De Nada Mais A Algo Além - Ao Vivo no Sesc Vila Mariana (2014)

Arrigo Barnabé, Luiz Tatit & Lívia Nestrovski

por Marcos Lacerda

 

“De nada mais a algo além” (o show)

Numa noite fria, friíssima em São Paulo, fui ver o show “De nada mais a algo além”, no Sesc Vila Mariana. Fui para ver as parcerias inéditas de Arrigo Barnabé com Luiz Tatit, o encontro destes dois grandes artistas da nossa música e da nossa canção.  Antes de iniciar o show, Luiz Tatit começou a mencionar o nome de todos os músicos e anunciar a chegada de uma cantora. Entre os nomes dos músicos, havia sempre este anúncio, como se fosse um alerta, como se quisesse nos mostrar algo que eu começava a sentir como uma surpresa, e não conseguia esconder uma certa ansiedade. Lembrava do grande violonista Ítalo Peron ter me dito, na noite anterior, sobre uma jovem cantora que, segundo ele, “mesmo sendo ainda jovem, já estava pronta”. Quando, por fim, acabou de mencionar o nome dos músicos, Tatit disse o nome da cantora: Lívia Nestrovski. Até então eu não sabia que o show seria dos três: Arrigo, Tatit e Lívia. Nem conhecia Lívia. Não imaginava que aquele show representaria para mim a descoberta desta jovem e brilhante artista da canção brasileira contemporânea, muito menos que esta descoberta seria crucial dali por diante.

Tendo iniciado o show, as canções de Arrigo e Tatit apareciam com a beleza e a inventividade que eu já antevia, e a presença da Lívia soava bem, com domínio técnico impecável e performance elegante. Mas a força da sua voz, a alegria da descoberta da sua persona artística, e a relevância da parceria entre Arrigo e Tatit, ainda não me apareciam com a intensidade e a exuberância que eu viria a sentir um pouco depois, quando ela começou a cantar, ao lado de Tatit e Arrigo, a canção “Babel”.  A partir daí, todo show e todas as canções começaram a fazer sentido. A canção, que abre o disco, dos versos “Ser humano é cerebral/ Cerebral, o caralho!”, é uma espécie de síntese entre a “revolução silenciosa” na estrutura formal da canção de Luiz Tatit com a tonalidade expressiva e pulsante da revolução estética na música de Arrigo Barnabé, associada à presença luminosa e avassaladora de Lívia Nestrovski em meio àquela babel de palavras, ruídos, harmonias e movimentações sutis do sentido histórico da nossa canção. A aparição da voz e da persona artística de Lívia, para mim até então inédita, com a palavra e a música de Tatit e Arrigo dizia algo que eu sentia como uma revelação grandiosa e mal conseguia conter o meu contentamento, ao lado do meu amigo João Reynaldo, sofisticado pesquisador da canção brasileira da época de ouro e dos movimentos de vanguarda das décadas de 50, 60 e 70, que assistia comigo o show.

Eu estava em São Paulo, a minha cidade, que é uma espécie de epicentro de alguns dos acontecimentos mais relevantes e potentes da criação de pensamento e da cultura no Brasil. Havia ali alguns sinais não de todo nítidos que uniam a música de Arrigo, a palavra de Tatit, a voz e a presença de Lívia, ao lado de meu amigo pesquisador culto da história da nossa canção e das movimentações de vanguarda. Era tudo muito significativo e forte. Havia muita energia criadora ali, transbordante e exuberante. E ia tão fundo, que ecoava – com uma claridade espantosa – os sentidos do que era, do que tinha sido e do que poderia ser a forma misteriosa como a canção popular vem atuando na vida da sociedade brasileira e vem desenhando o nosso futuro. Passei a encarar aquele show como um dos acontecimentos mais significativos da canção popular, e a presença de Lívia Nestrovski – junto com a alegria da descoberta – como o centro deste acontecimento.

Voltei para casa e me lembrei do deslumbramento do show, especialmente da voz de Lívia, que deixou em mim a sensação de estar diante da descoberta de uma artista cuja voz viria a ser posteriormente uma necessidade para mim, daquelas que sinto como fundamentais e centrais para a nossa canção. Passei a considerar a voz dela uma das maiores realizações da canção brasileira contemporânea e foi com muita alegria que ouvi o disco “De nada mais a algo além”, gravado ao vivo, em um dos shows com o mesmo repertório deste que vi em São Paulo.

