Luís Capucho - Crocodilo (2019)
por Alexandre Marzullo

Enquanto escrevo, Crocodilo é o disco mais recente do múltiplo e fascinante Luís Capucho. Um dos nomes mais longevos e importantes da cena independente carioca, dono de uma poética ao mesmo tempo densa e acessível, crua e sensibilíssima, Capucho já foi gravado por nomes como Pedro Luís e a Parede, Cassia Eller, Bruno Cosentino, Eleonora Falcone, Wado, Marcos Sacramento, dentre muitos outros. Suas canções são literárias, sem perder a musicalidade; precisas, sem perder a profundidade. E constantes e coerentes, em seu rigor e delicadeza peculiares, versando sobre o amor homoerótico, a solidão compartilhada na vida noturna das cidades e, sobretudo, a estranha circunstância que é existir.

Com tal assinatura única e genuína, as canções de Capucho possuem costumeiramente versos longos, obedecendo a fluxos de consciência que atuam como elementos tensores, determinando inclusive a entoação de seu canto e as esquinas melódicas pelas quais Capucho desfilará sua poética; da imensa força de sua escrita advém seu senso de ritmo e repetição. Numa lição formidável de justa medida, seu violão, tocado pelo próprio com uma urgência punk - mas dentro de uma cadência totalmente brasileira e popular - engendra, em poucos acordes, a atmosfera e a plataforma para que suas instigantes imagens ganhem corpo. Nesse sentido, assistir e ouvir Capucho é observar um verdadeiro ritual cinematográfico, a conjuração da canção como visão, como palavra, como sonho, como tudo. Dança das sombras, fragmentos de vidas.

Como isso tudo sugere uma grande concentração estética na arte de Luís Capucho, é natural que se observe um casamento muito particular entre violão e voz em sua música. Em outras palavras, existe uma mística em Luís Capucho, que se impõe sobre sua obra. Talvez por isso seja difícil considerar a hipótese de arranjos convencionais ("radiofônicos", como diríamos em outra época) para as suas canções. Ao contrário: em seu trabalho, parece existir um apreço pelo pequeno contorno instrumental, pela sutileza, pelo detalhe amplificado através da tensão poética (e que assim deixa, portanto, de ser detalhe). Mas sobretudo, é preciso ouvir a voz de Capucho.

Lembro particularmente de um show de Capucho que assisti, creio eu no primeiro semestre de 2018, na Livraria da Travessa, em Botafogo (ou seja, ainda não havia sido gravado o disco Crocodilo). Era, se não me engano, uma noite de lançamento de livros de poesia, e com leitura de poesia; recordo com dificuldade a ocasião porque confesso que somente lembro com nitidez (e que nitidez!) do show de Capucho, que encerrou a noite. Acompanhado por um baixista e um baterista, Capucho trajava uma camisa bordada com lantejoulas, badulaques, uma série de elementos únicos, como verdadeiro uniforme, e cantava como se sua vida dependesse de cada palavra, ao mesmo tempo em que ora dedilhava, ora batia nas cordas do violão. E no entanto, para mim, tudo era de uma singeleza única, canção por canção em versos poderosos, pura atmosfera. Por momentos, a livraria e o mundo deixaram de existir. 

A "ambiência Capucho": essa é uma constante desde seus primeiros discos, e em Crocodilo não é diferente. Os timbres, as texturas empregadas, as escolhas musicais pontuais dos diversos colaboradores - Gustavo Galo, Evaldo Luna, Lucas Paiva, Claudia Castelo Branco, Pedro Carneiro, Marcos Campello, além de Bruno Cosentino, bastante envolvido no processo de produção do álbum -, todos contribuem para uma ao mesmo tempo sombria e iluminadora experiência sonora ("claro enigma"), como o próprio Capucho metaforiza no verso de sua canção de abertura, Antigamente (o fogo realmente tem muito significado / e a fumaça que completa a gente / com seu corpo meio transcendente / assim fluido / aquece meu espírito frio / a nicotina é um prazer). É dentro de uma "nuvem clara", de uma antinomia de valores, que a escrita poética frequentemente se aproxima de uma experiência mística, de abandono da ordem lógica do mundo. E é com tais tons - sempre esfumaçados, não se sabe se de cigarro, de vapor, ou de sagrado - que Crocodilo abre suas margens de som para o ouvinte.

