Dexter, o oitavo anjo

por Marcos Lacerda

 

 

Numa entrevista em que tratou do conceito do seu primeiro álbum solo, “Exilado sim, preso não” (2005), Dexter apresenta uma ideia muito sofisticada a respeito da sua relação com o período em que ainda estava exilado no sistema prisional. Uma ideia que nomeia o próprio álbum, em que define a sua condição como a de exilado, não de preso. A condição de exilado difere da condição de estar preso pela diferença entre o corpo e a consciência. Se o corpo realmente está preso, privado da sua liberdade, a consciência permanece solta, ativa, se movimentando de forma livre. A canção é o espaço no qual as ideias atuam. A música, os livros e o pensamento continuam libertos. Numa outra fala sua, desta vez para uma das inúmeras palestras que vem dando para detentos jovens e adultos, Dexter enfatiza ainda mais o papel das ideias como espaço de libertação da consciência, como forma de expressão e expansão existencial: “Dizer que é bicho solto com uma arma na mão é muito fácil, agora eu quero ver ser bicho solto mentalmente falando. Eu considero as palavras a arma mais perigosa que o ser humano pode ter. As ideias incomodam”  

As ideias incomodam. E incomodam não só por gerarem inquietude, movimento, espanto, mas também por terem força, potência, instaurando cortes, sobressaltos e, inclusive, explicitando conflitos sociais profundos, afinal de contas: “sons palavras são navalhas/ e eu não posso cantar como convém/ sem querer ferir ninguém”[1] , como já diziam os versos de um outro grande compositor de canções no Brasil que remetem, por sua vez, a uma das imagens poéticas mais contundentes e belas da poesia moderna brasileira, a palavra poética como metáfora da “faca só lâmina”[2]. Faca cuja potência de corte é inteira, sem a mediação do cabo de madeira (o importante é que a faca/ o seu ardor não perca/ tampouco a corrompa/ o cabo de madeira), cuja força de ação é plena (ou ainda uma faca/ que só tivesse lâmina) e, mais ainda, cuja força de presença não pode ser contida, nem destruída (nada pode contra ela/ a inteira medicina (...) nem ainda a polícia/ com seus cirurgiões/ e até nem mesmo o tempo).

Esta frase, as ideias incomodam, com espantosa precisão e clareza de feição cabralina, ao lado do conceito de exílio como definição sofisticada da sua condição no sistema prisional, sintetizam a contribuição decisiva de Dexter para o rap e para a canção popular brasileira em geral. Dotado de senso crítico e capacidade de invenção acima da média, as ideias e canções de Dexter, como as ideias dos grandes artistas, incomodam, por serem afiadas, facas só lâminas, instigantes e capazes de gerar novas ambiências de pensamento e criação artística. E assim vem acontecendo na sua carreira, que tem sido desenvolvida tendo como base principal a cultura hip hop, em especial, uma das suas variantes, o rap, desde o início da década de 90, sendo parte assim da primeira geração de artistas do rap nacional. Dexter vem trabalhando também com outras perspectivas sonoras, variantes da música negra, como a soul music, o jazz e o samba, que se vê presente com mais ênfase nos seus últimos trabalhos. Além disso, ele atua como pensador da cultura, em debates, aparições públicas, discussões e seminários, desde o início da carreira, seja em inúmeras palestras para detentos adultos e jovens, seja em canais de televisão aberta e, mais recentemente, pela Internet, estendendo seu nível de atuação para um público mais amplo.

A construção da sua obra poético-musical passa pela experiência de exílio no sistema prisional durante longos 13 anos. Foi lá que, ao lado de um companheiro de presídio, criou o grupo 509-E, sigla que remete ao número da cela aonde esteve exilado, desde 1999, ainda no Carandiru, presídio de São Paulo que foi demolido em 2002, dando lugar a um parque para uso recreativo, o parque da juventude[3]. Ainda na cadeia, Dexter começa a construir a sua carreira solo, com o álbum “Exilado sim, preso não” (2005) e o espetáculo musical “Dexter & convidados” (2009) transformado em CD e DVD. Em liberdade, apresenta um grande espetáculo musical, “A liberdade não tem preço” (2014), o seu segundo álbum solo “Flor de Lótus” (2016) e passa a atuar com mais frequência e regularidade em debates e entrevistas.  Antes do exílio, no entanto, Dexter já compunha. Criou o grupo Snake Boys/Tribunal popular no início da década de 90 , pelo qual participou da coletânea Rap Brasil No 1, com a canção “Animais irracionais”, em 1993 e o LP “Xeque...mas não mate”, do mesmo ano. O ato que o conduziu ao exílio tem relação com a canção popular: uma tentativa desesperada de conseguir dinheiro para gravar o seu primeiro álbum[4], mostrando o papel central da canção como linguagem artística e forma de pensamento na sua trajetória. Ao lado da relação profunda com a canção popular, a literatura política também foi fundamental para a sua formação, pois o seu nome artístico, Dexter, foi escolhido a partir da leitura da autobiografia de Martin Luther King. No exílio, além das canções para o grupo 509-E e as canções para o álbum solo, ele se aproxima de Malcolm-X, o conhecido líder político do movimento negro dos EUA[5]. A leitura da autobiografia de Malcolm-X causa um espanto intelectual, como um achado precioso – neste momento, canção popular, exílio no sistema prisional, condição social precária na periferia de São Paulo e atuação como pensador da cultura se misturam. Em outras palavras, ela faz com que a condição de exilado, a consciência crítica a respeito da situação social das classes populares e o papel de artista-pensador comecem a fazer sentido para o ainda jovem compositor de canções que, acertadamente, passa a se filiar, com consciência aguçada e consistente, a uma linhagem nobre de intelectuais populares e lideranças políticas notáveis que remontam ao próprio Malcolm-X, passando por Mandela, Martin Luther King e o brasileiro Jorge Ben[6].

