a partir de inflexões jazzísticas e musicalmente progressivas. Tudo isso sem nenhuma descaracterização da “matéria-samba”, ou do “formato-canção”; antes, o deflagrar de uma outra possibilidade, como se uma outra história musical fosse possível – daí o “contraponto” do título, bem como a “fuga” da realidade.

Este "sinal irônico" se confirmou com os lançamentos posteriores do artista: Maô: Falta de Estudo #1 (2020) e Maô: Allegro Dentro do Possível (2021), ambos lançados em plena pandemia. Até o momento em que escrevo, a série culminou com Maô: Danças Típicas de Cidades Imaginárias (2021), o objeto de fato desta resenha-ensaio.

 

II - Corte sobre corte sobre corte

Contudo, para falar de Danças Típicas, talvez seja conveniente comentar rapidamente sobre seus antecessores; me parece que existe uma dialética evidente ao longo da discografia de Tagliari, como um diálogo de referências, conquistas e experimentos.

 

Tomemos por exemplo o disco seguinte a Contraponto e Fuga da Realidade, Maô: Falta de Estudo #1. Trata-se um álbum largamente instrumental, ao contrário do primeiro. Elaborado a partir de um princípio de livre experimentação do som, Falta de Estudo #1 apresenta pesquisas timbrísticas e rítmicas estruturadas sobre loops, samples, percussões e sintetizadores diversos, além da guitarra ocasional; composicionalmente, portanto, está próximo à ideia de uma ausência de narrativa musical, no oposto do que se pressupõe em uma ideia de canção - de fato, há uma conversa com certas vertentes da música eletrônica e ambiente. O resultado é imprevisível e fascinante; no entanto, se tomado como sequência lógica do disco anterior, ...Falta de Estudo #1 é uma ruptura completa, verdadeiro contraponto ao Contraponto (e daí, talvez, a mordacidade de seu título). 

Mas eis que após a experiência dessa sonoridade “pura-sombra” em Falta de Estudo #1, as canções retornam, luminosas, no disco seguinte. Maô: Allegro Dentro do Possível traz sete sambas autorais; trata-se de um disco onde o artista desenha um retorno à matriz do samba, empregando, para tanto, um vocabulário essencial e minimalista; seus arranjos são concêntricos à experiência das intimistas rodas de samba que, antes da pandemia, encantavam as noites de São Paulo. Sob o choro das cuícas e das cordas, talvez seja o disco mais confessional da série, sustentando uma doída beleza – especialmente, se considerarmos sua última faixa, “Samba do Final (dedicado a Orlando Tagliari)”, fechando o álbum com a delicadeza de um “silêncio que samba”.

 

Portanto, se Falta de Estudo #1 opera um corte ao primeiro disco, Allegro o faz em relação ao segundo. E é em tal estado de coisas que acontece o quarto volume da série, Maô: Danças Típicas de Cidades Imaginárias.

 

III – Quando a cidade imaginária dança (ela samba)

Comecemos em outra língua. Em seu poema Jogos Infantis (sobre uma pintura de Peter Brueghel), o poeta e pintor cubano José Pérez Olivares traça uma espécie de releitura da famosa pintura:

(…)

Algo sucede en la aldea. Allá flota un poderoso hechizo

Que convierte a todos en un rebano alegre,

En un pequeño manicomio entusiasta

En insólito paraíso

Donde no existe la edad

 

Jugar es la meta

Algunos realizan competências de cabriolas

Otros pratican um antiguo juego desconocido

Que recuerda una danza

(…)

 

Para José Pérez Olivares, e isto é bastante claro em seus versos, não há propriamente crianças na pintura, mas aldeões que, por força de algum absurdo extramundano, ou pela capacidade imaginativa do próprio Brueghel, se permitiram um retorno à infância; sofisticado enlouquecimento. O título da obra, então, ao contrário do que a historiografia da arte admite, não deve ser tomado literalmente. Os “jogos infantis” seriam um estado de espírito eufórico, uma visão “como de récien nacido” sobre a própria existência, no que existe de surreal e de inocente em seu “brincar”. Mas com a ressalva de que existe uma dobra poética aqui: afinal, sobrepondo esta inocência ao dado real do mundo “adulto”, o que resulta é a própria ironia do artista em relação a tudo o que não é “infantil” – o sonho é corrosivo.

