Galope (2021), Paulo Tó

por Marcos Lacerda

 

Acompanho a construção da obra de Paulo Tó faz um tempo. Fiquei muito admirado quando saiu o disco “De cara no asfalto” (2016). Fiquei admirado por ver o compositor e cantor de canções com um tom que me lembrava muito alguns cancionistas das décadas de 60, mais especialmente figuras como Sidney Miller, Sérgio Ricardo, Edu Lobo da primeira fase, as coisas e conversas do CPCs, do teatro opinião. Eu sentia assim a obra dele, a forma das suas canções.

Foi quando escrevi uma resenha sobre o “De cara no asfalto” que para mim é o disco que melhor tratou o ambiente de turbulência do Brasil após as chamadas “jornadas de junho” de 2013. O disco soube interpretar aquele tumulto no país de maneira exemplar, com olhar arguto e crítico para além daquele contexto. Fui assim o seguindo, como lá o poeta lírico de “Luisa e a cidade”, que circula pela cidade, olha, quase vê, não consegue ver mais, a cidade vai se transfigurando, chove, os prédios e cartazes confundem a vista, tudo fica nublado e volta a clarear de novo e assim vai.

Ficamos amigos em Lisboa, no confuso e decisivo ano de 2018. Lá conversávamos sobre política, a vida do Brasil, literatura, canção popular. E, neste último caso, especialmente a canção de intervenção portuguesa, de autores como José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e Zeca Afonso. Conhecemos estes autores e o maravilhoso conjunto de canções que fizeram nessa jornada. Paulo Tó ficou muito entusiasmado com a obra destes autores. Fez dois shows em Lisboa, cantou o seu repertório junto ao repertório dos portugueses. Foi um sucesso, o encontro de ultramar deu certo.

Não vi estes shows. Estava já no Brasil. Fui então seguindo os seus singles, coisas que vinha lançando. Canções de carnaval, temas amorosos e assim por diante. Agora, lançou “Galope”, num momento em que o país vive ainda mais tumultuado e cada vez mais perverso e pesado. O seu disco mantém a inteligência crítica de “De cara no asfalto”, ao mesmo tempo traz também o delicado lirismo que é parte expressiva das suas composições e conta com a atuação decisiva de Mariana Mayor, atriz, cantora e pesquisadora, com quem mantém uma longa parceria na criação artística e na vida pessoal.

Galope apresenta três dimensões importantes para a forma de composição de Paulo Tó: a crítica política e social; a poesia lírica e, por fim, a atenção para a tradição da canção brasileira, especialmente o samba. Podemos concentrar nossa análise em torno destas três dimensões. Assim, na primeira, é possível agrupar canções como Greve geral, A sanha continua (com Jé Oliveira), Galope (com Mariana Mayor), Atrás dos tempos (canção de Fausto); a segunda, Adeus (com Jé Oliveira), O mundo por um fio (com Mariana Mayor), Utopia e, por fim, a terceira, Levanta, samba do otimismo, troféu de valente (com Ricardo Rabelo). Todas as dimensões obviamente se encontram e dão organicidade ao disco. Além disso, é fundamental enfatizar que Paulo Tó é também um autor sempre atento aos problemas da forma, às questões do âmbito das vanguardas, ao cuidado com a autonomia, ainda que relativa, da arte e da estética. Dito isso seguimos.

Vou destacar uma canção de cada uma dessas dimensões e, depois, termino com um texto mais pessoal a respeito da canção “Utopia”. No primeiro caso, a canção a ser realçada é “A sanha continua”, que conta também com um clipe, cujas cenas são muitos importantes para se compreender o sentido da canção. Trata-se de uma parceria de Paulo Tó com Jé Oliveira, e o tema conversa com a sensação no corpo das diversas formas de opressão, especialmente aquelas associadas à raça e à classe social. O corpo é atravessado, ou é mesmo um atravessamento das muitas violências que deram contornos e moldaram o Brasil, um país profunda e estruturalmente desigual.

 

Eu piso no barro

O meu passado vaza,

eu vazo pelas mãos pretas da oleira antiga,

Ela me dá forma, o passado agoniza

Mas segue vivo: de barriga em barriga,

De mãe pra filho, de umbigo a umbigo

 

Um dos momentos mais interessantes do clipe musical é a cena em que o protagonista principal está fazendo gestos de dança, num campo de terra na favela do Zaíra 2, e os gestos se transformam em punho cerrado e luta, unindo aqui a expressão artística com a luta social e política. O passo de capoeira, do funk se transmuta em ação concreta, de ação e defesa pessoal. Outra cena: observamos o mesmo protagonista, agora no Minhocão, que parece começar uma dança, mas que logo interrompe o próprio gesto ao perceber um carro de polícia ao fundo. A gravação conta com a participação de Salloma Salomão.

