Eduardo Gudin

e o mundo inteiro de uma só cidade

 

por Marcos Lacerda

 

Era uma noite que prometia muito, como eram as noites do Rio, nas sextas-feiras, quando íamos à Lapa, o conhecido bairro boêmio da cidade. Eu ainda era bastante jovem, então tinha pique para ficar horas e horas bebendo, cantando e reconhecendo amigos. Um deles apareceu já na boca da noite, madrugada adentro, escuridão avançando. Se sentou na mesa e começou a batucar sambas antigos. Eram vários, da grande geração da época de ouro. Bastava puxar um verso, ou um esboço do que seria a introdução da canção, e lá ficávamos cantando com alegria, naquele esforço vão para impedir a chegada da manhã, ou estender um pouco mais a noite.

Num determinado momento, ele puxou um samba que não conhecia bem: “Velho Ateu”. E foi cantando com toda pompa. Senti um pouco de inveja. Tentei fingir que sabia os versos, especialmente do refrão. Mas era perceptível o meu desconhecimento. Passamos para outras canções. A manhã acabou por chegar, infelizmente, e lá fomos nós cambaleantes para as nossas casas. Ele, que apelidamos depois de “o saideira”, porque não se cansava de pedir a saideira, foi se embora. Eu morava, à época, na Glória, bairro muito próximo da Lapa, e segui sozinho. Invariavelmente ia lembrando do refrão de “Velho Ateu” e ia tentando cantar, mas me esquecia de algumas palavras. E aquilo só me fazia ficar ainda mais desapontado!

Quão surpreso não fiquei ao saber que aquela canção era de Eduardo Gudin, um paulistano! Ora, eu sou paulistano, sempre me gabava de conhecer os sambas paulistanos e, com isso, desafiar meus amigos cariocas. Qual o quê! Nessa, me danei. Eu que tenho uma veneração por canções dele como “Verde”, que sempre me arrepia ao ouvir na voz de Leila Pinheiro; "Longe de Casa", que tanto bem me fez ao ouvir nas tardes melancólicas do subúrbio carioca, quando morava em Abolição, me trazendo o sonho de um dia voltar a São Paulo; e "Paulista", que eu considero um hino sobre a cidade, sobre nós, os paulistanos, sobre o amor por esta cidade que é de todos os brasileiros e, como dizia um amigo, professor aposentado, que é também a cidade de todos os povos do mundo.

"Verde" e "Paulista" foram compostas em parceria com um dos seus parceiros mais constantes: J.C. Costa Netto. "Longe de Casa", com o mestre maior Paulo Vanzolinni. Mas o rol de parceiros é vasto, constando nomes como Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Roberto Riberti, Hermínio Bello de Carvalho, Cacaso, Guinga, Aldir Blanc, Sérgio Natureza, Arrigo Barnabé e, muito mais presente, Paulo César Pinheiro, que participou com parcerias decisivas em álbuns como “Eduardo Gudin” (1973) “O importante é que nossa emoção sobreviva”, Volumes 1 (1974) e 2 (1976), na década de 70. Além, é claro, de “Mãos vazias” (1975), cuja maior parte das canções é também em parceria com o mesmo Paulo César Pinheiro.

É impossível não sentir alguma emoção, que mistura melancolia com promessa de felicidade, ao ouvir uma canção como “Veneno”, parceria sua com Paulo César Pinheiro, que abre o álbum “O importante é que nossa emoção sobreviva”, na voz de Márcia. Lembro com muito gosto que era uma das canções mais presentes nas minhas noites cariocas. Mas uma mesma emoção, não menos melancólica e não menos aberta a uma promessa de felicidade, se pode sentir em “Cidade oculta”, sua parceria com Arrigo Barnabé e Roberto Riberti. E quantos mundos não há, quantas formas de se fazer canção possíveis entre a dicção de Paulo César Pinheiro e a experimentação vigorosa de Arrigo Barnabé?

 

Ouvi “Cidade Oculta” pela primeira vez numa gravação de um show cantada por Lívia Nestróvski, quando procurava saber suas performances musicais, após ter ficado espantado com uma apresentação que tinha visto dela com Tatit e o mesmo Arrigo Barnabé. A gravação original é de Vânia Bastos, outro nome gigante da canção popular brasileira, a partir de São Paulo. E, mais, dá nome ao disco de Arrigo Barnabé: Cidade Oculta (1986), que é a trilha sonora do filme homônimo.

