LIEBE PARADISO (2011), Ronaldo Bastos e Celso Fonseca

por Marcos Lacerda

Liebe Paradiso: entre a delicadeza e a estranheza experimental*

 

A poesia de Ronaldo Bastos é feita de matéria sensível, da dimensão concreta dos sentidos, da beleza mesmo do encantamento fenomênico com o real. Há aquele misto de doçura e sensibilidade à flor da pele, que se pode ver nas suas canções com diferentes parceiros, como Milton Nascimento, Johnny Alf, Edu Lobo, João Donato, Toninho Horta, Tavinho Moura, Nelson Ângelo, Ritchie, Guilherme Arantes, Flávio Venturini, Ed Motta, Lulu Santos, Celso Fonseca e Silva, entre muitos outros. Seu parceiro mais freqüente, desde os anos 90, tem sido Celso Fonseca, com quem compôs os discos Sorte (1994), Paradiso (1997), Juventude/ Slow Motion Bossa Nova (2001) e finalmente Liebe Paradiso (2011), que é, a meu ver, a síntese não só das parcerias com Celso Fonseca, mas de grande parte da poética de Ronaldo Bastos. Liebe Paradiso é um disco que põe a canção brasileira no seu devido lugar, digamos assim, como alta cultura, como a linguagem artística decisiva para a nossa formação ou para a formação da nossa sensibilidade. Através da canção não só realizamos a nossa potência, como também ensinamos ao mundo. Liebe Paradiso é uma das expressões mais bem realizadas dessa potência e desse ensinamento.

A primeira canção, Paradiso, apresenta um quadro no qual o sujeito se deixa confundir com o real, ou mais precisamente, com a vida, se negando, assim, a qualquer distanciamento reflexivo que o separe da matéria sensível (o que a vida perguntar/ deixa a vida responder/ tolo é quem não quer acreditar), da paixão, da alegria gratuita e frugal, que sente também ouvindo uma canção qualquer, uma rima vulgar (o chamado da paixão/ o que alegra o coração/ o que a rima tem de mais vulgar). Neste envolvimento afetivo e total com a dimensão sensível da realidade, o poeta se vê na companhia do mundo (céu azul de quem surfar/ vem na onda azul do mar/ solta o ar e prende o fôlego/ o que eu chamo ilusão/ outros chamam solidão), terminando num enlace pleno com o outro (venha ser meu paraíso/ artifícios furta-cor/ tudo aquilo que eu preciso/ é você e um céu azul).

Após a audição da canção, temos a leitura de um poema de Goethe, explicitando uma relação de aventura existencial plena, na qual o sujeito se mescla com o vento, a água, a terra, em constante movimento e “perene mudança”, como dizem os versos de Goethe (a alma do homem/ é qual a água:/ do céu cai/ ao céu sobe/ quer descer a terra/ em perene mudança) e sempre em busca de uma extensão cada vez maior da descoberta (surgem penhascos/ dificultando a queda/ espumante de raiva/ vence os degraus/ quer o abismo) e do enlace com o mundo e as coisas do mundo (alma do homem/ és como a água!/ destino do homem/ és como o vento!).

Flor da Noite aproxima uma densa imagem poética sobre a filigrana mesmo do Ser, do mundo e do real, envolto na sombra da noite e do infinito (dorme, tudo dorme/ sobre o mundo, cai o véu/ veste o infinito/ véu da noite, cai do céu), com a menção de memórias afetivas, amorosas (se outro alguém te lembrar de nós dois/ não diz pra esse alguém/ o que passou e ficou pra depois), culminando no sonho misterioso que recobre a “flor da noite” (sonha, tudo sonha/ o universo vai ao léu/ verso do meu sonho/ flor da noite, carrossel). Este sonho misterioso, que cria um jardim noturno, é despertado num dia de alegria plena e celebração do existente, da vida e do amor em Candeeiro (madrugou, fez a cama/ quem do amor que te ama… / foi milagre de amor, foi perfume de flor/ foi na cama).

