Cauby Peixoto: Ria de mim, sem me decifrar

por Alexandre Marzullo

1ª parte

Noite de Gala é o nome do espetáculo, no ano de 1998. A música é “Sangrando”, composição de Gonzaguinha. No palco, está o cantor Agnaldo Rayol, liderando a orquestra; o teatro é amplo, está lotado. Rayol está impecável; os cabelos imaculados, veste um paletó branco, laminado e esplendoroso. Ao final da primeira estrofe, Rayol se vira para uma das alas do palco, dando azo à uma outra voz que surge dali, rouca mas encorpada, continuando a canção com volúpia. É Agnaldo Timóteo, fantástico em um paletó azul claríssimo, excêntrico e soberano. A plateia o ovaciona, de pé. Timóteo caminha enquanto canta, sorrindo para Rayol, e os dois se juntam, banhados pelas luzes da ribalta. A canção avança, mas ainda não é tudo: porque ao final da segunda estrofe, Rayol e Timóteo dão nova deixa, virando-se, desta vez, à esquerda do palco – há um terceiro oculto, que entra como um clarão. Extrapola, redimensiona, retira o ar ao redor. É de Cauby Peixoto que eu falo.

Alto, imponente, Cauby entra com velocidade, parando para olhar rapidamente a plateia; o sorriso inenarrável, os cabelos bastos, um senso de majestade sem igual: veste um longo e exuberante casaco de peles, cobrindo o que parece ser um terno violeta, com bordados dourados. É simplesmente inacreditável, foge a qualquer mensuração de espetáculo. Na verdade, me corrijo: é o próprio espetáculo. Agnaldo Rayol não escondeu o espanto com a entrada carismática de Cauby. Agnaldo Timóteo vibrou, entusiasmado. O teatro, claro, veio abaixo. 

 

2ª parte

Este estranho verniz de Versalhes em Cauby, matizado com o cheiro das cidades e seus vapores noturnos, brilhos, cores cintilantes, perucas, maquiagem pesada e barítonos... sua figura faz lembrar, certamente, a pompa de um Liberace, outro anjo andrógino, gentil e milagrosamente talentoso. A partir da década de 1980 tal dignidade quase absolutista, corajosamente no limite do kitsch (um rei-sol no palco) se torna uma característica cada vez mais acentuada nas apresentações de Cauby. E com fôlego e razão: 1980 é o ano da gravação do imenso sucesso "Bastidores", composição de Chico Buarque, bem como da homenagem "Cauby, Cauby", dedicada ao cantor por Caetano Veloso. É uma tripla consagração (reconhecimento dos pares, da crítica e do público), e que talvez, de algum modo, tenha sinalizado ou permitido o início da indumentária glamourosa de Cauby, extensão tão genial de sua presença de espírito. E esta não se dissocia da experiência de sua voz. Eis aí o argumento central de meu ensaio: desde o começo de sua carreira, a elegância-para-além-da-elegância da Cauby Peixoto já habitava em seu inconsútil canto. Pois conquanto o timbre, o fraseado e a própria maneira do artista de se portar dentro de uma determinada canção foram, de fato, se transformando ao longo das décadas, sua voz sempre foi - sem exagero algum - impecável. Em outras palavras, Cauby Peixoto habitou, desde o primeiro momento, na própria voz. E foi em sua voz que o cantor se refugiou nos anos mais oblíquos de sua trajetória.

