Encontro dos Rios (2020), João Bernardo

por Alexandre Marzullo

 

...quando o sonho e o rio dobram a esquina

O mar é logo ali: água pra quem sabe nadar. Esses versos de João Bernardo, constantes da canção “Longe Daqui (É Perto de Outro Lugar)”, trazem à mente a fluida lógica das possibilidades: inaugurar o ser a partir de sua própria imanência. Ou, como no inebriante fragmento de Jorge de Lima em Invenção de Orfeu – sempre um copo de mar / para um homem navegar. Eis aí um primeiro eixo poético para mergulharmos nas canções de Encontro dos Rios, segundo álbum do instigante cantor e compositor mineiro.

 

Lançado pela Dubas Música em maio de 2020, de acordo com o próprio artista, Encontro dos Rios foi elaborado – floresceu – de forma completamente orgânica. João Bernardo cantarolou cerca de cinquenta músicas suas aos músicos recrutados para as gravações; desse número, nove canções foram selecionadas e registradas, sem maiores ensaios – as nove canções do disco. A banda de estúdio, formada por Bem Gil (guitarra e flauta), Bruno di Lullo (baixo, violão e sintetizadores), Domenico Lancelotti (bateria, percussão e sintetizadores) e Fabiano França (sintetizadores) teve ampla liberdade criativa, e a espontaneidade que o processo sugere reflete-se graciosamente no resultado final. Encontro dos Rios é um disco de músicos em pleno ato, inventivos e investigativos, muito embora concentrados na experiência da canção – o fio de ouro de João Bernardo.

 

Depreende-se do narrado acima que estamos falando de um artista não apenas prolífico, mas sobretudo fluente na linguagem musical da canção, trabalhando a matéria musical a partir de sua função essencialmente melopeica (e particularmente prosódica); João Bernardo concentra, em seu próprio canto, o argumento de suas canções. Por consequência, seu cancioneiro prima por versos elaborados a partir de sínteses poéticas, de tremendas intensidade. Veja-se, antes mesmo de Encontro dos Rios, seu álbum anterior, Meu Coração Não Para de Me Bater, com canções como “Se Eu Fosse o Tom Jobim”:

 

eu reparei que ultimamente você tem

aprimorado muito seus defeitos

se eu fosse o Tom Jobim

você não ria de mim

se eu fosse um rei, você veria

o peso da minha lei

mas sou vagabundo

o mundo todo é meu

 

Sem esquecer a canção viral de João Bernardo, também constante daquele disco, com cerca de oitocentas mil audições no Spotify e três milhões de visualizações no Youtube, “Queria Me Enjoar de Você”:

 

eu não vou fazer mais nada

nem vou me lembrar de te esquecer

voltando da sua casa ontem

reparei que eu tinha ficado lá

 

A mesma qualidade de síntese e encantadora habilidade retórica – são, afinal, canções “malandras”, como se costumava dizer antigamente; flertam com o ouvinte, jogam com as palavras, fascinam e se tornam coro – se repetem, ao longo do álbum Encontro dos Rios, em diversos momentos. A faixa de abertura, “Longe Daqui (É Perto de Outro Lugar)” é um dueto com a talentosa e aural Mãeana; o clima onírico da canção é valorizado pela artista e por João Bernardo, que sobrepõem suas vozes aos sugestivos arranjos. “Longe Daqui...” também recebeu um videoclipe, produzido por este que vos escreve.

 

Mágoa não há de ficar

Saudade talvez

Morreria na sua ilha outra vez

 

Tal atmosfera, singular e personalíssima, brumosa – a canção é um lugar inventado pelo som e sonhado com os ouvidos – repercute faixa a faixa ao longo da obra. Exemplo notável é a canção seguinte “Quem Procurou Não Encontrou”, cujos versos descrevem uma espécie de metapoética para o projeto como um todo – joga com a dor capoeira / deixa essa preta sambar em paz / morrer de amor nunca é demais. Mas antes mesmo dos versos, as luzes estão presentes desde o título da faixa: ora, se "quem procurou não encontrou", então, quem encontra, não procura. Esta é uma atitude que exige uma percepção do sujeito dentro de seu próprio fundamento; quando a vida chama, saber ser flor, ou em outras palavras, simplesmente ser. Eis aí uma dignidade ontológica: na encruzilhada me batizei / eu não sou escravo, vim pra ser rei.

