Léo Cavalcanti e as canções em chamas
por Marcos Lacerda


Não lembro exatamente como conheci as canções de Léo Cavalcanti. Se ouvi de imediato o seu primeiro disco, “Religar” (2011), com todas as canções, ou se vi primeiramente alguns vídeos de números musicais dispersos pelo youtube. Talvez tenha sido assim. Lembro do impacto que me causou uma atuação dele cantando “Dissabor”, a canção de frustração amorosa que se estrutura numa trama inventiva de palavras. Léo estava muito bonito, com os cabelos soltos, os olhos pintados e fazendo gestos com o corpo. Era difícil não gostar, não ficar hipnotizado com ele ali. Era  um misto muito sugestivo de exuberância leonina, solar com poesia trágica.

Depois, se me lembro bem, fui ouvir o disco todo. E confirmei que era de fato um compositor de alto nível. As canções eram muito boas e, em sua maioria, tinham a mesma trama inventiva de palavras. “Chuvarada” (com Tata Aeroplano), Inalcançável você, A tal da paciência, Frenesi de otário e tantas mais. E ele tinha a aparência de um menino, com os olhos de fogo e os pés de vento. Sempre muito bonito, com os longos cabelos, dizendo palavras como se fosse um erudito. Palavras que queimavam e seduziam o ouvinte.

Alguns anos depois fez o segundo disco, “Despertador” (2014), mantendo a mesma verve poética, mas dessa vez com um maior interesse pela senda do pop, da dança solta, do ritmo desvairado, da alegria de ser e de estar. O primeiro disco era vital, pulsional, mas tinha muito de reflexivo. Este segundo era quase que só pura pulsão e vitalidade, sem deixar, claro, de ser também um bom trabalho com as palavras. 

Agora, 8 anos depois, ele está preparando o terceiro disco. “Canções em chamas”, que contará com participações de peso e está em fase de financiamento coletivo. No vídeo de divulgação se nota um ímpeto de invenção que, no entanto, não se revela de todo. Está envolto de mistérios. Não sabemos muito bem o que virá. Há um texto falado, enquanto vemos suas imagens movimentando chamas. É ele mesmo quem o fala “chegou a hora de fazer da dor lenha, do delírio, vento, do desejo, labareda”. A sua voz diz as palavras em volteios poéticos lancinantes e com o movimento do corpo que faz com que as palavras se desdobrem sobre ele e queimem. Sempre com aquela mistura enigmática de exuberância leonina, solar, e poesia trágica.



 

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