O andróide que aparece de súbito, em meio à escuridão futurista da rua e, desenhando um holograma no coração do narrador solitário, traz de volta à poesia. O velho ateu que aparece na madrugada cantando uma seresta luminosa, que se transforma em samba e clama por justiça social.  O solitário paulistano caminhando triste por não poder voltar logo à cidade. A porta-bandeira que se recusa a seguir com sua escola e interrompe o tempo das coisas. As manhãs frias de abril na avenida Paulista que lembram amores antigos.

Uma coisa que posso dizer, sem temer estar errado: os sentidos da canção de Eduardo Gudin nunca terminam, nunca se esgotam. É como se fossem uma força vibrante da nossa vida que vai encontrando os caminhos mais inesperados e imprevistos para se expressar. Mas claro que o samba é o maioral, está presente em cada passo, cada traço, cada gesto, cada desenho melódico-harmônico. Mas está presente como forma possível de fazer sair essa força vibrante que também ecoa em boleros, valsas, marchas, marcha-rancho, samba-canção, choros e tantas outras possibilidade. Sua dicção de cancionista é vasta, seu modo de criar maravilhas através do violão também o é.

Vale aqui pensar em uma canção como “Rosa dos Tempos” que abre o belo “Eduardo Gudin e Notícias dum Brasil”, grupo vocal que contava com vozes como as de Monica Salmaso e Renato Braz. Esta canção serve como síntese de sua obra até então e como abertura para os próximos passos. O disco, lembrando, é de 1995. Nele, Gudin se filia à grande tradição moderna da canção brasileira. E é bom escrever assim, “tradição moderna”. Poderia escrever “linhagem”, mas aproximar tradição de modernidade fica melhor.

 

Um álbum surpreendente é “Ensaio do Dia” (1984), em que aparecem ali parceiros como Aldir Blanc, Fernando Brant, do primeiro time da canção moderna brasileira da sua geração, passando ainda com figuras imensas como Adoniran Barbosa e Elton Medeiros, conduzindo para mais uma das suas parcerias com Arrigo Barnabé: Lenda.

Fiz um movimento que envolve décadas e mostra a amplitude da sua produção em canção popular. Décadas de 70, 80 e 90. “E Lá Se Vão Meus Anéis” é de 1971, canção que o fez ganhar o festival universitário da TV Tupi. Eram os tempos dos festivais. “Ainda Mais”, a belíssima parceria com Paulinho da Viola é de 2006 e parece ser de todo o tempo, poderia bem caber nestas outras décadas. Entre 1971, numa canção para um festival, e em 2006, num samba de fase mais madura e consolidada, temos a mesma presença autoral e estilística de Eduardo Gudin. Conseguimos notar a sua forma de fazer canção, ele que também é arranjador, instrumentista e produtor musical.

Fogo Calmo das Velas (1981) é um achado, do início ao fim. Tanto pela amplitude dos parceiros, com Sérgio Natureza, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Cacaso e Ruy Guerra; temas instrumentais como “Pensamento” e canções como “Por Eu Ser Como Sou” e mais uma impressionante regravação de temas musicais que vão na alma da canção e da música brasileira, como “Lamento do Morro”, do Garoto. O mesmo aparece, por exemplo, em Ensaio do Dia (1984) com o “Choro”, do Vadico.

Mas como estou aqui me dando ao luxo de dar volteios no tempo, de trazer lembranças e memórias pessoais, de fazê-las confundir com a própria apreensão desta obra tão magnífica e vivíssima, vou recuar mais uma vez no tempo. Depois dos três primeiros discos na década de 70, cuja principal parceira era mesmo o Paulo César Pinheiro, em 1978 com Coração Marginal, o seu álbum imediatamente posterior, a maior parte das parcerias é com Roberto Riberti, inclusive “Velho Ateu”, a canção que me fez sair inculcado após a noite boêmia na lapa carioca. Neste disco há também duas parcerias com Paulo Vanzolini: "Longe de Casa" e "Mente". Além de uma parceria com Hermínio Bello de Carvalho, que dá título ao disco, Coração Marginal.

