César Lacerda e o aprendizado do afeto

por Marcos Lacerda

 

Eu demorei um pouco para entender a trama, a transa, a coisa toda do César Lacerda. Entender não, compreender. A compreensão exige a presença do afeto como parte vital da apreciação estética. E tudo em César Lacerda, a sua grande música, o modo como se expressa, a forma como fala e atua, tudo envolve afeto e e ternura. A pessoa começa a gostar das suas canções, a sabê-las o sentido no momento em que se entrega às suas modulações, às belas melodias, ao cheiro e sabor das palavras. Mas não só isso. É fundamental saber envolver as melodias e palavras com o domínio do afeto, saber sentir a muito bem destilada sensibilidade do compositor mineiro.

Veja um disco como “Tudo tudo tudo tudo” (2017), com este título em que uma palavra vai se repetindo e gerando algo como um som de tambor, uma pulsão ritmica doce e fraterna. A canção homônima é exatamente isso: doce e fraterna. Trata-se de um chamado para a calmaria, a paciência, como um afago, um carinho mesmo. É disso que se trata, César Lacerda quer nos envolver nas suas canções, como se estivesse nos dando a possibilidade de uma compreensão mais cuidadosa, paciente, delicada das coisas e do mundo. Deixando, sutilmente, uma brecha, um filete de luz, um delicadíssimo modo de olhar, um gesto ou expressão no rosto. Veja um clipe como “Felicidade é só querer” (2019), está tudo ali. Mas veja também um dos seus primeiros vídeos, “Herói” (2014), também está tudo ali. César Lacerda é muito mais o artista da atenção flutuante do que da atenção concentrada. Não adianta se demorar para tentar descobrir códigos e conceitos. É preciso ter uma postura que permita saber sentir as suas canções, que podem, de repente, nos tomar de todo, nos enlaçar, encher de uma desejo de vida os cantos da nossa casa, das ruas da cidade, da nossa alma, que antes pareciam opacos e vazios. Tudo num segundo, de relance, sempre de forma inesperada, por vezes, até mesmo imperceptível.

Assim seguem as canções deste disco como, por exemplo, “Quando alguém”, em belo dueto com Maria Gadu; “Sei lá, mil coisas”, com o despreendimento que ressoa na própria expressão; “O homem nu” ou “Percebi seus olhos em mim”, todas nos conduzindo para um tempo da delicadeza, para um saber lidar com a realidade comum a todos e apreciar o tempo de iluminação paciente e demorada de uma planta pequena, uma rua de cidade movimentada, ou mesmo do céu de um dia ensolarado.

 

O mesmo ar de ternura, afeto e docilidade. O mesmo desejo de reconciliação, o mesmo anseio por fazer com que todos possam se compreender melhor, a mesma tentativa de falar a partir do jogo de afetos. Ele é também um músico requintado, melodista de primeira, capaz de navegar por gêneros da canção popular com muita naturalidade. Algo que se pode ver no caminho que leva da regravação de “Me adora”, da Pitty, uma canção de amor no estilo do rock suavizado da artista baiana, que ganha muito em beleza com o arranjo requintado de Lacerda; ao samba “O marron da sua cor”. Samba mesmo, samba bom, daqueles que parecem ser um exercício muito bem sucedido de depuração formal deste gênero que é realmente o gênero musical de todos os brasileiros e que tão bem consegue condensar o “Tudo tudo tudo tudo” do título deste disco.

 

Mas antes do “Tudo tudo tudo tudo”, César Lacerda lançou dois outros discos autorais: “Porquê da voz” (2013) e, posteriormente, “Paralelos & infinitos” (2015), além de uma surpreendente parceria com o Rômulo Fróes, o bom compositor paulistano, “O meu nome é qualquer um” (2016). Cada um destes discos tem sua própria história claro, seu próprio sentido. E todos em muitos aspectos trazem no seu centro a estilística própria do César Lacerda, que é sempre profundamente afetiva e culta.

 

Na época de “Porquê da voz”, eu cheguei a falar com ele pessoalmente, em alguns bons momentos que vivi no Rio. Sempre foi muito proveitoso, embora tenham sido poucos. Ouvi com muita atenção este disco. A canção que dá título é uma das mais interessantes de todo o seu repertório e vem como afirmação do seu lugar que é o lugar da voz que quer cantar o Brasil. “Herói”, eu já mencionei mais acima, por conta do clipe musical, e tem o mesmo tema: o lugar do Brasil na sua poética musical.

 

E é este lugar que emerge nitidamente no seu último disco, “Nações, homens ou leões” (2021) que é, para mim, o melhor lançamento deste ano e um disco dos mais interessantes que já ouvi de todos os anos. Existe um clima, uma ambiência, sonora e poética, atravessando todo o álbum que é tão diferente de tudo que tem aparecido na canção brasileira contemporânea. Tem uma coisa de música eletrônica com força pop da década de 80, com poesia sofisticada e, a seu modo, sabendo ser leve, sabendo ter uma leveza que vem nos fazendo falta. Mas isso sem perder a dimensão crítica.

