Dea Trancoso - Líricas Breves Para A Construção de Uma Alma

por Alexandre Marzullo

OBS: os trechos em negrito e itálico, a seguir, são citações diretas dos versos de Dea Trancoso ao longo do disco.

 

Eu coloco para tocar o último disco de Dea Trancoso, Líricas Breves Para A Construção de Uma Alma. Já não é a primeira vez que o faço, e já não é a primeira vez que sinto um inescapável arrebatamento. Se eu tivesse de organizar este arrebatamento em palavras, creio que a palavra primeira seria da ordem do espanto, talvez assombro. E a segunda palavra, encantamento; ou melhor: fascínio. Sim, é um álbum, mas poderia ser um livro, poderia ser um pergaminho, poderia ser um filme, um encontro, e por vezes tenho a sensação de que é a própria vida - é um vida - em 28 faixas. Microcósmico universo.

Nesse sentido, o álbum - e aqui acho que faço finalmente justiça a ele (a escrita também é uma procura) - é uma verdadeira vivência, e só assim faz pleno sentido: como vivência. Então, que seja estabelecido de imediato que o título do álbum é perfeito, descritivo e didático: líricas breves, pois temporalmente curtas, para a construção de uma alma, ou seja, de uma "sensibilidade-ser" que, no caso, se refere diretamente à alma de Dea Trancoso, mysterium tremendum et fascinans, discípula dos corvos marinhos, a mulher selvagem que se tornou. Devir total, de uma profundeza tão densa que evapora, rarefeita, e com tal potência tudo alcança. Como falar de tal empreendimento, do acontecimento que é este disco? A única forma realmente honesta, a meu ver, é utilizando as próprias palavras de Dea como apoio, seus versos cintilantes, especiais, pois trata-se de um tratado poético sobre a delicadeza de uma formação superior, trans-humana (poética, sagrada, mitocósmica), ou ainda, da descoberta de uma vocação (à guisa de uma stimmung, mas como Agamben propõe). Por acaso, acontece como canção, como cânticos quase dionisíacos, ou dionisíacos de fato, repercutindo por dentro como se fossemos as estrelas de uma noite sagrada e bonita.

 

Deixe-me antes apresentar o artefato: trata-se de um disco com 28 faixas, todo produzido a partir da palavra cantada e canto acapella, em variadas formas composicionais, sobre prosa poética e poemas da própria artista. Portanto, estamos diante de um álbum que acontece pela voz, ou melhor, pelas vozes: a maioria das faixas traz cantoras convidadas, que duetam com Dea Trancoso, ou mesmo protagonizam a composição. São nomes como Ná Ozzetti, Sofia Cupertino, Titane, Monica Salmaso, Ceumar, dentre outras, além de vozes masculinas muito pontuais, que acontecem com doçura e semelhante sensibilidade nas faixas: Egberto Gismonti, Pedro Morais, Kristoff Silva, dentre outros. Vozes, ecos, fantasmagorias, presenças, processos. Parcerias: a alma se constrói solitária, mas em conversas e duetos com o mundo, consigo, com o outro.

 

As perguntas que faço a seguir são meramente migalhas em face do mistério Dea: como falar daquilo que constitui uma alma? É possível construir uma alma? E seria apenas pela brevidade da beleza na palavra, pela lírica? A cantora-compositora-poeta me responde em 28 faixas, venusiana: quando eu canto, o maravilhoso me põe no seu colo. Repare, leitor, não é qualquer alma que se constrói assim; ou melhor: só existe alma, no sentido tradicional e poético que a palavra “alma” encerra, se a mesma estiver construída assim, como mulher selvagem, como a mulher que lambe a própria solidão enquanto o mundo produz mais mundo. E é assim que tem de ser: anima mundi, princípio atrás do princípio. Eis então a mulher, sacrificada e repartida em 28 faixas e em 28 faixas inteira. Pássaro do céu, dona das delícias da canção, melroa para nós, os inconclusos!

 

Ver e suportar o que vê. Dea nos desafia: ora, quem consegue suportar a visão do monstruoso? Uma compositora, uma criadora de universos (onde habita o si-mesmo poético final) não se perfaz apenas com o que se mostra harmonioso e agradável. Não, ao contrário: sua força está justamente na capacidade de tornar harmonioso o corte na artéria, e assim justificar o mundo (que sabemos ser possivelmente horrendo) pelo gesto: tornar o cuspe glorificado. Dea nos ensina: saber é uma dor porque a dor é uma porta de acesso ao mistério. Mas novamente, seria imensa imaturidade confundir a visão do podre e a vivência da dor com a dimensão melancólica do corpo. Pois não se trata de tristeza, não se trata de sofrimento. A poeta nos ensina o oposto disso: sua vocação é a de guardiã da alegria. Eis a palavra que tudo comporta, alegria: a vida e todas as suas coisas, como rezam os livros sagrados. Nós os devemos ler solitariamente.

 

Sim, sobretudo a solidão. Aqui, preciso mais uma vez ser cauteloso, e fazer minhas honras: ser mulher selvagem só é partilhável com outra mulher selvagem. Porque a solidão da mulher selvagem cria e recria a humanidade ininterrupta. É o que nossa guia anuncia, como aviso, como privilégio ofertado a nós, seus ouvintes. A mulher selvagem é a que amou, intuiu, resistiu, criou e cuidou. A que cantou sobre os vivos, a que cantou sobre os mortos. Sim, uma velha (sempiterna juventude!) mulher selvagem que se tornou.

 

E que se tornou escritora de cartas abertas: orixás, Clarice Lispector, São Francisco, Giorgio Agamben, Nietzsche, todos nós. Os xamãs, as monjas imortais, juremas, calunga. As musas: Dona Música, ela entra pela sala, senta-se à mesa, come do meu pão. Esta talvez seja uma resenha inortodoxa, mas penso que, aqui, o que me compete é apenas simplório: repercutir a grandeza do álbum, e arrematar da única forma possível: com assombro e admiração. Põe mais sangue nas veias, incendeia o quarteirão. Você é quem acende as estrelas no céu de você. 

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Ouça Líricas Breves Para A Construção de Uma Alma, de Dea Trancoso:

https://open.spotify.com/album/08HaGF4qCjs20WORB4rSEC?si=5nggNnwiRcuUyExmcabY6Q  

https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_m-HG9S-0_VV0XuIDCKLTOyj0U_FOOXypw

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