Não sei se o disse de todo. Mas quando acordei, após a bebedeira e os versos de "Velho Ateu", fui reouvir “Paulista” e “Verde”. "Paulista" me traz de volta São Paulo, os faróis que se abrem, o céu estrelado, as manhãs frias de abril, o coração até dói só de lembrar; "Verde" me faz sonhar com a força de afirmação do Brasil. A canção é como um samba exaltação que prenuncia um momento de boa ventura e de esperança

Quis este sonhador

Aprendiz de tanto suor

Ser feliz num gesto de amor

Meu país acendeu a cor

 

E é sempre muito comovente quando a canção vai das verdes matas do país, dos olhos que veem o que se anuncia como o bom tempo e que, por fim, vincula o sentido coletivo com o pessoal: “mudanças nos ventos do meu coração”.

Muitos anos depois, em 2019, conheci Eduardo Gudin. Foram duas oportunidades, ambas no Bar do Alemão. Em ambas fiquei muito inibido diante daquela figura tão central para a canção brasileira. O olhei de longe, fiquei reparando e pedi a uma amiga, a doce e generosa Lívia Manini, que me apresentasse a ele. Ela assim o fez. Pedi uma foto e fiquei ali esperando um número musical, que veio como canja. Eu estava em São Paulo, ouvindo Eduardo Gudin, numa noite fria, naquele bar tão representativo. Aquilo tudo me deu um nó na cabeça e me deixou especialmente feliz. Felicidade que só aumentou quando, ainda em 2019, antes da pandemia, assisti um show inteiro dele, com a companhia da pianista e cantora Naila Gallota. O repertório era vasto, com canções da Bossa Nova, e canções do próprio repertório de Gudin. Uma noite luminosa. É difícil hospedar no coração sentimentos assim!

Tinha tido a alegria de ver um show inteiro, conversar com ele, ainda bem inibido, a despeito da generosidade calma e profundamente sábia de Eduardo Gudin que, vendo meu pouco jeito, sempre fazia questão de retirar qualquer distanciamento que pudesse haver. Mas era impossível para mim. Continuava sendo o fã tímido e espalhafatoso.

A noite caiu, o show tinha acabado. Fui então para casa, seguindo as ruas da avenida antártica até o metrô Barra Funda. A escuridão vinha alta e cada vez mais espessa. Em cada canto da cidade, àquela altura da madrugada, havia um misto de euforia e profundo desencanto, tudo envolto em luzes que, no entanto, mantinham o meu coração, marginal ou não, ainda bem aceso. Então comecei a cantarolar “Velho Ateu”, dessa vez sem esquecer palavras e o andamento do ritmo. Sabia dizê-la verso a verso, do início ao fim e me ria ao lembrar das noites cariocas e do meu amigo com quem batucava sambas nas mesas de bar na Lapa, querendo também em vão estender a noite.

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Discografia sugerida (agradecimentos ao site Discos do Brasil)

Eduardo Gudin (1973)

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/eduardo-gudin-1973

Eduardo Gudin (1975)

https://www.youtube.com/watch?v=AKS_ToM1dLs&list=FLnOw9cMXJdZpNRp4Rr3arBg&index=19

 

O Importante É Que Nossa Emoção Sobreviva (completo, 1974/1976)

https://www.youtube.com/watch?v=kE-RSEKRBw0

Coração Marginal (1978)

https://www.youtube.com/watch?v=MIOryHwBc4s&list=FLnOw9cMXJdZpNRp4Rr3arBg&index=7

Fogo Calmo das Velas (1981)

https://www.youtube.com/watch?v=1PoH9Vbuwhs&list=FLnOw9cMXJdZpNRp4Rr3arBg&index=70

Ensaio do Dia (1984)

https://www.youtube.com/watch?v=RCLk0KgU8ys&list=FLnOw9cMXJdZpNRp4Rr3arBg&index=17

Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil (1995)

https://www.youtube.com/watch?v=HjiKRlQo6H4

Um Jeito Novo de Fazer Samba (2006)

https://www.youtube.com/watch?v=7ZgNHgcJXl4&list=FLnOw9cMXJdZpNRp4Rr3arBg&index=69

Eduardo Gudin & Naila Gallota #EmCasaComSESC (2020)
https://www.youtube.com/watch?v=eiM3IDhEdS0

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