 

“De nada mais a algo além” (o disco)

 

Embotamento da subjetividade que aponta, quem o sabe, para outras formas subjetivas; a vivência desesperada e angustiante do eterno tempo presente, o pesadelo – bem moderno – da eternização do instante na impossibilidade da saudade ( “que saudade da saudade!”); as tantas couraças psíquicas que criamos, impassíveis, diante da miríade de estímulos nervosos descontínuos da metrópole, em movimento constante e brusco, cuja vivência poderia nos levar a estados mentais inimagináveis; o para-além do humano, a indiferenciação entre o maquínico e o orgânico, entre os “mil futuros” e “mil passados” e as “desmemórias”; a melancolia do crepúsculo, o tempo do “cais absoluto”, “o dedo de Deus dizendo sim pro não”; e também o fundo de esperança, a aurora, o renascimento, a alegria do ano bom, todo dia bom, só bom; tudo isso diante da música sinuosa, densa e enigmática  de Arrigo Barnabé; das letras de Tatit, que alteram formalmente a essência e a estrutura da canção, promovendo o que eu gosto de chamar de uma “revolução silenciosa” na “linha inventiva” da canção feita no Brasil; e da voz exuberante, impecável e profundamente expressiva de Lívia Nestrovski.

São muitos os sentidos que atuam neste disco: “De nada mais a algo além” (2014). O título e a imagem da capa sintetizam de uma forma impressionante todas estas camadas de sentido, todos os significados que ele sugere e afirma ao mesmo tempo. A imagem de fundo pode ser tanto o crepúsculo – e neste sentido evocar um desfecho – quanto a aurora, evocando assim a celebração do nascimento, um começo, algo que ecoa no próprio título: De nada mais (o crepúsculo) a algo além ( a aurora), de modo que crepúsculo e aurora se enovelam, entre muitas palavras, diante de uma música que é recheada de sons, ruídos, modulações e variações súbitas de tom, que exigem uma atenção concentrada e desperta. As palavras e sons escapam, desconectam, descontrolam, desorientam, desconcertam, tudo com muito despudor e desacato!

O que o disco expressa, a meu ver, é a consolidação da vanguarda paulista, nas canções de Arrigo Barnabé e Luiz Tatit, ocupando uma centralidade para a música brasileira no seu momento de maior maturação artística,  ao lado da aparição de um nova e exuberante cantora, Lívia Nestrovski, cuja voz é uma das realizações mais profundas da canção brasileira contemporânea. Ela tem uma expressividade na performance, um domínio técnico na voz e algo além que atua num outro lugar, não se sabe se naquela região indiscernível anterior à linguagem e ao significado, que parece ultrapassar o aspecto técnico e se alçar ao domínio do belo e do sublime. Em suma, a exuberância inventiva, a densidade, complexidade e inteligência das palavras de Luiz Tatit, da música de Arrigo Barnabé e da voz de Lívia Nestrovski formam um todo indissolúvel, o que me faz pensar este disco como um disco de três autores: Tatit, Arrigo e Lívia.

Na primeira faixa, Babel (Arrigo Barnabé/ Luiz Tatit) estamos diante de um momento de suspensão do movimento ordenador do mundo (“A noite não chegou/ o tigre na floresta se intrigou/ A terra não girou/ E quem faria festa cancelou”) e do espanto diante dessa suspensão (“E a noite não chegava/ E não chegou/ Que aconteceu?(…)/ E a terra não girava/ E não girou/ Que aconteceu?”) que aponta para o crepúsculo do Humano ( “ser humano deu chabu/ foi crescendo errado”) sugerindo um momento de confusão  e desorientação profunda (“provocou quiproquó/ complicou deu um nó″), por não se saber quem seria o autor dessa possível mutação (“quem que foi? Quem que fez?”). Em um dos shows, como me contou Lívia, Arrigo trouxe um osso e o jogou ao alto, no momento em que eles cantavam “Babel”, remetendo à imagem do filme 2001: uma odisseia no espaço, em que o osso pré-histórico transformado em instrumento da política e da cultura é jogado ao alto e se transforma em uma estação espacial em meio ao cosmo, desenhando um longo processo da evolução humana, em que os processos de humanização e tecnicização andam lado a lado, frente a frente. Logo, logo, no entanto, como faz parecer a canção Babel, estarão apontando para alguma outra coisa, algum processo de mutação para além mesmo do humano, naquilo que alguns já chamam de “obsolescência do humano”, com a autonomização do meio técnico-científico-informacional, numa espécie de “eschaton”, em suma, uma mutação radical.