Gravando seus primeiros discos dentro do espectro dos grandes crooners dos anos 1940 e 1950, cantores de voz tipicamente empostada, o jovem Cauby logo conheceu um primeiro sucesso com a canção “Blue Gardenia”, gravada em 1955; a esta, seguiu-se uma meteórica consagração com o compacto “Conceição / Bibape do Ceará” (1956) – evidentemente, por causa da primeira música. O artista tinha 24 anos à ocasião, e já uma técnica perfeita. “Conceição” se tornou sua própria “canção-assinatura”, mas quem se interessar em ouvir “Bibape do Ceará”, se deparará com uma fascinante, insólita interpretação. Trata-se de um baião inspirado nos sucessos de Gonzagão, e onde, na melhor das hipóteses, temos um belo exemplo da plasticidade musical de Cauby Peixoto – a mesma qualidade que lhe permitiu inaugurar a onda rock’n roll no Brasil no ano seguinte, com “Rock’n Roll em Copacabana”. E que foi outro sucesso, embora mais momentâneo. “Rock’n Roll em Copacabana” foi muito mais um exercício de estilo do que uma profissão de fé. Basta ouvir o lado B daquele disco: o standard “Amor Verdadeiro” (True Love). A seriedade, o timbre grave e fechado, além dos glissandos unindo as palavras, como quem profere um detido e concentrado discurso de amor, não deixam dúvidas: ali estava o coração do cantor. Também é neste momento, entre os anos 1955-1957, que se criam as maravilhosas narrativas do desvario de suas fãs, rasgando suas roupas por onde quer que o cantor aparecesse.

 

E é, também, quando surge a inevitável e grande curiosidade pelo dono da poderosa voz. Quem é este homem, este anjo do inefável, Cauby Peixoto?

  

 

3ª parte

Quase junto ao rock’n roll "mais semblante que essência" de Cauby, floresceu a Bossa Nova, dominando a sensibilidade estética da juventude nos centros urbanos brasileiros. Presumo que, in loco, o cantor pouco a viu, pois se não me engano estava em temporada prolongada nos Estados Unidos (atuando e cantando com o nome de Ron Coby). Seja como for, a partir da Bossa Nova, uma espécie de mudança "topográfica" acontece no plano da canção brasileira, desenvolvendo-a de formas imprevisíveis ao longo da década seguinte.

Seria, sobremodo, uma década política, econômica e culturalmente turbulenta.

Para ficarmos unicamente no plano que nos interessa diretamente - a canção - temos, em rápida sequência e após o primeiro impacto da Bossa Nova, o surgimento de um pujante repertório de canções de protesto, e depois de afrosambas, de sambalanços e sambas-jazz; essas tendências todas conflitariam entre si, apenas para empalidecerem diante da Jovem Guarda e das avassaladoras ondas de rock britânico e pop estadunidense. No mesmo espaço temporal, o Brasil ainda testemunharia, também, a vitória internacional da Bossa Nova em 1964, com Garota de Ipanema no topo das paradas de sucesso do mundo inteiro, acontecimento que não pode ser ignorado em absoluto, especialmente considerando-se o contexto brasileiro da época. Em seguida, inicia-se a Era dos Festivais, estranha prima-irmã da Jovem Guarda, e por fim, acontece a Tropicália, com seu projeto de ruptura e síntese - nova contradição sem conflitos, após João Gilberto - com tudo o que se ouvira até então em matéria de canção no Brasil. Neste estado de coisas, Cauby Peixoto, conquanto ainda fosse um artista de indisputável fama, perdera para valer o favor das juventudes.

E sua discografia do período é testemunha, de certo modo. Na maior parte, suas gravações do período estão estranhamente alheias às inovações composicionais da época, com algumas exceções. À guisa de exemplo, veja-se sua versão de “Garota de Ipanema”, de 1965: instrumentalmente, está mais próxima do clima das Big Bands do que da Bossa Nova; vocalmente, já é o Cauby das noites úmidas, na virtude das escuras boites cariocas, improvisando as entradas, provocando a banda, desenhando as melodias com pequenas inflexões na voz. Como resultado, grava uma versão formidável, mas pouquíssimo fiel, e na realidade quase uma apostasia à estética bossanovista. Compreende-se, então, que não esteja no rol das mais populares.

Claro que esse tratamento quase iconoclasta de "Garota de Ipanema" não foi um cálculo de mercado, ou mesmo um gesto de vanguarda. É o enigmático em Cauby Peixoto; suponho que, provavelmente, ele sentia certa legitimidade ao lidar com o cancioneiro de Tom Jobim. Afinal, Cauby esteve na dianteira das primeiras gravações da obra de Jobim, ainda em um momento pré-Bossa Nova, registando em 1958 uma singela parceria do compositor com Newton Mendonça, a canção "Foi a Noite". E aqui, sinto que é preciso dimensionar adequadamente isto: uma gravação de Cauby, na época, era certamente algo a se comemorar. Imagine poder dizer que um dos maiores astros à época - na verdade, o maior nome do momento - gravou uma canção sua; Jobim saltaria para o mundo logo depois, mas esse gesto de abertura que Cauby fez, certamente, deve ter sido especial ao compositor. Não foi à toa que, muitos anos depois, em 1980, Tom Jobim presenteou Cauby com a canção "Oficina", gravada pelo cantor no disco"Cauby! Cauby!". 