 

Uma canção como “Antropoceno”, por exemplo, é sobre um dos temas mais presentes no debate intelectual contemporâneo. Teriam os experimentos tecnocientíficos chegado ao nível de interferir de forma definitiva na biosfera, com consequências imprevistas e, talvez, até mesmo tétricas? A canção é feita de uma só estrofe. Nela estão ali a biosfera, a ecologia, e a nossa vida cotidiana. Entrelaçadas no mesmo problema. Ela faz parte do que César Lacerda chama de “Ato II”, ao lado de outras, como “Quem vai sonhar o sonho”, com letra alongada, em formato de canto-falado; “O que eu não fiz”, mais uma parceria com Rômulo Fróes; e a extraordinária “Mudar a vida”, com Ronaldo Bastos, seu novo parceiro de composições. A sensação clara é que existe uma simbiose entre os dois, as letras de Ronaldo cabem perfeitamente no modo de ser das melodias e do canto de César Lacerda.

Mudar a vida é uma canção que, assim como todo este disco, tem como base arranjos de música eletrônica que César Lacerda fez a partir de um aplicativo de celular. Só vim a saber disso por ter me dito o Alexandre Marzullo e também por acompanhar o seu podcast com o sempre admirável crítico Leonardo Lichote. A canção expressa desejo de mudança, radicalidade, capacidade de se colocar à disposição do mundo, esperança, ímpeto para ser. “Mergulhar no abismo e sair vivo/ com a faca da ternura entre os dentes”. É o melhor da poética de Ronaldo Bastos aí, poeta da canção que escreve como poucos e cuja obra nós, da Uma Canção, tanto gostamos e acompanhamos.

 

Com ele também é a canção que abre o disco, e que compõe o “Ato I”: “O sol que tudo sente”. É uma canção de festa, celebração da vida, capacidade de amar as coisas, unir pessoas, viajar mundo, ser feliz, saber ser livre, não abrir mão da nossa liberdade. É, novamente, Ronaldo Bastos nos seus melhores dias. Lembra “Nuvem cigana”, “Amor de índio”, “Lumiar” e tantas mais da sua farta e exuberante obra poética-musical. Aqui, neste disco, na dicção sonora, melódica e vocal de César Lacerda, não poderia haver melhor canção de abertura para este disco tão luminoso e forte.

 

Estamos tão mal, o país conturbado, o momento de maior perigo de um país dado a ficar à beira do abismo, e vem o César Lacerda com tanta beleza, com estes jogos luminosos poéticos e melódicos, com toda a sua capacidade crítica afiada de doçura e afeto, de ternura e senso de grandeza. César Lacerda soube neste disco acertar o tom e nos conduzir, ainda que deprimidos pela situação do país e algo desesperançados, por mares revoltos, mas que abrem flancos e nos permitem ver luminosidades plenas, nos permitem ver a beleza que está aí e que tanto temos sentido falta.

 

Eu queria ir até o Ato III, “Leões”, mas corro o risco de me estender demais. Tem ficado na minha cabeça, em noites, dias, tarde, sempre, sempre, a canção “Parque das nações”, parceria com Luca Argel, o excelente compositor brasileiro radicado em Portugal. A gravação conta ainda com a participação da cantora angolana Aline Frazão. De repente, dois brasileiros, um residente de Lisboa, outro com presença provisória, encontra uma angolana num canto da cidade lisboeta que tem este nome tão sugestivo “Parque das Nações” e que é tão diferente de outros cantos desta cidade tão interessante. Ali, eles falam na perda do passaporte, dos papeis, do sotaque, da voz, e do encontro consigo mesmo que é também uma forma de encontro com o mundo. São estrangeiros em toda parte, sabem ser aquilo que se é. Perderam os referenciais de lugar, território, canto, província, e de repente se sabem como atravessados por mares, paisagens, amores, afetos, caminhos em aberto, e tantas distâncias acumuladas. É uma canção que me deixou pessoamente bastante emocionado. Veio-me de súbito o período em que morei em Lisboa e, lembro-me bem, ter sentido uma sensação enigmática quando me aproximei do terreiro do paço e vi, pela primeira vez, à minha frente, o Tejo. Depois, como todo imigrante, me perdi em papeis, no passaporte, mas sempre deixei-me levar por cada traço arquitetônico, pelas largas avenidas, ruas estreitas e vielas; pelo futuro espiritual da língua portuguesa atravessando maresias, paralelepípedos, túneis, olhares, jardins suspensos, comboios, lumes, farois, palavras, cafés, bares e tantas coisas mais. Não era bem um exilado, me sentia estranhamente familiar, mas ao mesmo tempo tinha também momentos de estrangeiridade. A cidade era minha e Outra diferente de mim a um só tempo, simultaneamente. Por isso que o refrão de “Parque das nações” tanto me comoveu. Ele, e esta canção toda, revelam o sentido enigmático do encontro de tantos modos de ser da língua portuguesa e da forma como nós, brasileiros, sabemos como é possível habitar uma língua tão bela que pode dizer o nome das coisas, dos rios, das pessoas, povos, das cidades, dos escritores e escritoras, da literatura, da canção popular, e do afeto culto, docemente afiado das canções de César Lacerda.

Ouça Tudo Tudo Tudo Tudo (2017) de César Lacerda:

https://open.spotify.com/album/3f6fq1aRtP9GpoQgzq5BQj

Ouça Nações, Homens ou Leões (2021) de César Lacerda:

https://open.spotify.com/album/5aAc1cPDwE6BL2bCQr4qI9

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