CAPA: Juçara Marçal: Canção, Encarnada
por Marcos Lacerda & Alexandre Marzullo

Juçara Marçal é, reconhecidamente, uma das mais importantes artistas da canção brasileira contemporânea. Faz parte de uma geração de músicos, cantores, compositores e arranjadores que vêm fazendo um trabalho de grande relevância para a canção brasileira. No caso dela, em especial, através da sua atuação no Metá Metá, ao lado do violonista Kiko Dinucci e do saxofonista Thiago França; o trio lançou uma série de álbuns como Metá Metá (2011), Metal Metal (2012) e MM3 (2016), EPs: Alakorô (2013) EP (2015), EP 3 (2017). Além de terem feito o espetáculo Gira, para o Grupo Corpo.

​                                                                                                                  

A importância da religiosidade de matriz africana é nítida na estruturação dos discos do grupo, ao lado de um alto nível de experimentação formal, com precisão técnica e inventividade muito singular. . Basta pensar em canções como Obá Iná, de Douglas Germano, que é uma canção de  celebração, cantada sempre nos espetáculos, com o conhecido refrão:


Kaô Kabecilê, Xangô, Obá Iná
Kaô Kabecilê, Xangô, Obá Iná
Kaô Kabecilê, Xangô, Obá Iná
Kaô Kabecilê, Xangô, Obá Iná

E, claro, canções como Obatalá, Ora Iê Iê O (Metá Metá, 2010), Exu (Metal, Metal, 2012), Obá Kossô (MM3, 2016), dentre muitas outras, apontando um interesse e uma profunda pesquisa a costurar seus procedimentos criativos com esmero e rigor. A lição de Metá Metá parece ser, essencialmente, a de uma pluralidade sincrética e visceral como raiz, amparada na herança de tal visão religiosa de matriz africana como seiva e linfa de uma contemporaneidade possível, de uma ideia-Brasil, e que por ser possível abarca e enfrenta os conflitos contemporâneos. Talvez, esta seja a chave de seus inventivos arranjos e delicadas e inusitadas texturas, guiadas na canção pela voz firme de Juçara.


Um compositor muito frequente na sua obra é o pernambucano Siba. Lembremos da canção Vale do Jucá, bem como da áspera Ciranda do Aborto; Siba, artista de presença relevante no cenário brasileiro, repercute também canções de destaque no primeiro disco solo de Juçara, Encarnado, de 2014, como a fascinante Velha da Capa Preta. Junto a Siba, outra presença decisiva na obra de Juçara é a de Kiko Dinucci. O contato com o artista foi fundamental, como ela diz em muitas entrevistas; junto com Dinucci, Juçara assinou o álbum Padê, lançado em 2008, onde já denotava a estética musical e poética que viria a se materializar com o Metá Metá. É o que se nota , nitidamente, em canções como São Jorge e também, na canção de abertura que batiza o disco, verdadeiro cerimonial de oferecimento a Exu. Também chama a atenção a presença, em Padê, de uma canção como Velha Morena, de Luiz Tatit, da fase heroica do grupo Rumo, e este ponto é interessante na compreensão da trajetória da cantora: Juçara Marçal é de uma geração de artistas que tem a vanguarda paulista como referência central, com laminares como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, além do próprio Rumo. 


Em 2014, como dissemos acima, lançou o seu primeiro álbum solo, que figura entre os melhores feitos na década e que conta, não à toa, com composições daquela especial geração de artistas de São Paulo, com nomes como Rodrigo Campos e Romulo Fróes. Encarnado foi um espanto quando surgiu; preenchem o belo álbum canções de extrema qualidade composicional, ao mesmo tempo em que vinculadas ao cancioneiro tradicional  brasileiro e apontando, em seus arranjos e performances, para uma visão musicalmente inventiva e cosmopolita: Velho Amarelo, Damião, Ciranda do Aborto, A Velha da Capa Preta...  são muitos os exemplos. E perpassando todos, a dicção precisa, clara, poderosamente presencial de Juçara. 


Na sequência, Juçara se juntou ao  músico carioca Cadu Tenório para a realização do belo e estranho Anganga (2015). Experimental, sua primeira faixa, Eká, demontra a versatilidade da cantora, lançando-se em lancinantes uivos e gritos em uma impecável mistura de concisão e desprendimento. A voz de Juçara flutua, sirênica, mitológica, retumbante, por sobre as texturas controversas e ao mesmo tempo bem tecidas de Tenório. Anganga é a entidade suprema do povo banto, e o álbum, dentro de sua inortodoxa apresentação, reúne reinterpretações contemporâneas de vissungos recolhidos por Aires da Mata Machado Filho em São João da Chapada, em Diamantina (MG). Espiritual e industrial, atávico, catártico em uma era sem catarses, Anganga, em seu conjunto, tal como Encarnado, é um dos mais instigantes discos dos últimos anos.