4ª parte

Mas apesar das dificuldades do volátil show business brasileiro, Cauby Peixoto jamais parou. Continuou lançando discos e excursionando pelo País e mundo afora. E mesmo quando já não tinha mais os ternos rasgados, mesmo quando começou a ser considerado uma figura decadente, ou dèmodè, mesmo quando seu nome ganhou com mais força o motivo do risível,em um país dominado pela sensibilidade dos coturnos – e aqui, ressalte-se, como se esses homens de farda e sobrenome sobre o peito fossem homens de alguma coisa –, em suma: mesmo quando tudo parecia estar dito, encerrado e consumado, Cauby Peixoto continuou a cantar.

Para mim, há algo de incompreensível nisto: que ele cantasse tanto, e cantasse tão bem, tantas vezes, com tamanha e impecável elegância na voz. A própria majestade barítono. Elegante e sensual, exagerado porque precisava dizer mais do que eu e você juntos. Exagerado? Não: a justa medida de Cauby era a glória da ribalta. Ali, o equilíbrio era vibrado em suas entoações. Repito: há algo de incompreensível nisto: que um homem possa pertencer, de tal maneira, ao próprio canto.

Ao mesmo tempo, a certa invisibilidade daqueles anos difíceis lhe proporciona experiências mais arrojadas de repertório. Em meados da década de 1970, Cauby começa a esboçar um retorno à relevância, e especialmente à altura do lançamento do disco "Cauby", de 1976, elogiadíssimo. A apreciação da crítica e público confere novo fôlego ao artista; finalmente, uma participação luxuosa no estupendo álbum de Elis Regina, "Elis, Essa Mulher", de 1979, na faixa "Bolero de Satã", cristaliza a revitalização do artista. O dueto entre Cauby e Elis é perfeito; a canção de Guinga e Paulo César Pinheiro ganha os contornos do quase-cabaré, sem perder o dourado, sem desprezar a fumaça.

O cenário estava pronto para o grande lance: "Cauby, Cauby!" de 1980. A faixa título, uma genial homenagem de Caetano Veloso, se tornou décadas depois a deixa para o título de um musical sobre o cantor. Tom Jobim, como disse mais acima, contribuiu com a bonita "Oficina"; há ainda faixas bastante interessantes, como "Dona Culpa", de Jorge Ben, "Brigas de Amor", da dupla Erasmo e Roberto Carlos, e regravações de Silvio Caldas & Orestes Barbosa ("Chão de Estrelas") e Paulo Vanzolini ("Ronda"). Claro, o destaque indiscutível é um só: "Bastidores", célebre composição de Chico Buarque, que se torna a canção responsável pelo segundo clímax da carreira de Cauby, indelevelmente identifica à sua figura, e mais personalizável do que "Conceição" jamais o fora durante as primeiras três décadas de sua carreira.

Jamais cantei tão lindo assim,

e os homens lá pedindo bis,

bêbados e febris

a se rasgar por mim.

Chorei, chorei,

até ficar com dó de mim.

5ª parte

Na versão original de "Bastidores", lançada em disco, os vocais de Cauby se encerram ao final dos versos; há, a seguir, uma pequena coda instrumental, e a canção termina. Há, contudo, uma segunda versão de "Bastidores". Mais obscura (não consegui localizar sua origem), cujos arranjos me sugerem ter sido realizada em algum momento da década de 1990. Está presente na coletânea "Cauby Peixoto - 20 Super Sucessos", e possui um detalhe a mais na interpretação do cantor: há um choro incontido ao final da faixa, suspirante, enquanto um coro vocaliza ao fundo. É Cauby quem chora.