 

Se pensarmos a palavra "antigamente" em sua esfera própria, teremos dela uma especie de emanação de uma atmosfera afetiva; em outras palavras, dizer "antigamente" sugere um percurso de memória, e é sobre percursos tais que Crocodilo se estrutura; Antigamente, a canção, parte desse recurso de uma narrativa memorial para ponderar sobre os encontros fortuitos, na calada da noite, calcados na vontade erótica de delongar o tempo, lubrificá-lo (para além de uma aspiração sexual): o outro é fulgurante, mas o anelo é pelo transcendente - vou fumando noite adentro / o cigarro que você me deu. Fogo cheio de significados: somos todos rios, águas que se misturam, e nunca os mesmos.

A faixa seguinte, Cérebro Independente, é uma vitória da canção de síntese, com um efêmero sentimento-samba repercutindo sobre os versos, estruturados como um fluxo de consciência; existe um começo, um meio e um fim na canção, que são demarcados lírica e musicalmente, com muita naturalidade. Ao mesmo tempo, certa vontade de essência, de polimento de excessos, verbos, artigos, pronomes, emulando os atos independentes da linguagem sobre o artista: meu cérebro é independente / o cérebro é independente / cérebro independente. A ênfase e a repetição, aqui, contribuem para que esses versos se tornem um tanto "obscuramente iluminantes", justamente pelo avesso do que literalmente pretendem significar - em outras palavras, revelam nossa imensa fragilidade (poderíamos dizer, "dependência") em relação a tudo o que, fora de controle, nos cerca.

A terceira faixa é a faixa-título, de delicadeza insólita, Crocodilo. Produzida por Vovô Bebê e substanciada em voz e violão, Crocodilo traz versos surpreendentes e imagéticos, pintando um autorretrato "em movimento", surrealista (sou um Crocodilo à beira do Nilo / ... minha casca é grossa mas minha alma é macia / tchururu); tão perigoso quanto reflexivo (estou na margem, sou sofisticado). O compositor é pleno de ternura na sua leitura do mundo, e o mundo com tantas palavras (voam palavras / línguas de palavras / se insinuam / insetos de palavras / serpentes de palavras / rastejam / balançam no vento / as flores do campo...). A quantidade de palavras, verso a verso, é variável, e Capucho ora acelera sua dicção, ora retarda, com cálculo e arte; as estrofes se delimitam pelo indefectível "tchururu" que empresta à canção, como um todo, uma aura de cantiga, um sentimento bucólico e luminoso, apesar do narrador reflexivo. Uma joie de vivre idiossincrática. O ritmo constante do acompanhamento no violão, tocado pelo próprio artista (inconfundível) somente amplifica o sentimento de um crescendo, intuído pelos versos cada vez mais candentes - línguas de fogo lambem a melodia - até que finalmente irrompem em misteriosos e irrepreensíveis "la la las", finalizado a canção em uma bruma impronunciável, à beira do Nilo.

Percurso, bruma, mistério. Particularmente, gosto de pensar no álbum Crocodilo como a trilha sonora de uma longa noite atravessada adentro, insone e inaugurada por Antigamente. Assim, vou emoldurando as cenas com que me deparo em meu próprio flanar - isto é, quando eu flanava (escrevo em pleno isolamento, em plena pandemia; por força das circunstâncias em que vivemos, transfiro esse flanar para o interior de mim mesmo). O fluxo poético de Capucho sugere a floração de uma humanidade possível, untada em si mesma. E nada mais humano do que o grande anelo do encontro, o desejo do outro, e a agressividade erótica do jogo de posses, submissão e conquista que o sexo, e a paixão, desenham no corpo do amante. Este é o tema de Edson do Rock, quarta faixa do disco, retomando a narrativa implícita de Antigamente, agora com todas as luzes em Edson do Rock (será meu escravo / será meu dominado / será meu namorado).  

O que os anseios que carregamos revela sobre nós, senão nossa imensa vulnerabilidade? Reflito sobre isto ao considerar Edson do Rock, e sou eu mesmo surpreendido com uma outra vulnerabilidade, exposta, ardida, esplêndida, na canção seguinte, Girafa. A composição abre com um verso que fala por todos nós (eu não entendo as coisas / exatamente como elas são) e se articula sobre um piano todo delicadezas, com um singelo naipe de metais ambientando a incompreensão de Capucho face ao mundo (e por corolário, a nossa). Produzida por Claudia Castelo Branco, Girafa tem um apelo ao mesmo tempo alto e lábil sobre as demais canções do disco, sonoramente falando; certamente, é a mais sinfônica, mas sem desprezar o minimalismo, o fog e o intimismo que caracterizam o álbum.

