La main et les sortilèges: o Concerto em Ré, de Maurice Ravel

por Max Lima

 

Quis o destino que as duas últimas grandes obras que Maurice Ravel escreveu fossem concertos para piano. O que o destino talvez não pudesse imaginar é que o compositor fosse conceber – simultaneamente – duas peças tão distintas e tão deslumbrantes. De um lado, o brilhante Concerto para Piano em Sol Maior; do outro, o opulento Concerto para a Mão Esquerda, ambos escritos entre os anos de 1929 e 1931. Enquanto aquele é uma obra despretensiosa e divertida, este é um projeto mais arrojado, de alegria grave e solene, em que o entusiasmo criador de Ravel se manifesta com maior esplendor.

Ravel já estava trabalhando em seu concerto em sol quando recebeu uma encomenda de Paul Wittgenstein (ninguém menos do que o irmão do filósofo Ludwig Wittgenstein). O pianista havia tido seu braço cruelmente mutilado durante a 1ª Guerra Mundial e estava disposto a continuar sua carreira tocando unicamente com a mão que lhe restara. Como o repertório para a mão esquerda e orquestra era escasso, comissionou obras frente a vários compositores: Strauss,  Bortkiewicz, Britten, Hindemith, Korngold, Prokofiev… E eles o atenderam. De todas as obras que foram escritas para Wittgenstein, no entanto, o concerto de Ravel permanece sendo o mais conhecido e o mais executado. E não é difícil entender o porquê.

 

Pianisticamente falando, escrever para uma mão apenas é uma tarefa nada fácil. Dentre as grandes dificuldades que comparecem à elaboração de uma obra de tal espécie está o desafio de justapor a massa orquestral às capacidades sonoras de uma mão apenas. O piano, nesse contexto, nunca pode soar limitado ou sugerir que mais poderia ser alcançado caso a mão direita também estivesse envolvida no jogo musical. Outro desafio é não sobrepor o virtuosismo ao idioma do instrumento. Em outras palavras, o compositor deve escrever para o piano e não contra o piano. Todos esses obstáculos Ravel soube transpor com extrema elegância e sofisticação, dois traços que, aliás, são marcas essenciais do seu fazer musical.

 

Ravel, embora fosse um compositor genial, não era um excelente pianista, mas compunha extremamente bem para o instrumento. Àquela altura, ele já havia escrito o ciclo Le Tombeau de Couperin, a suíte Miroirs e o dificílimo Gaspard de la Nuit, um dos ápices da literatura pianística do século XX. Escrever uma obra concertante para a mão esquerda, no entanto, era um desafio novo. A fim de melhor entender as possibilidades anatômicas, o francês mergulhou fundo nos Seis Estudos para Mão Esquerda de Saint-Saëns, bem como em obras de Scriabin, Godowsky e Alkan. A investigação empreendida por Ravel foi bem sucedida: a escrita do concerto é idiomática, e mesmo as passagens pianísticas mais simples foram escritas levando em consideração a fisiologia da mão e o peso natural do polegar, embora a peça esteja longe de ser fácil de executar.

 

Estruturalmente falando, o Concerto em Ré maior é bastante econômico. Com engenhosa criatividade, Ravel irmanou nesta peça elementos do concerto tradicional e técnicas modernas de composição, insuflando novos ares ao gênero concerto que, naquele período, já não mais gozava de tanta popularidade entre o público francês. Temos um, e não três movimentos, como normalmente se observa em obras do gênero.  Dentro da obra convivem passagens de grande variedade estilística, todas abarcadas sob uma estrutura que arregimenta e garante o estatuto orgânico do todo. Mesmo escrita em movimento único, o sentimento de diversidade que comparece em concertos escritos no modelo rápido-lento-rápido estão ali embutidos, de modo que o concerto nunca soa fragmentado ou episódico. Ele é inteligentemente encadeado e mantém em constância o interesse do ouvinte.