 

Jugar y hacer el amor

Hacer el amor

Y enseguida volver al juego

 

Guardadas as devidas proporções, é esta a imagem que quero conjurar ao falar de Maô: Danças Típicas de Cidades Imaginárias. Pois o disco repercute uma semelhante surrealidade, também trabalhando a ironia como um salto da inocência – embora o faça dentro de sua própria poética, e através de um vocabulário (evidentemente) musical. Mais do que espelho de seu criador, a obra se torna uma modalidade de presença do artista.

O disco contém dez composições autorais de Tagliari, e abre com “Eu Sei Tudo”, acenando de volta ao prévio ...Falta de Estudo #1; a faixa, que traz a participação e Thiago França, é uma insólita combinação de ritmos e timbres – vozes, metais, samples, percussões processadas – é elaborada a partir da própria melopeia dos versos – eu sei tudo / eu sei tudo / eu sei tudo / mas não entendi. A força da faixa reside no acento das palavras finais de seus versos, marcando não só a fina ironia, como a própria cesura do ritmo; a partir destas indicações, as improvisações acontecem, com ad libs impagáveis: “é que eu me encanto demais / eu me encanto demais”. "Eu Sei Tudo" torna o insólito em música, para falar musicalmente do insólito fora dela, e define uma espécie de template para o restante do disco, aproximando o ouvinte de suas arrojadas experimentações sônicas através de traços sinuosos de humor: uma irrealidade mais real do que o real.

Vide a faixa seguinte: “O Mosquito” é uma ode ao mosquito, traiçoeiro inimigo das madrugadas urbanas. Tem a participação do trompetista Guizado, que compõe seus zumbidos entre as bases de violão e as texturas de uma guitarra em plena distorção. Conquanto a letra da música seja bastante interessante – bem-humorada e ritmicamente marcada, como em “Eu Sei Tudo” – o que me chama atenção é sua construção instrumental: do fantástico riff nas cordas graves do violão ao progressivo encorpamento da composição como um todo, organicamente desenvolta, com mais e mais frases nos metais, pontuando seu crescendo sobre uma súbita bateria eletrônica... somente para depois tudo esvair novamente, na volta do mosquito. 

Uma pequena caricatura: com o mosquito, vem a "Mulher Inseto", terceira faixa do álbum. A participação aqui é de Cuca Ferreira. Trata-se da primeira faixa totalmente instrumental do álbum, uma composição que reside entre o delicado e o obscuro; assemelha-se a uma mariposa em seu casulo, anunciando-se borboleta. Mais uma vez, é inteligentíssimo o progresso da composição, sua abertura misteriosa e indecifrável, com os graves pontuando o intervalo de seu próprio desenvolvimento, enquanto as cordas avançam, testando a possibilidade de águas mais distantes. As suspensões entre as seções contribuem para a sensação de algo literalmente em movimento dentro da faixa; quando a faixa levanta voo, surgindo a percussão – marca de densidade na série Maôs – já podemos esperar a introdução de timbres pouco prováveis, e é o que acontece: uma revoada de mulheres-inseto irrompe na faixa, refugiando-se no estranho horizonte do artista.