Após essa celebração, nos vemos, em Quanto Tempo/ Minos/ Vento Azul, diante de um quadro que coloca o tempo em suspenso, num momento de densidade poética e leveza melancólica com as sutilezas da apreensão da realidade sensível (sombra da mangueira/ esconde o sol/ e a folha cai/ quanto tempo faz?/ quanto sonho a mais?/ quanto tempo o tempo traz?). As indagações sobre o tempo, que se expressam neste momento em que o tempo mesmo parece ser colocado em suspenso para a contemplação demorada da imagem da sombra da mangueira escondendo o sol, com a folha caindo lentamente, conduzem de um modo surpreendente para o poema “Minos”, de Antonio Cicero, que descreve a miríade de objetos e construções de uma cidade moderna e a experiência vertiginosa do olhar em meio a tantos “canais estradas viadutos ferrovias funiculares/ pontes túneis… / …ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas”. A lentidão contemplativa é interrompida pelas imagens vertiginosas de construções urbanas numa paisagem de metrópole.

Estas imagens vertiginosas, este sentimento bem moderno de vertigem e movimento incessante de imagens descontínuas e ruidosas estão presentes justamente na próxima canção do disco, Você Não Sacou, com menções a alguns dos principais poetas da modernidade, entre o sublime e o terror, entre Pessoa e a loucura de Rimbaud, a terra devastada de T.S. Eliot e o fantasma de Picasso (sobre a terra devastada um sol sem calor/ …era uma zona de mistério entre o sublime e o terror/ era o fantasma de Picasso no buraco do metrô/ …era o casamento de Pessoa com a loucura de Rimbaud), com santos, desertos, anjos, galáxias, fetiches, garças, cidades, lugares do mundo (Caracas, Bangkok, Lisboa, o rio Sena, a Penha), beleza, pavor: alta cultura e sarjeta.

Sonoridades das cidades nos modos de ser das diversas formas de subjetivação nos muitos lugares do mundo. Céu azul de quem surfar. Em Out of the Blues, há uma inesperada declaração de amor que Ronaldo faz a Caymmi, em imagens poéticas que soam como pinturas. Cada quadro, cada verso, cada pincelada, cada momento da voz como uma coloração concentrada e difusa ao mesmo tempo (bares em Istambul/ céu de outro lugar/ …flashes de Amsterdã/ em iorubá), colorações prováveis e improváveis, e sempre o espanto diante do inesperado e também do esperado (não se traduz/ a luz do sol no mar). Vestígios da cor azul. Out of the blues.

Mas, após estas miríades de imagens, palavras e movimento das coisas, voltamos para o tempo da delicadeza e da contemplação, com a canção Ela Vai Pro Mar. A beleza bem resolvida, a felicidade concentrada, o sublime, o gozo da existência pela existência, na imagem de uma mulher a caminho do mar num dia de domingo (todo domingo ela vai pro mar/ leva um segredo e um maiô lilás/ de manhã cedo ela vai pro mar/ leva a certeza que tanto faz), num desapego diante das agruras e dos dilemas da vida e do mundo (leva um sorriso em desalinho/ tem o destino que amor levar/ leva meus olhos pelo caminho/ todo domingo ela vai pro mar), naqueles dias em que a vida parece ser uma celebração permanente do Ser.

Em O Tempo Não Passou estamos novamente diante da questão do tempo, como em Quanto Tempo/ Minos/ Vento Azul, mas dessa vez através de variações na relação do sujeito com o tempo, através de diferentes suportes e símbolos, como o cartão-postal (no cartão-postal o tempo estacionou), a madrugada (quando acordo lá pras três da madrugada), o relógio (olho o relógio e as horas não passam por mim) e a condição de estrangeiro (vou te escrever pra falar de New York/ …não sou ninguém sem você em Liverpool/ ou numa ilha dos mares do sul). É uma canção que ouvimos e ficamos tentando capturar o sentido, na figura do anjo que chega na madrugada, num momento em que o sono, o sonho e a vigília se confundem (quando acordo lá pras três da madrugada/ sinto um anjo vir rondar meu cobertor), o gesto de aproximar a boca da vidraça (colo a boca sobre a pele da vidraça) e a sensação íntima da textura, do desejo e da vontade do tempo correndo a seu favor (sinto as mutações do tempo a meu favor). Variações sobre o tempo, imagens vertiginosas, momento de alta reflexão e contemplação extática. Delicadeza das formas. Cores, coisas e palavras.