Dois anos depois, com Rodrigo Campos e Gui Amabis, Juçara fez o ábum Sambas do Absurdo (2017), concebido a partir de um íntimo diálogo com a literatura do existencialista franco-argelino Albert Camus. É muito interessante (caso raríssimo) o próprio release do álbum, disponível no site de seu respectivo selo Circus, onde se lê que o disco se pretende ser "uma espécie de encontro com o absurdo, expressado na desconstrução do samba enquanto canção". Ao longo de Samba do Absurdo, é evidente que a aproximação do samba com a figura do absurdo é tão política quanto poética; aliás, há um forte argumento a ser feito, a respeito da ideia de absurdo somente ser possível de ser pensada poeticamente. Seja como for, ao longo do disco, o ouvinte se depara com um conjunto de sambas, digamos, "tortos", a partir da parceria entre Rodrigo Campos e o artista plástico, ensaísta e também compositor de canções Nuno Ramos. As canções são separadas por números, como se fossem uma peça só; a ordenação das canções, portanto, se dá como Absurdo 1, Absurdo 2, Absurdo 3, e assim por diante, mas em ordem decrescente (8; 7; 6...). No total, oito absurdos, colocando em cheque o próprio fazer-canção e, consequentemente, o próprio "fazer-álbum", o próprio devir dos absurdos (existe algo de absurdo, aliás, em enumerar absurdos, colocá-los em ordem, ainda que decrescente; uma ironia fina). 

Tais discos coroam e representam a qualidade e a coerência artística de uma carreira longeva, sempre em movimento, apontando adiante. No final da década de 1990, com o grupo vocal Vésper, do qual fez parte, Juçara Marçal lançou os álbuns Flor D'Elis (1998), 180 Anos de Samba Cantando Adoniran e Noel (2002) - este, com MPB4 e Luiz Tatit, Ser Tão Paulista (2004) e Na Lida (2012). Em conjunto, atuava com A Barca, coletivo de artistas com uma poética de trabalho baseada na obra de Mário de Andrade, com ampla pesquisa e estudo sobre a fase em que o grande poeta modernista fez seu conhecido trabalho de registro de ritmos, gêneros e formas de canto ligados à cultura popular. Com o grupo, Juçara lança os álbuns Turista Aprendiz (2000) e Baião de Princesas (2002), além das coletâneas audiovisuais Trilha, Toada e Trupe (2006) e Coleção Turista Aprendiz (2007). Por um tempo, os três grupos (Metá Metá, A Barca e Vésper) fizeram parte do cotidiano musical da artista; em 2012, Juçara deixa A Barca, e no ano seguinte, o gupo Vésper.


Tamanha confluência com um percurso literário-poético se explica pela própria trajetória da artista: Juçara é também formada em Letras, pela USP, e pela mesma Universidade desenvolveu uma pesquisa sobre o escritor mineiro Pedro Nava, defendendo uma dissertação de mestrado sobre o autor. Escreve-se, assim, a sua obra: a artista vem a desenvolvendo ativamente, em permanente processo de construção, envolvendo, como vimos, a canção popular, os experimentos vocais, a pesquisa em cultura popular, a pesquisa acadêmica, o envolvimento com um dos mais importantes grupos de artistas da música brasileira, concentrado em especial na cidade de São Paulo.

E como provam os últimos lançamentos da banda Metá Metá, como Oritá Metá, projeto em seis vídeos que celebra os pontos de encontro e as singularidades de seus músicos, lançado em abril de 2021, e Igbá, LP de raridades e registros que percorrem toda a carreira da banda, lançado em 2020, Juçara Marçal continua em movimento, com inquietude, canção e criação.

Discografia

METÁ METÁ
 

Metá Metá (2010) 
spotify https://open.spotify.com/album/4SpuGveRtwYVXdsFmgsIRc
youtube
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4M922jp5CzSDcFavJRj-jFH
 

MetaL MetaL (2012) 
spotify 
 https://open.spotify.com/album/3C3gfqivAGtGOeu0FSPk3u
youtube 
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4MzTKWki0lbM-40cMm_Kc36
 

Alakorô (2014)
spotify 
https://open.spotify.com/album/5Vp4B9Xcbm4FE222tf1O0Y

youtube https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4M_xHV22YWE08aYN-1f_Jxt