Mas essa suspensão pode ser tanto um fim, o crepúsculo do humano e do Ser, o “nada mais” a que alude o título do disco, quanto um recomeço, o anúncio da aparição de algo novo, no sentido de um novo tempo, o “algo além”, também do título do disco. A destruição pode ser também uma forma de emancipação, como um recado que descreve a presença do deus ausente, cuja maldição da loucura imposta por Hera tornar-se-á lucidez plena, radiante e precipitará o advento do cais absoluto no crepúsculo do Ocidente. Neste sentido, a canção descreve e é também um chamado, como se fosse uma mensagem que revela a possível catástrofe (“o jogo daquela tarde/ não teve gol/ o mito da eternidade/ ruiu, micou”) e a deseja ao mesmo tempo, intuindo nela a possibilidade de um “algo além” (“bacanal babel/ Desce do céu desce do céu!/ Carnaval cordão/ sai desse chão/ sai desse chão!”). De todo modo, estamos neste espaço impreciso, entre o drama do desfecho dramático e a aparição trágica do novo, e tudo o que há de inquietante, angustiante e desesperador neste processo.

É o que se pode perceber na canção “Tempo meu” (Arrigo Barnabé/ Luiz Tatit), em que o sujeito parece sair da ansiedade de reviver o passado ou sonhar o futuro, gozando um eterno presente que, no entanto, o faz retornar, paradoxalmente, para esta mesma ansiedade. Num primeiro momento, não se procura acompanhar o futuro (“já passaram mil futuros/ e eu nem consigo ver”), reviver o passado (“já voltaram mil passados/ e eu nem percebi”), o que o permite se livrar das angústias da saudade (“fiquei livre da saudade/Da esperança”) e gozar da paciência do espírito ( “fiquei livre da saudade/ da esperança (…) dos desejos”) e da serenidade ( “meu tom de voz serenou”).

A entrada no presente que, a princípio, pode causar alegria ( “uma vida no presente/ logo me alegrou mais”), por poder estar no “aqui agora”, vivenciando tudo no instante em que se realiza, sem saudade do passado, ou esperança no futuro, tudo ao mesmo tempo agora, traz ansiedade e desconcerto (“mas não dá tempo de saborear/ já não há o que recordar/ já não posso adiar/ tudo vem na mesma hora”), o que o leva a sentir falta de poder esperar, de ter saudade (“que saudade da saudade!), levando a uma ansiedade (“Que vontade!”) e, por fim, à exasperação no tom da voz (“meu tom de voz se elevou”), com o retorno da dor e dos desejos, em suma, da inquietude, da desorientação e da impossibilidade da calmaria.

É assim em Dora Avante (Arrigo Barnabé/Luiz Tatit), inquieta, sem lugar definido, retida e expandida. O imperativo que recomenda a calma e o sossego ( “Sossega! Sossega!”) impele ao movimento descontínuo ( “Não nega, tem que correr (…) Sem essa de se conter”)  e sem paradeiro  (“Dora agora não tem rota (…) Foi descansar/ Mas ouviu: “corre!”/ Foi se mandar/ Quando ouviu: “calma!”), como num beco sem saída, talvez remetendo à própria forma sonora dessa e de muitas canções deste disco (“Corre! Deixa tudo e vai/ Calma! Fica um pouco mais”).

Quem é Luci Leão ( Arrigo Barnabé/ Luiz Tatit)? “Diadorim durão” brincando com um punhal, “diz que a vida é tudo ou nada”, é pura pulsão afiada e solta (“e a fera está faminta”) fora de si (“carente/ardente/em transe/Luci, fora de si”). No entanto, com o tempo passa a “cair em si”, a se amansar, a habitar um regime de economia psíquica, de auto regulação: Luci dentro de si (“Luci ficou mansa/ Mas dona de si/E a fera está quieta”). Entre a pura pulsão daquilo que se quer como afirmação plena e ativa e a regulação madura de si.

Em “Frente a frente” (Arrigo Barnabé/Luiz Tatit) a voz de Lívia se parece com aquelas paisagens de sonho dos musicais americanos da primeira metade do século XX. A valsa e a voz ecoam a beleza da possibilidade da transcendência no encontro feliz entre palavra, música e voz. Os olhares se encontram numa simbiose perfeita, frente a frente, cara a cara, logo logo (“mas o seu brilhando/ cara a cara com o meu/ nem tremer/tremeu”). Aqui a elegância sóbria e o domínio técnico impecável parecem encontrar a sua forma mais perfeita. É como a resolução plena dos contrários, entre dispersão e concentração, movimento e contenção, pulsão desvairada e economia psíquica. A tensão e a aparição fantasmática de ruídos e falas, que saltam da complexa tessitura harmônico-melódica nas outras canções, se diluem diante do enlace na dança, mano a mano, o par que se transforma em Uno, a intersubjetividade que é constituída através da elisão do conflito e da “guerra fria”, do perigo e da ambiguidade.  O amor aparece aqui como redenção absoluta diante da insuficiência da existência e dos muitos dilemas que vão para além mesmo dos dramas da existência pessoal e atingem a temática política, social, ética e cultural num sentido mais amplo e, como vimos em Babel, para além mesmo do humano.