O mundo por um fio tem o lirismo afiado e doce de Paulo Tó. Conta também um belo clipe, onde se nota a passagem do tempo atravessando papeis jogados ao vento. Indo e voltando. Avançando e parando de repente. Existem duas situações acontecendo simultaneamente. Em uma, é o próprio Paulo Tó que está em uma área subterrânea, cercada de portas abertas, espelhamento da sua própria imagem, círculos, fumaças negras e, na outra, é Cecília Boal, dentro de casa, acordando, preparando lentamente o café, olhando de soslaio, dançando na sala, entre plantas e o mar aberto. O vídeo termina de forma misteriosa, com Paulo Tó num campo aberto, olhando o horizonte, e não se sabe se é aurora ou crepúsculo

 

Da janela vejo o fogo arder, incendiar

Mas você surgiu e o relógio parou

 

Por fim, podemos terminar com “Levanta”, uma canção solar, de afirmação, um samba exaltação que sintetiza a própria relação de Paulo Tó com a tradição da canção brasileira, com o samba. A canção celebra a vida, pura e simplesmente, com gosto pelo real, pelo concreto, pelas coisas do mundo sensível

 

Levanta que o galo cantou o novo dia

E a noite se armou longa e fria

E tão dura que o sol não nascia

Então abre o teu olho e não pia

Levanta e inventa a alegria

 

É importante ainda ressaltar as participações deste álbum, entre cantores, compositores e instrumentistas. Dele participam Thiago França, do grupo Metá Metá; Maria Beraldo Bastos, que fez recentemente um disco primoroso, “Cavala”; Rodrigo Campos, o grande compositor de sambas paulistanos; Douglas Germano, outro sambista de primeira também de São Paulo; a pianista portuguesa Joana Sá, entre outros.

 

 

Utopia, um relato pessoal

 

Em Lisboa as noites se alongam infinitamente. Numa delas, quando morava por lá, tive uma noite de bebedeira com Paulo Tó, que também estava por lá, acompanhando Mariana Mayor, sua parceira de composições e da vida. Nos encontramos no bairro alto, o famoso ponto boêmio do centro da cidade, que rivaliza com Alfama, e suas vielas e fados.

 

Bebemos canecas enormes de cerveja e falamos sobre tudo. A situação do Brasil, na época sob o governo de Temer, e se preparando para a tempestade de extrema direita que varreu o país em 2018. Falávamos também dos CPCs, o Teatro Opinião, Edu Lobo, o tropicalismo e tudo mais. Eu fiquei amigo dele por ter ficado fascinado com o seu segundo álbum “De cara no asfalto”.

 

Falamos também de coisas mais aleatórias, ou talvez nem tanto. O mundo das tecnologias de informação, as filosofias escatológicas do pós-humanismo e do transumanismo. O futurismo dos aceleracionistas, a engenharia genética, os híbridos de humanos e animais não-humanos e, com isso, chegamos em Maikóvski e o século XXX, aos futuristas russos, khleibnikov.

 

E isso tudo virou canção. Uma conversa de bar, entre dois brasileiros em Lisboa, um sociólogo e um artista da canção. Ambos estavam começando a se conhecer e, entre preocupados e excitados com as tramas do Brasil, viram-se de repente envoltos em um assunto que vai fundo em questões que atravessam o sentido da própria ideia de humano e, mesmo, da vida, tal qual a conhecemos. Para quem conhece a canção moderna portuguesa, estávamos entre José Mário Branco e Antonio Variações. A luta política e o futurismo pop.

 

Utopia nasceu assim, ou foi estimulado em alguma medida com essa conversa. E tem a voz de Cecília Boal, uma beleza!, e o piano da portuguesa Joana Sá. No final, cá estamos, de novo, dois sonhadores quem o sabe ainda presos ao volteios do século XX. O Brasil se desfaz na ciberpolítica, como num caminho sem volta. E os burgueses venceram, claro, de novo. É golpe depois de golpe. Mas aquela conversa ficou viva em algum lugar, quem o sabe a espera do tempo para ser reavivada.

 

 

Muitos milênios depois alguns seres do espaço

Encontrarão em pedaço o que a gente sonhou

Talvez descubram debaixo dos homens de aço

Nossa utopia cantada em algum gravador

capa-galope.png