Denise Bandeira é um belo poema-canção para a atriz e artista, que a descreve com uma série de adjetivos elogiosos e carinhosos – Denise Bandeira é dez, puro cinema, sabe o que é bom, é de bom tom, é cultura, soberana, linda, primavera, Godard, de elegância inspiradora… – culminando com a afirmação do poeta de que ela merece um samba “onde arte imita a vida/ e a vida imita a arte/ andando na corda bamba”. Arte e vida em um enlace mimético, atravessado por dobras, sempre por um triz, bambeando na corda, entre a beleza plena e o domínio sublunar do real terra-a-terra: será que é daí que emerge o Belo enlaçado no Monstro terrificante? O poema “Minos” de Antonio Cícero ainda ecoa: “não ocultei o monstro: jamais hei de ocultá-lo/ jamais erguerei paredes para vedá-lo às vistas dos curiosos e maledicentes”. Será nele que se situa o significado do belo e do sublime?

Polaróides, na voz de Sandra de Sá, tem como tema a promessa da realização de um amor jovial (eu quero que tudo pra nós seja verão eterno), na paisagem noturna carioca (da trama que envolve a paisagem noir do Leblon), entre espelhamentos de olhares, telas (gravado na tela do seu novo computador... / se paro meu olho na dela / meu olho reclama) e iluminações difusas que o poeta tenta captar (disparo outra vez polaróides e o tempo dispara). O movimento pela cidade à procura de um amor jovial e leve, como encantamentos com figurações da beleza que se misturam às coisas, exigem o salto e a aproximação imediata, a urgência mesma do afeto (me desculpe a pressa, mas a madrugada me chamou), para se chegar no Outro que, no entanto, nunca se apresenta como presença plena. Em meio à canção, o desejo do indizível, a busca pelo irrepresentável, pela palavra rara que possa unir, finalmente, amor, paisagem noturna, espelhamento de olhares, iluminações difusas e encantamentos (do meu canto eu prego a palavra que não se falou).

Alma de Pierrô é uma canção sobre um amor que se realiza e se encontra no carnaval, aonde alegria e tristeza se fundem e a melancolia do poeta encontra a potência do amor em meio à festa e à espera da saída da escola de samba (alma de pierrô/ quem me vê assim/ não vê a tristeza marcando a cadência com seu tamborim/ …eu me preparava pra ver a Mangueira passar/ estação Primeira foi lá que eu fiz meu lugar/ indo com a minha escola a sorte sorriu afinal/ encontrei meu grande amor no Carnaval). O amor como redenção absoluta diante das agruras da vida (e foi só por causa do amor/ que na minha vida faz sol/ apontou saída pra quem não sabia/ viver sem chorar). Canção com aquela beleza das grandes canções brasileiras, de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, especialmente, enxuta, a palavra certa, cristalina, no lugar certo e ressoando como se fosse uma canção de todos, feita por todos, como se estivesse no nosso imaginário coletivo a espera de soar.

Por fim, temos a bela A Thing of Beauty/ Juventude. Trata-se da justaposição do poema de John Keats, sobre o significado do Belo, com a canção Juventude, que tem como tema a juventude, a beleza e a alegria de viver. A beleza é difícil, nem todos somos capazes de suportá-la; ela é avassaladora, e  nos exige a afirmação de um estado de graça que talvez, nós, humanos, não somos capazes de aceitar. Na tradução de Augusto de Campos, o poema de Keats diz:

 

O que é belo há de ser eternamente

Uma alegria, e há de seguir presente.

Não morre; onde quer que a vida breve

Nos leve, há de nos dar um sono leve,

Cheio de sonhos e de calmo alento.

 

Liebe Paradiso talvez seja um dos discos, entre os contemporâneos, de maior densidade estética e poética, aliada a uma inventividade, uma inteligência sonora e imagética. André Midani diz, acertadamente, que este disco lembra os grandes discos do passado e é, ao mesmo tempo, totalmente contemporâneo. É possível sentir nele Cartola, Caymmi, Custódio Mesquita, Tom Jobim, Milton Nascimento, os diversos grandes artistas da canção da década de 60, a experimentação aguda dos 70 e a abertura para sonoridades cosmopolitas do século XXI. Nele passam e se situam muitos dos sonhos que criamos e realizamos na linguagem da canção, e muito do que criaremos e sonharemos ainda. Leveza melancólica e inteligência inventiva, maturidade musical, além daquela capacidade que tem a grande arte de captar a "subjetividade impessoal" das cidades e de suas paisagens recheadas de palavras e sentidos.

Alegria, joie de vivre: a thing of beauty

*texto originalmente publicado no livro Hotel Universo: a poética de Ronaldo Bastos, de autoria de Marcos Lacerda. 

liebeparadiso.jpeg