Na sequência,"O Som da Montanha", quarta faixa, tem a presença de Maria Beraldo nos sopros, enquanto Tagliari assume os violões mais uma vez. Aqui, temos uma composição em nada descritiva (apesar do título); não se trata de um tema musical à plena vista, mas de uma ideia que se desenvolve em sugestões, como uma pintura abstrata. Ao lado de uma singela percussão, a frase melódica vem descendente no violão, enquanto uma guitarra faz ascender suas notas. Sobre elas e às vezes sob elas, o som da montanha em Maria Beraldo é sutil; ao mesmo tempo, no entanto, tem altura e gravidade. Penso na montanha na faixa; talvez seja o próprio impenetrável. Mas a paisagem está posta. O tema é belo, lírico, e como as demais faixas, instigante.

A seguir, o neo-samba "Trabalhadores" apresenta Tagliari de volta à verve composicional de "O Mosquito" e "Eu Sei Tudo", empregando um tratamento vocal muito semelhante em seus fraseados; os versos são sussurrados, repetidos à guisa de um jingle, cantados ora à meia-luz, ora em megafone – e em todos os momentos, repletos de uma mordacidade que não está propriamente no dito, mas antes no não-dito:

Trabalhadoras, trabalhadores

Profissionais e amadores

Carícias fictícias, porrada por nada

Não para aí no Paraíso, para lá na Lapa

Não custa lembrar que o bairro da Lapa, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro (há um bairro homônimo nos dois estados) é o lugar por vocação de certa boêmia, tão bem capturada em certos versos cantados duradouramente (e há tanto tempo) em outra metrópole:

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com o quê? Com vinho, poesia ou virtude a escolher. Mas embriaguem-se.

A faixa seguinte quebra (positivamente) as expectativas, mais uma vez: "Postal_Estudo para Tresillo em Violão Percutido" é exatamente o que diz ser; uma composição sobre tercinas (tresillos) para violão percutido, o que em si mesmo é um uso inusual para o instrumento. Em outras palavras, mais do que um estudo para violonistas, trata-se de um estudo para a digna classe de violonistas percussivos. A ênfase no ritmo – em tercinas sobre tercinas – recebe seu contracanto em ligeiros ataques nas cordas, abafadas ou soltas, tocadas pelo artista. Mas mais importante, o "Estudo" aponta para uma gênese rítmica no processo criativo de Tagliari, que se estava bastante sugerida nas demais faixas, agora se faz explícita.

A relativa quietude (breve quietude) de "Postal_Estudo para Tresillo em Violão Percutido"é obliterada na faixa seguinte, uma das mais impressionantes do disco: "High Cortisol". Trata-se da penúltima faixa da obra; participam Phil Miler e Luca Reale. Em "High Cortisol" entram em cena todos os recursos utilizados anteriormente; os vocais, completamente processados e sampleados; a percussão, híbrida entre baterias e beats processados, e as cordas – guitarras, baixo – em timbres precisos, desferem os riffs principais da dinâmica composição, enquanto synths e um naipe de metais criam a ambiência desejada. É certamente a canção mais dinâmica do álbum. A tensão é o elemento predominante, mas não sem humor:

distress / distress / distress / distress / distress / distress

sugar / sugar / sugar / sugar / sugar / sugar / sugar

Após a adenalina fantástica de "High Cortisol", "Meditação King Korg" (quase escrevo "King Kong", e tenho certeza de que o trocadilho malicioso objetiva justamente isso) encerra o disco; uma livre experimentação em sintetizadores e sugestões percussivas, no limite de uma narrativa. Algo chega a acontecer em "Meditação King Korg", mas não é possível dizer, colocar o dedo aonde; como água, ou melhor, como mercúrio, escapa, tem qualidades reflexivas, aponta para nosso próprio vácuo. Intoxica; inspira. Poesia.

O quadro de Brueghel e o poema de Olivares retornam-me. Eu tenho certeza: alguém dança, em alguma cidade imaginária, tais meditações como se fossem sambas. Existe saída.

Ouça Maô: Danças Típicas de Cidades Imaginárias, de Maurício Tagliari:

https://open.spotify.com/album/3dBA7jHfJo8DmqqozgqsoR

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