Pássaros (2021), Gustavo Infante

por Alexandre Marzullo

...o que vem é profundo, o que vem tem leveza

Pássaros, segundo álbum de Gustavo Infante, lançado pelo selo Bastet em parceria com a YB Music, traz ao ouvinte uma experiência sonora enunciada a partir de uma ambiência muito singular, na qual som e ruído equacionam-se, como poesia. São articulações que perpetuam o vocabulário poético de Gustavo Infante,  apresentado pela primeira vez em seu álbum de estreia, SER (2019), e ao mesmo tempo, introduzem uma redefinição acerca de sua própria concepção criativa; portanto, em uma sentença, o álbum Pássaros radicaliza o universo sonoro e poético do artista.

 

Convém olhar rapidamente para as linhas de comunicação entre SER e Pássaros e, na sequência, observar onde acontecem os cortes e pontos de ruptura, os desenvolvimentos estéticos de Gustavo Infante. De imediato, temos em ambos os discos as belas, inescapáveis tapeçarias de violões – violões contínuos, espiralantes, voltados para o etéreo. São, efetivamente, cordas em camadas, dedilhadas como se em vertigem; é de se notar, nisto, uma certa ausência de percussões nas composições do artista – os próprios violões costumam oferecer os acentos rítmicos, de modo que a resultante é uma sensação de transparência e suspensão em seus arranjos. Levitações de som e luz.

A outra grande linha contínua entre SER e Pássaros diz respeito aos temas poéticos elencados pelo artista. São temas que, de certo modo, refletem sua concepção musical, demonstrando a organicidade de seu processo: imagens marinhas, espirais, caracóis, rios que levam e trazem, como um campo onírico e sugestivo de visões e anseios, além de um destacado sentimento de travessia, muitas vezes denotado por uma forte consciência do próprio canto. 

 

Por sua vez, os pontos de ruptura estão concentrados na apresentação sonora de Pássaros. Esta redefinição dinamiza e, em retrospecto, individualiza ambos os discos, ao mesmo tempo em que aponta para consequências imprevisíveis. Em Pássaros, todas as quatorze faixas foram registradas a partir de fitas cassete e microcassete, com o uso ativo de tape loops, processamentos de som e modos diversos de captação. Como resultado, um certo residual sonoro obtido pela reprodução das fitas cassete se tornou um valor poético de diferença na própria experiência o álbum; dito de outra forma: o processo moldou fisicamente e o som e a experiência do som obtido pelo artista. E o fez de maneira tal que, a peculiaridade da textura sonora obtida por Gustavo Infante, na convergência com seu próprio modo de acontecer na canção, assume um estranho semblante, quase como um feixe ontológico: inadvertidamente, estamos diante de uma singularidade poética.

Ora, o uso de fitas cassete não é um procedimento inédito na elaboração fonográfica – muito pelo contrário. Mas ao sobrepor este processo de registro analógico com um pensamento musical que, a todo tempo, aponta para a tradição da canção brasileira, Gustavo Infante evidencia o poético como vetor da tecnologia, e não o contrário; como consequência, anuncia um futuro para a canção dentro da esfera do poético, desafiando a liquefeita contemporaneidade. E é como deve ser: o sussurro do poeta dissolve as fronteiras do porvir – seu tempo é o sempre-agora.

 

A partir daí, as canções se desenvolvem como pássaros de sonho, ou melhor, marés de caracóis: feixes luminosos em fita magnética cor de âmbar, com brilho de tenor. A atmosfera intimista sugere imersões para o ouvinte, cortes temporais, realçados pelo chiado da fita cassete; há uma sincronia de recursos que compõem a difusa e onipresente imagem do artista, em todas as partes fragmento, algo como um mosaico. Cada faixa aponta para uma fenda: eis o trunfo de Gustavo Infante: uma mirada em espiral sobre a canção, evanescente. Como uma convergência evaporante: "o sonho esfumaça".

 

 

Súbito, corto a resenha e pergunto: qual a canção que se escuta na Biblioteca de Babel? Porque sinto que ela deve existir. A canção implícita de Babel – pois quem guarda a palavra, guarda o som – sobre a qual Jorge Luís Borges, no entanto, cala, e não estranha que dos hexagonais infinitos não exista melodia alguma além dos passos arrastados de seus guardiães. O que me sugere outro problema: onde se encontra a Babel da Canção? ... e o refrão me traz de volta: “o sonho esfumaça”.

 

 

Do mesmo modo, talvez venha daí a recorrência das figuras de travessia – ou melhor, de um sentimento de travessia, como disse mais acima – tal como se repercute nas faixas "Canoa Dança", "Canoa de Dentro" e "Passagem" (dentre outras); na poética de Gustavo Infante, tais lançamentos de si são como travessias inevitáveis. O sentido é o próprio caminho; logo, caminha-se. Navega-se.

Talvez por isso, de certa maneira tais travessias demandem uma postura ética do viajante – donde o verso “amar sem palavras a solidão”, de sua parceria com Rômulo Fróes, “Flechas no Coração do Mar”. Esta faixa, aliás, é outro exemplo formidável da abertura poética, onírica do artista sobre a canção e a linguagem. Pois o que é que são, efetivamente, flechas atiradas no coração do mar? Que imagem é esta, de uma erotização do absoluto, fundada no entanto na ideia do naufrágio dos projéteis? A profundidade do porvir, diáfano: repito o verso de ouro, o sonho esfumaça.

 

Todos sabemos: todo sonho é uma experiência em movimento: um ingresso em campos de abertura de sentido, dentro de um trabalho ativo sobre a linguagem. E assim também é a canção. Ora, canção e sonho convergem na irredutibilidade da poesia. Daí, o caráter absoluto de toda "função poética" possível. E este parece ser o limiar do belo disco Pássaros, e da profunda poética de Gustavo Infante: uma interpolação possível entre o som e o sonho: se o sinal é o chiado, o residual (também) é poesia.

Ouça Pássaros, de Gustavo Infante:

https://open.spotify.com/album/43U3t28yQkSdzjFYEMoKou

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