Metá Metá (EP 2) (2015) 
spotify 
https://open.spotify.com/album/3ZdxCGGP4VWklULJPum9Jg

youtube https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4ONX-bMQ53FhlU6SIy99uml

M M 3 (2016)  
spotify 
https://open.spotify.com/album/6cZLQamvGf2o04u2pxjzFg
youtube 
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4Oa48XefUDsugls3Q5YHHAa

EP 3 (2017) 
spotify 
https://open.spotify.com/album/3QjlGcMEQXFcKVIuKYzfAr
youtube 
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4NDc8RdKBtK9LI7pMaFQkee

Gira (Trilha Sonora Original do Espetáculo do Grupo Corpo) (2017) 
spotify 
https://open.spotify.com/album/4v4g6O8ZNvtxpSKfBQvXDu
youtube 
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4P2TqGeJnuSAdFVoBDwrdra

Sessões Selo Sesc #3 Metá Metá (2018)
spotify 
https://open.spotify.com/album/1kNNs8L0IdrPcAm5V8yPwx
youtube 
https://youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4Onf--yeWuwfgUgCUJtk1w-

Igbá (2020)
spotify
não há link disponível.
youtube 
https://www.youtube.com/watch?v=EOHJlceQovQ&list=PLGrHgl6NbS4OrGGHnuz1vdmRu7Q0mXBqT

Oritá Metá (2021)
spotify 
não há link disponível.
youtube
https://www.youtube.com/playlist?list=PLGrHgl6NbS4OiwLbFlRiSqAxgNJF6GXzO


JUÇARA MARÇAL (solo)

Encarnado (2014)
spotify https://open.spotify.com/album/1pRvKobyyF8tJcb4i9cKb8
youtube 
https://www.youtube.com/watch?v=18p5_PiPk8E
 


RODRIGO CAMPOS, JUÇARA MARÇAL E GUI AMABIS 
 

Ladeira (2021)
spotify 
https://open.spotify.com/album/2kIHCiih7resUnBjELoyGz

youtube https://www.youtube.com/watch?v=CFot1AvlrsU

Sambas do Absurdo (2017)
spotify 
https://open.spotify.com/album/40vtzIUORrLlydCDXfWGEQ
youtube 
https://www.youtube.com/playlist?list=PL8EaHn_WNh-0TmX1ARLm_6Ac0mx6E_K-R
 

JUÇARA MARÇAL E CADU TENÓRIO

Anganga (2015)

spotify https://open.spotify.com/album/4nVpmdEtVBkXj6N1Ou9IjC

youtube https://www.youtube.com/watch?v=gHb0TEzlzt0

JUÇARA MARÇAL E KIKO DINUCCI

Padê (2008)

spotify https://open.spotify.com/album/3Az2EXCM5W1w14o4ev0uCU

youtube https://www.youtube.com/watch?v=959PS2Oo7Yw

A BARCA

Turista Aprendiz (2000)

spotify https://open.spotify.com/album/3TClBE2jVFVqrfZf1F7T9Q

youtube https://www.youtube.com/watch?v=Hdj3ICP6vPQ

Baião de Princesas (2002)

spotify https://open.spotify.com/album/4DId0wR7XHAqjM9GMzRDRo

youtube https://www.youtube.com/watch?v=v6XsixAZyn4

Trilha, Toada e Trupe (2008)

spotify https://open.spotify.com/album/1KPzN4uEUr88n63hpn6PhC

youtube https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_ldlAPqWwoa3_vMIiTUk_4jbvjisQE8r_s

VÉSPER VOCAL

Flor D'Elis (1998)

spotify não há link disponível

youtube https://www.youtube.com/playlist?list=PLrt7VbxNS8rcdbBQFQEE_nSaQ40GF2Wx4

Tributo a Adoniran & Noel (180 Anos ​de Samba Cantando) - com Luiz Tatit e MPB4 (2002) 

spotify https://open.spotify.com/album/12lCTJf1st4yrMhNckXaOG

youtube https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_nuU-K3EJlg7pZgnecy8dH18rEYbyDD_ys

Ser Tão Paulista (2004)

spotify https://open.spotify.com/album/6DGCyz5rdgJC0c4qrf2ETY

youtube https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_ms-2CNjmWjH2Lyd_4rhboz_qU6X1v_PoY

Na Lide (2012)

spotify https://open.spotify.com/album/2gZl2Eut4M3xknMSgsEWG2?si=csfIsuSPT7moatVknOv6Sg&dl_branch=1&fbclid=IwAR2cW06R8AH7CczLNEabfvY84igHSZyqwrHQJj2T5V1Ps3LDpafAX407jDc

juçara marçal foto de jose de holanda.we

foto de josé de holanda