 

O gesto inaugural da composição é um sussurro misterioso dos contrabaixos, como aqueles ruídos de afinação que são ouvidos antes de uma apresentação orquestral. Dentro dessa murmuração ambígua dos contrabaixos – à qual vem se juntar o contrafagote e, depois, os demais instrumentos da orquestra – já habitam dois temas fundamentais do concerto, os quais farão aparições constantes ao longo da peça. Toda a movimentação noturna e caótica dos compassos iniciais é na verdade uma germinação da entrada triunfante do piano. O enredamento esmerado desses temas nas primeiras páginas da partitura cria a atmosfera esfíngica da introdução e ambientam a chegada exclamativa do solista, que de cara se apresenta heróico e poderoso, numa cadenza de alta voltagem virtuosística e expressiva. A dinâmica se mantém entre forte e fortíssimo, e a dignidade portentosa da entrada jamais é perdida de vista. Ao longo da peça, passagens em tutti são empregadas em momentos estratégicos, sempre impelindo e catalisando a força dos trechos escritos exclusivamente para o solista.

 

Um segundo momento vigoroso do concerto que merece atenção é o divertido e rítmico "scherzo". Cheio de harmonias e ritmos reminiscentes do jazz e do blues, essa seção transborda humor e evidencia as capacidades colorísticas de Ravel. Ritmos constantes e fixos com frequência são colocados em contiguidade com explosões sincopadas, criando um efeito polirrítmico. A espontaneidade do tratamento temático por vezes faz parecer que a música surge espontaneamente, da improvisação, mas nada ali é fortuito, tudo passa pelo filtro do cálculo e da lucidez. O bloco é todo construído a partir de temas já apresentados na  primeira parte do concerto.

Extremamente comovente é a cadenza final. Como nos compassos iniciais do concerto, ela surge de um rumor grave, no registro mais baixo do piano. Logo o misterioso tema se converte em uma série de arpejos aquáticos, em que verdadeiras cascatas de notas são atravessadas por uma melodia luminosa desenhada pelo polegar (uma técnica que Ravel provavelmente absorveu dos estudos para piano de Franz Liszt). A fragilidade aparente da cadenza se converte em ameaça cada vez que a mão esquerda faz sua descida até o domínio mais grave do piano. A sonoridade do instrumento vai ficando cada vez mais robusta, até que a orquestra surge novamente para impulsionar o solista. Entra em cena uma coda curta, mas, como é de praxe em Ravel, concentrada, e ela que dirige o concerto ao seu fim com vigor e brilhantismo.

 

Em 1931 Paul Wittgenstein estreou o Concerto para a Mão Esquerda, mas não sem fazer nele uma série de alterações e inclusões, o que deixou Ravel – que pesava minuciosamente todos os elementos constitutivos de suas peças – bastante irritado. O compositor posteriormente trabalharia com o pianista Jacques Février, guiando-o pelas páginas de sua partitura e tornando-o o intérprete "oficial" da peça. Apesar do imbróglio com Wittgenstein, a obra ganhou popularidade e rapidamente se destacou como uma das composições mais dramáticas e ambíguas de Ravel: por um lado, o concerto pode soar melancólico em certas passagens, mas, por outro, também ostenta uma felicidade imponente e sóbria. Se um turbilhão trágico às vezes acomete a orquestração, não raro ele se dissipa em iluminação pura e otimista.  A qualidade da composição, o seu caráter e a magia da escrita de Ravel trataram de firmar o lugar desta peça no cânone dos concertos para piano. E lá ela permanece.

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Maurice Ravel (1875 - 1937) foi um gigante compositor francês origem basca e suíça Ao lado de Claude Debussy, foi expoente do impressionismo na música (embora ambos rejeitassem com veemência o termo). Escreveu um número relativamente pequeno de obras, mas em todas elas fulguram o seu gênio colorístico e preciosista. Elementos da música barroca, neoclássica e mesmo do jazz e do blues se imbricam em suas composições, sempre regidos pelo discernimento e pela sensibilidade. É amplamente conhecido pelo seu "Boléro", mas também é autor de obras como o balé Daphnis et Chloe e a suíte para piano Gaspard de la Nuit.

Max Lima (Rio de Janeiro, 1992) é um músico e poeta brasileiro. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui poemas publicados em prestigiosas revistas e blogs literários. É autor do livro Tetraplegia das Coisas, lançado em 2020 pela editora Patuá.

 

Gravações recomendadas do Concerto em Ré, de Maurice Ravel:

Orquesta de Radio Televisión Española (RTVE)

Mario Venzago, regência

Marta Zabaleta, piano

https://youtu.be/LMygQpZroXg

 

 

London Symphony Orchestra

Claudio Abbado, regência

Michel Béroff, piano

https://youtu.be/vZVXJFioKzY

Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire

Charles Munch, regência

Jacques Février, piano

https://youtu.be/jHuWqYLFMZA