Percurso de uma resenha

2019

Não lembro o mês, mas certamente o ano era 2019. Alguém me mostrou a canção "Acorda Para Ver o Sol", parceria de Luiza Brina com Ronaldo Bastos. Não sei dizer onde exatamente eu ouvi a canção, mas posso afirmar que fiquei absolutamente encantado com a voz e com a musicalidade da artista. A sensibilidade mineira de seu canto, como quem conversa bonito, com tanta doçura e coisas a dizer no corpo da voz, e que tão poeticamente vestia aquela letra cheia de delicadeza; luz e alegria sobre a delicadeza doída do amor. A canção me empolgava. Logo em seguida, alguém me disse que Luiza Brina, radicada em São Paulo, viria em breve ao Rio de Janeiro para realizar um show; a artista faria parte do lineup de um pequeno, mas interessante festival independente aqui na cidade, o Festival Levada. Fiz questão de estar na plateia.

Talvez tenha sido o primeiro show do repertório de seu disco "Tenho Saudade Mas Já Passou". Lembro que Luiza, timidamente, confessou à plateia que estava nervosa; o show foi deslumbrante. A artista ganhou o palco com personalidade, e demonstrou domínio total entre voz, baixo, guitarra e violão (ela tocou os três instrumentos, até onde lembro). O acompanhamento incluía um tecladista e um baterista, cujos nomes me escapam a memória. Vibrei ao ver a interpretação ao vivo de "Acorda Para Ver o Sol", com Luíza no baixo, em fluência perfeita, e recordo ainda de outro ponto alto para mim, na canção "De Cara", parceria de Luiza Brina com César Lacerda. Creio que César Lacerda, que foi o diretor artístico do álbum, também dirigiu musicalmente o show. Na saída, comprei o disco, embora não tivesse CD player em casa. Coisas de fã.

Tenho Saudade Mas Já Passou é um disco consistente, poético, autorreferente e musicalíssimo, com uma paleta de ritmos e timbres que evocam, ao mesmo tempo, um temperamento reflexivo e a alegria transbordante da canção como caminho. Leveza e contemplação, intimidade e cor do dia. Volta sempre à mente, em discos como o de Luiza Brina, o ensaio formidável de Wisnik sobre a canção brasileira como gaia ciência, lugar do coração.

 

A partir disso, faz perfeito sentido que a primeira faixa do álbum se chame "Como Será Que A Música Começa?". Parceria de Luiza Brina e Ceumar, trata-se de um abre-alas investigativo, metapoético (metanarrativo) para Tenho Saudade Mas Já Passou. Sua letra descreve exatamente o que o título sugere: uma contemplação do mistério que perfaz a própria (e toda) composição; seja o que for, não acontece sem luz.

vem pelo ar, o silêncio atravessa

todo som

é jardim;

da canção 

brota um sim

 

"Acorda Para Ver O Sol", esta, uma parceria de Luiza com o compositor Ronaldo Bastos, e provavelmente a canção chave do álbum, por conter em sua própria forma composicional a narrativa que norteia o álbum como um todo: a jornada de uma reflexão, uma angústia que seja, em direção à alegria - "tenho saudade, mas já passou". E "já passou" graças a arte de Luiza; como se, utilizando a dúvida e a instigação como motivos inspiradores, Luiza visasse justamente alcançar a certeza da canção.