Podemos pensar, assim, a sua obra através de três linhas de força: a canção como linguagem artística central, através do rap, uma das suas variantes mais nobres e inventivas; a passagem pelo sistema prisional – que atravessa a sua carreira; a literatura política, como fundamento intelectual. No fundo, estas três linhas se entrelaçam e formam o seu estilo como artista-pensador, dos mais arrojados e importantes do Brasil hoje. Dexter é um personagem complexo, um pensador da cultura expressivo, afiado e culto. Transita facilmente entre temática política, variações estéticas e relações afetivas, tudo girando em torno da palavra poética como matéria-prima da criação e do pensamento. É um artesão da palavra, com um estilo próprio, que se nota no modo como fala nas entrevistas e no modo como canta. O canto-falado é experienciado como o lugar de movimentação para ideias e afetos, tudo valendo por um misto de fina descrição de situações e achados poéticos notáveis, com uma dimensão mais formal[7].

Por fim, cabe dar um destaque também ao filme “Entre a luz e a sombra” (2009), em que Dexter, ainda no exílio prisional, está na sua fase de jovialidade criativa à flor da pele, com muita sagacidade, vitalidade, força intelectual e poética. Numa das suas falas mais interessantes neste filme, Dexter se filia a uma tradição de pensadores e lideranças políticas, como Martin Luther King, Malcolm X e Mandela, mostrando uma aguda consciência crítica, com capacidade de contextualizar o seu lugar no âmbito da criação e das ideias. As suas canções, o pensamento aguçado, as ideias afiadas e a presença no campo cultural brasileiro já há duas décadas o confirmam. Dexter é o Oitavo Anjo do apocalipse, que retrata na sua bela canção, o Charles Anjo 45[8], da canção de Jorge Ben, sua vida tem uma dimensão de grande poema épico que expressa a vida de muitas pessoas como ele que começam como uma impossibilidade, no risco real da aniquilação física e simbólica, e se transformam, tal qual uma fênix moderna, em potência pura e pensamento vivo, criação artística e intelectual cuja vitalidade é daqueles tesouros que a canção popular brasileira cria, com a sua sempre renovada condição de Gaia Ciência, que une a luta por uma vida melhor com o desejo de uma vida maior para todos.

 

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[1] Eu me refiro aqui à canção “Eu sou apenas um rapaz latino-americano”, de Belchior. Não é demais lembrar que o Racionais MCs, numa das suas canções mais densas e representativas, “Capítulo 4 versículo 3” evoca uma filiação a esta canção de Belchior, quando diz “Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ apoiado por mais de 50 mil manos”

[2] Trata-se do poema “Uma faca só lâmina” (1956) de João Cabral de Melo Neto

[3] O Carandiru, presídio que se localizava na zona norte de São Paulo, se transformou em ícone de criação artística e resistência política e social para um número enorme de jovens nascidos nos bairros e favelas da periferia da cidade de São Paulo. A canção “Diário de um detento”, do Racionais MCs; o livro “Carandiru”, de Dráuzio Varella; o filme, baseado no livro, “Carandiru”, de Hector Babenco e a canção “Oitavo anjo” do próprio Dexter, colocaram o Carandiru definitivamente no imaginário brasileiro

[4] O relato foi feito por ele no filme “Entre a luz e a sombra” (2009), em entrevista dada ao jornal português “Público” (2013) e consta na biografia do seu site pessoal.

[5] No livro “Autobiografia de Malcolm X”, escrito com Alex Haley, Malcolm X relata a sua vida, desde a infância, passando pela atuação no tráfico de drogas, a prisão, a conversão ao islamismo, a atuação no debate público, numa transformação de cunho épico que, infelizmente, termina de forma trágica, com o assassinato de Malcolm X, antes mesmo do lançamento do livro.

[6] Como relata em bela passagem também do filme “Entre a luz e a sombra” (2009)

[7] A canção “Oitavo Anjo”, por exemplo, é uma das realizações mais profundas disso e, a nosso ver, ocupa um lugar à parte na sua obra

[8] Dizem parte  dos conhecidos versos: “Charles, anjo 45/ protetor dos fracos e dos oprimidos/ Robin-Hood dos morros/ Rei da malandragem (...) só porque um dia/ Charles marcou bobeira/ e foi tirar sem querer/ férias numa colônia penal (...) Mas Deus é justo/ e verdadeiro (...) Mas Deus é justo e verdadeiro/E antes de acabar as férias/ o nosso Charles vai voltar/ Paz alegria geral”