Não sei dizer qual a medida desse surpreendente choro, especialmente considerando a reserva de intimidade tão característica de Cauby. Certamente, os suspiros condizem com a letra e com a visceralidade de sua interpretação; faz sentido, sobremodo, pela justaposição que "Bastidores" criou sobre a persona do artista. A letra, afinal, descreve um resumo biográfico de uma vida secreta e trágica, repousada unicamente no brilho do próprio canto. Em uma entrevista concedida em 2016, meses antes de falecer, Cauby afirmou que, no palco, ele crescia; fora do palco, começava a entristecer-se. Eu me pergunto, então, se teria sido o Cauby dos bastidores, (ausente do palco), esse que chora em "Bastidores".

Mas continuo a questionar: e se por acaso não fosse o tímido rapaz fora do palco, mas antes o consumado profissional quem chora na faixa? Suspirando por pura vocação teatral, aperfeiçoando a proposta estética da canção e interpretando o papel que tão bem soube vestir?

 

Ou então... porquê não considerar uma terceira hipótese, ainda: e se a coisa toda for um caso e outro, ao mesmo tempo? Cauby, Cauby.

Esboço uma resposta a partir de seu próprio repertório. A partir do registro de sua voz. Na sequência do disco de 1980, e de seu enorme sucesso, Cauby lançou um pequeno EP no começo de 1982, antecipando o álbum "Estrelas Solitárias", lançado posteriormente naquele mesmo ano. Deste EP, de quatro faixas ( "Ria de Mim" / "Então Tá" / "Tua Presença" / "Tortura"), três foram inclusas em "Estrelas Solitárias"; a exceção foi a canção "Ria de Mim", composição de Guilherme Arantes. Provavelmente, deixada de fora por ter concorrido, sob interpretação de Cauby, no Festival MPB Shell de 1982. Defendendo "Ria de Mim", Cauby ganhou o prêmio de melhor intérprete do Festival.

"Ria de Mim" tem a assinatura das melhores baladas de Guilherme Arantes: os versos cíclicos, a construção impecável, o andamento e o arranjo liderados pelo piano. A letra reverbera "Bastidores" em uma dimensão menos densa, mas ainda assim potencialmente reveladora; a título de comparação, se em "Bastidores" Cauby se viu personalíssimo, em "Ria de Mim", ao que parece, o cantor adentra uma categoria mais indistinta, universal. Sua voz passa a representar emoções que não precisam serem ditas, e todas elas subsumem-se na vitória da esperança e da beleza. Eis aí, excêntrico, o mistério insondável do canto, sua extravagância indomável, os brilhos, o artista indiscutível, a oferta da beleza - de "bastidores" a "ria de mim"; em minúsculas mesmo, porque não se tratam das canções, mas do próprio sujeito. 

Cauby Peixoto merecia mais vida e mais em vida: nele, cantou um Brasil maravilhoso, noturno, cheio de segredos, visões, solidões e sonhos. É redundante dizer que é um Brasil que precisa ser abraçado. Primeiro porque é óbvio, e segundo, porque é impossível - é um Brasil que escapa, e sempre escapará. É, afinal, o Brasil que sobrevive, verdadeiro impávido colosso. O Brasil que assombra os planaltos. E que não deseja decifração, mas tão somente escuta. E veja que belo, caro leitor, mon semblable, mon frère: ainda podemos ouvi-lo.

ria de mim, quando eu sonhar

quando eu voar mais alto

quando eu delirar, toda vez

que eu buscar o brilho da esperança

aquela estrela mágica da infância

que faz a gente se apaixonar

ria de mim, quando eu errar

quando eu trilhar a minha estrada torta

sem me encontrar, toda vez

que eu buscar o brilho da esperança

aquela estrela mágica da infância

que faz a gente se apaixonar

ria de mim, se eu vacilar

gaste o seu riso assim, à toa

sem me decifrar, sem se tocar

que um dia o mesmo vacilo

vem te buscar

então, ria sempre

até esse dia chegar

Ria de Mim (1982): https://www.youtube.com/watch?v=wn5RXAsZ6pg

Cauby, Cauby! (1980): https://www.youtube.com/watch?v=LBRBEnrr9GQ