Vencer, Vencer, Vencer (2018), Edu Kneip

por Marcos Lacerda

Vencer, Vencer, Vencer: o Baile de Edu Kneip

 

Edu Kneip fez uma proeza. Faz muito tempo que não conseguimos ver no mercado um disco de canção popular sobre futebol, o que não deixa de ser curioso. Futebol e canção são duas paixões nacionais, estão por todos os cantos do país, atravessam a vida das pessoas, mobilizam desejos, aproximam, geram conflitos e por aí vai. 
 

Então como é possível demorar tanto para aparecer um disco como este “Vencer, vencer, vencer” (2018), que une a canção popular e o futebol? E mais, através de longas narrativas sobre momentos especiais, todos do Flamengo? Faltou dizer, aliás, Kneip é torcedor apaixonado, tem um ar destes antigos torcedores românticos, que vivenciaram a fase de ouro do clube carioca, na década de 80, quando a equipe rubro-negra ganhou brasileirão, libertadores e mundial. E tinha Zico, um gênio do futebol, o melhor camisa 10 do Brasil depois de Pelé, sem dúvida nenhuma. 
 

Este é um disco para ouvir com calma, para saborear com prazer. Dá para ouvir de uma vez só também, deixar os excelentes arranjos nos conduzirem para batalhas épicas, gols inacreditáveis, trajetórias fora de série, viradas repentinas de resultados adversos, comemoração de títulos, vitórias decisivas, campeonatos carioca, brasileiro, libertadores da américa e mundial interclubes. 
 

Mas é possível também ouvir as canções de forma separada. Por exemplo, como eu fiz inicialmente. Fiquei muitas semanas ouvindo duas delas: “Os 11 samurais”, sobre a final do mundial interclubes, a vitória de 3 x 0 sobre o Liverpool; e “Baile do Urubu”, a respeito da final do campeonato brasileiro de 1992, vencido também por 3 x 0, dessa vez contra o Botafogo. Kneip optou por duas estratégias de escrita das canções e de construção dos arranjos. As canções seguem de perto lance a lance de partidas decisivas ou de campanhas inesquecíveis, gol a gol, jogo a jogo, narra cada um dos instantes do jogo, em tom realista, valorizando o jogo ele-mesmo, sem fazer firula ou dar dribles desnecessários no desenrolar das partidas. 
 

Assim, quem viu a emblemática final do Brasileirão de 1992 fica comovido ao ouvir em forma de canção a batida perfeita de falta de Júnior, nosso maestro. Sim, isso mesmo que você leu, paciente leitor, “nosso”, pois o escriba desta pequena resenha é também flamenguista apaixonado. 


Mas além do tom realista comum a todas as canções do disco, com letras generosamente quilométricas, descrevendo minuciosamente as jogadas, os gols, os lances decisivos, temos os arranjos que seguem sempre um tom épico, com lances de drama e tragédia, denotando, agora sim formalmente, o sentido de acontecimento histórico relevante, para o torcedor rubro-negro, mas também para o ouvinte com sensibilidade para o enlace, sempre muito sugestivo e com efeito estimulante, das formas poéticas com a massa sonora. 


Na canção sobre a final do mundial interclubes há o timbre japonês dando um colorido sutil e estimulante ao jogo, à canção, à música. No fundo, jogo, canção e música ficam numa curiosa situação de indiferenciação, como que se confundissem, formando um belo quadro: a alegria de rever os jogos vem acompanhada do canto, das palavras e dos arranjos que narram as partidas. 


Este o ponto, a meu ver, mais surpreendente deste disco. A música se confunde com a partida, parece fazer avançar Adílio, num drible ou jogo de corpo; impulsiona Zico para o chute preciso de fora da área; quase que voa junto com Gaúcho para o gol de cabeça que dá por encerrado o campeonato. 


Neste sentido, ele se diferencia de outros bons experimentos de aproximação entre canção popular e futebol, porque consegue criar uma ambiência de indistinção entre a imagem do jogo, na tela do computador ou na memória, e as palavras do cancionista que o canta como se estivesse narrando, como se ocupasse o espaço do narrador. 


Outro aspecto a se destacar. Os títulos das canções. “Batalha do Cobreloa”, “Baile do Urubu”, “Copa União”, “O Deus da Raça”, “O monarca, o Rei e o Uri Geler”, “Os 11 samurais”, “Peixe frito” e assim por diante. Os títulos seguem um tom bem popular, como requer o futebol, um esporte popular, feito para o povo, feito pelo povo. Qualquer torcedor do flamengo, seja da geração que for, independente da classe social, consegue reconhecer nos títulos os jogos, os campeonatos a que se referem.


Por fim, o virtusionismo musical e composicional de Edu Kneip fica muito bem evidenciado no disco, com os arranjos consistentes, as movimentações por gêneros da nossa música popular e assim por diante. Para quem não sabe, aliás, Kneip é um compositor de primeira, com uma série de canções em parceria com muita gente grande, gravada por nomes do primeiro time da nossa canção popular. Em suma, um compositor que, assim como este “Vencer, vencer, vencer” (2018), está verdadeiramente em um outro patamar. 
 

Ouça Vencer, Vencer, Vencer, de Edu Kneip:

https://open.spotify.com/album/2IfoCEm4ezTGy083Aby4lh

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