Sucesso Bendito (2021), Arthur Nogueira

por Marcos Lacerda

Arthur Nogueira, o corpo azul-dourado

 

Eu me lembro o quanto de espanto me causou a primeira audição de um álbum muito singular de Caetano Veloso, de 1986, gravado num estúdio dos EUA. Apenas voz e violão, na maioria das faixas, com algumas exceções. “Trilhos urbanos”, a lindíssima canção originalmente gravada em Cinema Transcendental (1978), parecia ganhar todo o peso e densidade dos versos que desnudavam a memória do compositor. “O homem velho”, do disco Velô (1984) soava, a meus ouvidos, como se fosse uma outra canção, dosando bem o seu tom melancólico e maduro.

Estou me referindo a esta lembrança, porque foi exatamente a sensação que tive ao ouvir este Sucesso Bendito (2021) de Arthur Nogueira, não à toa todo com canções de Caetano Veloso, um repertório menos conhecido do artista, todas as faixas com voz e violão. O disco é um assombro, do início ao fim. Depura o tom de leveza melancólica de cada uma das canções, com momentos de alto nível de excelência técnica e beleza estética, como nos casos de “Menino Deus”, “Pronta pra cantar”, “José”, “Eu te amo” e “Tempestades solares”.

Entre estas canções, três fizeram parte do repertório de discos de estúdio do compositor baiano. “José” (Caetano, 1987), “Eu te amo” (Muito, 1977) e “Tempestades solares” (Noites do Norte, 2001). “Menino Deus” chegou a ser gravada em álbum ao vivo. São canções em tom menor, digamos assim, que tem um misto de leveza melancólica, por vezes tristeza profunda, sempre concentradas num sujeito que se reconhece como existindo a parte do mundo. Um sujeito que sente, muitas vezes dilacerado, a dor da existência de si. Mas que tem momentos de alumbramento também, com a cor das coisas, o corpo bonito, o azul-dourado, o amor repentino.

Por isso que, a meu ver, Arthur Nogueira acertou em cheio no tom da sua voz, nos belos desenhos melódicos do seu violão, no clima de retraimento, como se estivesse num canto escuro, rodeado por um labirinto de espelhos que ressoasse apenas o seu rosto, ou figurações sem a possibilidade de uma representação nítida e estável. Como se estivesse desnudado diante do real. Veja o caso de “José” cujos versos dizem algo como Enquanto espero/ só comigo e mal comigo/ no umbigo do deserto; ou Tempestades solares, em que afirma uma força solar diante da dor sentida por um Outro que não o entende (Você faz o que quer/ você me exasperou/ você não sabe viver/ onde eu sou ). “Giulieta Massina” está lá para não nos desmentir (Ah, Giulieta Massina/ Ah, minha vida sozinha), canção em que a sensação da solidão e do profundo desamparo ecoa indagações metafísicas sobre o sentido da vida e da existência (Existirmos a que será que destina?)

 

Se junta a elas “Drama” e “Força estranha”, esta bem conhecida do repertório de Caetano. “Estou triste” tem o mesmo tom de retraimento, perda de sentido, limiar da despersonalização. “Eu te amo” e “Pronta pra cantar” nos permitem alguma euforia, ainda que sempre bem destilada, sabiamente moderada. É que na voz e no violão de Arthur Nogueira há sempre uma limpidez formal preciosa, com algo de solene, mas que consegue nos cortar, chegamos a ter o sentimento de quem parece ter passado pelas asperezas da tragédia, pelos caminho do obscuro e do terrificante. Mas soube fazer, do desespero da dúvida, forma artística.

 

A capa é um deslumbramento. Arthur Nogueira está com o olho firme para nós, voltado ao centro da tela, abraçado com rosas manchadas de azul, o mesmo azul das suas mãos que, delicadamente, enlaça sobre o peito nu, as rosas. É um jogo cromático de natureza e artifício, tendo sempre como base, como figura que se destaca da forma - e também se lambuza nela - o sujeito, o mesmo que se deixa abrir para o profundo desamparo e para uma afirmação de si leonina. Como se o corpo azul-dourado do Menino Deus conseguisse, enfim, dar sentido ao mundo.

Ouça Sucesso Bendito, de Arthur Nogueira:

https://open.spotify.com/album/4VtiQoiaffqKAab8ABBccc

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