Impassível ( Luiz Tatit/ Hermelino Neder) é a canção da desesperança total (“Esperança todos têm/Eu poderia ter também/ Mas não espero coisa alguma/ De ninguém”), do embotamento da subjetividade (“sensação de não sentir/ Não chorar e não sorrir”), da impossibilidade do prazer e da dor, da alegria e da tristeza, do alento e do desalento (“Prazer é tão distante/ Bem-estar eu nem conheço/ Alegria quando muito/ É a tristeza no começo”), sem desespero, angústia, nem qualquer ilusão de plenitude e afirmação de si (“Angústia não me aperta/ Desalento nunca sinto (…)/ nunca tive uma desilusão/ desespero todos têm/ Eu poderia ter também/ Mas não me bate desespero/ por ninguém”). O mesmo podemos ver em “O dedo de Deus” (Arrigo Barnabé/ Mario Manga), um quase-rap em que o processo de mutação do humano – e toda o drama e tragicidade que o envolve – se estende para o Ser (“Será que quem criou o céu/ É quem vai destruir a terra?/ Será que quem criou a luz ( da sombra)/É quem vai destruir a terra? (com a bomba)”) numa negatividade incontornável e sem saída (“Olha o dedo na mão, olha o dedo no botão/ Olha o dedo de Deus dizendo sim pro não”).

Mas, a meu ver, é Ano Bom ( Arrigo Barnabé/ Luiz Tatit ) a canção que sintetiza bem este lugar impreciso, entre o crepúsculo e a aurora. Trata-se de uma canção sobre o período entre o natal e o fim do ano, a celebração do nascimento ( o alvorecer ) com a comemoração do desfecho ( o pôr do sol ).  O vão, o vazio que poderia conduzir a uma experiência de melancolia profunda ( “tem uma vão ali/ é um vazio em mim(…)De um lugar de aflição/ Da pior solidão”) e da experiência do nada  é preenchido por uma luz que é acesa por alguém que traz alegria (“Do alvorecer ao pôr do sol/ Tem a luz ali/ Só não tinha em mim/ mas você me deu/ logo me acendeu”), plenitude do ser e da existência através do som (“alto e bom som/ para me alegrar/ com você/ Não ser já era”) apontando para “algo além” (De nada mais a algo além). O desfecho do fim do ano (De nada mais) se transforma em promessa de felicidade e aparição do novo (a algo além).

Nesta canção, como em vários momentos do disco, um detalhe sutil traz à tona aquilo que, a meu ver, se expressa em muitas das exibições públicas de Lívia: em algum momento há algo que escapa. Nestes momentos a voz dela se estende e parece ocupar todo o espaço do som. A precisão técnica impecável deixa entrever uma luz – excelsa luz! -  que escapa, e podemos ouvir algo da respiração, da ênfase numa sílaba, uma modulação repentina, como um salto, e então somos como que de súbito tomados por uma alegria diante da beleza, dessa beleza sóbria e expressiva a um só tempo, que é da voz dela, está nela e se diz por ela.

O pôr do sol, o crepúsculo é uma preparação para o salto do alvorecer, para a aurora. A luz da manhã e da aparição afirmada do novo é a voz de Lívia Nestrovski. A voz dela ao lado da maturidade poética e musical de Arrigo e Tatit, renovadas na parceria, sintetiza a consolidação da vanguarda paulista como algo necessário e fundamental para a canção brasileira e esboça uma abertura para “algo além” na canção e na música brasileira contemporânea. Assim, podemos dizer que, se por um lado o disco evidencia a consolidação de Arrigo Barnabé e Luiz Tatit como artistas necessários e cruciais para a música moderna brasileira e, neste sentido, o crepúsculo expressa o momento em que a “vanguarda paulista” passa a ser um dos caminhos mais relevantes para a criação na canção e na música feita no Brasil, por outro lado o disco revela a aparição de Lívia Nestrovski, uma das artistas mais interessantes e inventivas da canção brasileira contemporânea, e a aurora expressa isso. Crepúsculo e aurora se encontram e apontam imbricações entre velhos e novos caminhos da música brasileira. Do alvorecer ao pôr do sol e do pôr do sol ao alvorecer.

Assim, eu diria que estas canções pertencem a Arrigo, Tatit e Lívia. Este é, a meu ver, o dado mais sugestivo deste disco bastante sugestivo. As canções se realizam na sua plenitude com as letras de Tatit, as músicas de Arrigo e a voz de Lívia. Letra, música e voz se mesclam de modo indissolúvel. É um disco contemporâneo, até mais contemporâneo do que os contemporâneos, e de todos os tempos. Bom todo dia. Bom, só bom.

Ouça De Nada Mais A Algo Além, de Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Lívia Nestrovski:

https://open.spotify.com/album/7Lyl3l8jYZORWvG2BE9XTz

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