Mas não se trata de filosofia, e sim de canção – esta força que “puxa por todos os lados”, como gosta de dizer Zé Miguel Wisnik. E “`Puxadinho”, faixa seguinte, deixa bastante claro que é a canção o campo de interesses do compositor; se eu quisesse palavras eu lia um livro, amor / foi pensar em você e saí de lá preso / mas eu nunca quis o ciúme / não dou trela pra essa besta-fera / mas fico uma fera se feito de besta. “Puxadinho” é uma canção de desamor, e no entanto bem-humorada, como as antigas marchinhas de Carnaval:

 

se já foi, já era

só não me engane

tá puxado ser um puxadinho no seu coração

enquanto o outro, de mansinho

já tá morando na mansão

(tá puxado)

 

A gama musical do álbum é ampla e impressiona. Cada canção apresenta seu próprio repertório convergente, sua própria tradição, como pequenos braços de rio que banham João Bernardo. “Nosso Fado”, faixa seguinte, lembra as experimentações psicodélicas dos anos 1960, com uma lisergia de sons e o que parece ser uma guitarra portuguesa evocando a identidade lusitana do título. A letra da canção repete-se como num carrossel ébrio – mesmo consciente, sempre no inconsciente do mundo / sonho que sonha dobra a esquina – permitindo aos músicos da faixa toda sorte de inventivas explorações e ruídos. "Nosso Fado", tensionando a experiência de Encontro dos Rios, abre caminho para a beleza e sutileza da faixa-título, onde João Bernardo dueta novamente com Mãeana. De certa forma, o retorno de Mãeana é simbólico, pois na canção “Encontro dos Rios” há uma reverberação da singular “Longe Daqui (É Perto de Outro Lugar)”, com o mesmo sentimento contemplativo de um outro tempo, um outro porvir. No entanto, enquanto a faixa de abertura do disco acontece de forma quase revelatória, como um clarão de sonho, na faixa-título há uma cadência de doçura; o próprio gesto contemplativo é como que aninhado pelo compositor. Há um olhar de ternura sobre a vida.

 

vou lhe roubar mais tarde

tudo pode deixar pra depois

tudo pode ficar pra amanhã

lhe encontrar noutra vida

 

A canção termina em uma livre improvisação, dando sequência a “Hoje Só Volto Amanhã”, onde João Bernardo assevera, afiado, o amor é uma equação que ninguém resolve bem. De fato, é na medida dos desencontros que as canções de amor fizeram sua fama e lastro em nossa consciência musical; “Hoje Só Volto Amanhã” faz lembrar os volteios poéticos de “Puxadinho”, “Engenho de Cama” e “Se Eu Fosse O Tom Jobim” (as duas últimas, de seu disco Meu Coração Não Para de Me Bater, de 2015):

 

e eu preciso entender que eu não preciso entender você

e eu preciso entender que eu não preciso entender você

 

Repetir, recordar e elaborar: como diria Sergio Sampaio, “as pessoas são uns lindos problemas”. Mas mesmo sem entender – mesmo entendendo que não é necessário entender – mesmo voltando, somente, amanhã – o compositor ama, e tem vontade de amar. Prova do fato é a faixa seguinte, “Lua, Minha Flor”, que, como um cordel musical, acrescenta uma paisagem folclórica ao encontro das águas do compositor. Uma fogueira implícita arde no centro da canção, iluminando uma noite cheia de anseios, alegrias; cheia de juventude: “lua, minha flor / lua, fruta prata / se de noite você se esconde / meu amor não vem mais me ver”.

 

“Lua, Minha Flor” prepara o desaguar da próxima faixa, “Sertão”, onde temos um retrato ainda mais essencial da poética de João Bernardo, consubstanciado em versos que mereceriam estar espalhados por toda a cidade – aliás, por todas as cidades:

 

meu coração aguenta sofrer as maiores alegrias

o sertão de ser tão só

todo mundo atravessa

 

E é como canção de amor que o disco inevitavelmente termina sua jornada fluvial. “Lili Tá Que Tá” reune-se todas as capacidades do disco, a alegria de amar, a capacidade de entrega, os arranjos inventivos e ao mesmo tempo tão brasileiros, os timbres peculiares que dominam o disco. E, claro, os versos sintéticos e potentes do compositor:

Se for pra ser palhaço eu sou

Se for pra ser seu amor, eu tô

Conclusivamente, há um mistério na capacidade de impacto e educação emocional que a canção brasileira consegue oferecer ao seu ouvinte. De igual forma, há um mistério naquilo que motiva e capacita um cancionista. Que se consagre em dito: seja qual for o salto necessário de uma ideia para uma canção, João Bernardo o realizou e realiza com esmero e vigor. Haverá de chegar o dia em que a matéria-canção será considerada na mesma altura que a matéria-poema, e cantada pelas ruas, em plenas alturas. Qualquer coisa de sensacional, mas com ternura.

 

Sempre com ternura.

Ouça Encontro dos Rios, de João Bernardo:

https://open.spotify.com/album/3ysnHDMW9pnZmEqEbmvRrB

Capa-Encontro-dos-rios_Joao-Bernardo.jpg