Na próxima canção, a pulsão erótica retorna, apaixonada e apaixonante. Acalanto do Amor, com seu verso-refrão espírito vulgar / espírito vulgar, dimensiona o contorno emocional que movimenta, dá sentido e corpo (de várias formas) ao desejo: inferno pessoal é saudade. Faísca, em Acalanto do Amor, também a ironia do compositor, não como comentário ácido, mas como atitude de inteligência e sorriso perante a vida. As canções de Capucho pingam suor e chuva, secretam noites, falam de calores que guardamos entre as pernas e atrás dos olhos: deixa eu abraçar teu corpo no fim de tarde / olharemos a chuva / o cachorro late / ciúmes.

 

O fim da tarde em Acalanto dá lugar à noite de Quando É Noite, canção formidável, lugar para as complexidades que residem em nosso vale de lágrimas e dias felizes. Ambiências tão profanas quanto milagrosas. Os versos de Capucho, aqui, assumem a qualidade pungente de quem viveu tantas vidas em uma; uma guitarra acompanha sua voz em fraseados de blues, sem ênfase (o que é um acerto), e Capucho vai desfiando seu quarto de destroços, fechando as estrofes com o que me parecem ser versos inescapáveis (incluindo o lamento onomatopeico): quando é noite / oi oi oi oi oi oi oi oi oi / quando é noite / na vida da gente.

Triste, canção seguinte, é um percurso de atmosferas: céu pesado sobre a cidade / o mar cinza / dia nublado é triste. Dito de forma contundente, como é característico em Capucho (mas sempre repleto de matizes próprios e indefiníveis), seu "tempo presente" (dia nublado é triste) nos chega como uma imagem que perdura, acústica, ao nosso redor; seu céu pesado se transforma, em nós, em "sentimento de céu pesado"; pelo mesmo modo, o "dia nublado" se torna um grande cinza indistinto, que matiza a canção e sombreia suas luzes. Tudo isso, motivado pela voz de Capucho; pelas suas palavras crocodilentas. Um lugar se instaura em nós.

A penúltima faixa é a bela canção Vale, uma balada de narrativas, onde o compositor assume pontos de vista diversos ("eu é um outro", Rimbaud): uma vizinha, os pardais, o céu, as estrelas; tudo canta junto, e se personaliza pela vocação do poeta em nomear o mundo, definindo local, som e sentido ao que vive: cada pessoa tem seu próprio mundo / o meu nesse corpo onde moro / sem isso nada faz sentido, nada vale. E assim como o disco se inicia com um relato de memória, observando os muitos significados do fogo - e o cigarro aceso pela noite, noite adentro -, o ciclo se encerra em Virginia e Eu, canção final, onde Capucho observa o fogo, agora, não como sinal de vida e de encontro, mas sim como vestígio de algo que já aconteceu: nuvem de fumaça / saiu do meu cigarro / saiu do meu cigarro pela janela do apartamento. E que aconteceu incompreensivelmente, como a vida acontece fora de nossos próprios parâmetros; como um sonho. Tudo é dúvida, e o compositor pergunta: o que aconteceu entre Virgínia e eu? A força das imagens é tão contundente que não precisamos de maiores detalhes para nos emocionarmos com o desfecho entre Virgínia e Capucho. Estamos todos ali, entre Virgínia e eu, todos nós que vivemos e encontramos e nos desencontramos pelos rios do mundo.

Apesar da melancolia dos versos finais, o que extraio de Crocodilo é uma vontade imensa de viver, celebratória mesmo: sorte a minha que nasci / que um dia vou morrer (na pulsante Cérebro Independente). Capucho é viciante: não por acaso, fascina seus ouvintes, e seus pares - não raro, artistas brilhantes, como o também carioca e já citado Bruno Cosentino, repercutem sua poética em textos belos e canções de excelência. Eu, também um declarado entusiasta de Capucho, faço coro: que maravilha é poder ouvi-lo. 

Ouça Crocodilo, de Luís Capucho:

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