Sarabanda (2020), Lívia Nestrovski e Arthur Nestrovski

por Alexandre Marzullo

...três preâmbulos para a Sarabanda

 

Preâmbulo I

ELE. Escolhe as notas, as aberturas e articulações: conhece os caminhos do pinho. Maestro, não busca evocar um virtuose em seus movimentos, porque sabe que muito mais rara é a presença; está na tradição de Segovia, ou se quisermos algo mais distante, perfila-se como um stilnovista – suas mãos e seus olhos agem em acordo com o coração, e este se emprega nota a nota, debruçado no instrumento. Por consequência, a partitura não é propriamente lida, mas experimentada e reconstruída de acordo com a voz interna das composições – essas são canções que falam, e no que dizem está seu timbre e temperatura. Ao violão – e seu violonista – compete a tradução.

ELA. A matéria vibra delicada com a anunciação. É tanta luz e ainda assim mistério; tudo revela e não há palavra. Mais: transparente e caudalosa: pétalas e profundo rio. Tudo isso é voz. Como pode? O início da vida reside no espanto. As notas todas entregues e cheias, resplandecentes, é o céu e o chão, é o mar, é a mulher, é a voz: de novo, que mistério é esse? Em que momento se tornou possível tamanha doçura e dor, o que é essa efervescência sem tempo? Entra pelos ouvidos, arrebenta o corpo: uma voz safira pura, conhece a palavra e o que na palavra habita: tem os modos de acesso. E respira estrelas: paira, plana, sarabanda. A precisão é um milagre. A justa medida é o sublime. A beleza é um véu diáfano sobre a vida. Voz.

Preâmbulo II

Originalmente, a “sarabanda” foi uma espécie de dança cantada, surgida nas colônias espanholas da América Central durante o século XVI. Inicialmente tida como extremamente lasciva e imprópria, de “extraordinária obscenidade”, chegou a ser banida da Espanha em 1583. Provavelmente, foi o impulso que faltava para sua crescente popularidade; a “dança proibida” rapidamente ganhou o continente europeu. E começou a se diversificar: no começo do século XVII, começa a ser registrada na Itália como forma musical, de gênero especialmente instrumental, embora ainda aceitasse o canto como acompanhamento de seu baile de corpo. Nascia a sarabanda barroca.

Em pouco tempo, decorrem as singularidades mais notáveis de sua expressão: enquanto na Itália, na Espanha e na Inglaterra as sarabandas mantiveram um caráter acentuadamente mais rápido e vivaz, na França e na Alemanha suas elaborações adquiriram certa intensidade e seriedade, de costume traduzidas em um ritmo mais lento, mesmo melancólico. Pelo menos na Alemanha, tais releituras talvez possam ser retraçadas a um prisma pietista sobre o caráter geral do sentimento na música – aliás, não custa lembrar: J.S. Bach foi possivelmente o compositor de sarabandas mais prolífico de seu tempo.

Dito isto, pergunto: todo esse desdobramento histórico da ideia de sarabanda, ganhando no processo não só novas geografias como, principalmente, uma topologia diversa e imprevista, do erotismo profano à evocação do sublime, não poderia ser associado, em sua devida proporção, ao próprio arco histórico da ideia de canção popular em nosso País? Não existiria, entre uma e outra, um semblante possível, uma analogia a permitir uma contiguidade dentro de um pensamento privilegiadamente musical? (seria tal delírio de continuidades entre sarabanda e canção uma utopia possível?)

 

Preâmbulo III

Se uma convergencia ente sarabanda e canção é o eixo formal do projeto, seu eixo poético é, sem dúvidas, a experiência do amor. Veja, ouça o amor surgindo na tímida, túmida ternura das canções, e nelas singrando; como uma tarde no sem fim. Evidentemente, tanto formal quanto poeticamente, o desafio enfrentado pelos artistas é tremendo. A textura inusitada do repertório, que transita entre o barroco, o romantismo alemão, o samba-canção, a bossa nova e o contemporâneo exige de Lívia & Arthur um gesto convergente, capaz de dar conta das diferentes articulações musicais, sem desprezar, no mesmo movimento, as idiossincrasias naturais de cada composição, de cada matiz histórico ali presente. Não pretendo aqui sugerir suspense algum: a dupla alcança o feito; o velocino de ouro da canção é capturado. Tudo acontece como se num instante incriado, tempo sem tempo atravessando os séculos. Pai e filha, filha e pai.

Pois ambos, Arthur e Livia, Livia e Arthur, apostam - e acertam - na inteligência musical de uma contiguidade poética e formal entre as formas eruditas e as formas populares; transculturalismo, mas sem perda na tradução. Ou se há perda, pouco importa: transcriação. E o magistério da poesia: com síntese e eloquência, Sarabanda engendra a canção como veículo íntimo e universal, sob o módulo essencial da tradição brasileira – voz e violão.

 

Sarabanda

 

Com Johann Sebastian Bach, Lívia e Arthur Nestrovski abrem o disco, elegendo para tanto uma das sarabandas do ilustre compositor. A interpretação de A. Nestrovski no violão é bela, brilhante, e isto se repete ao longo do álbum: Nestrovski é um instrumentista rigoroso e fluido, preciso, muito inteligente; marca bem os acentos melódicos, privilegiando a eloquência do singular. Como resultado, o timbre do violão é fantástico; entre as notas, respira a delicadeza. Estamos diante de um violonista que detém, momento a momento, uma visão do todo, minuciosamente estudado – ou pressentido; intuído – parte a parte. E assim, sensibilíssimo maestro, conduz o violão e as peças que executa, pensa a música, sente a música, eis a música.

É nesta primeira faixa, também, que começa uma vaga e permeante narrativa do amor, preenchendo e unificando os procedimentos estéticos de Lívia e Arthur ao longo do disco. Trata-se do amor como poética fundamental da canção. Um amor que vive, se encontra, se reconhece, se entrega e se desmancha, e mesmo no seio da escuridão - as primeiras horas da manhã são as mais terríveis - anuncia a própria luz:

antes da luz do sol chegar

antes da primeira nota que se faz ouvir no ar

uma outra nota cala fundo em nós

na minha voz

na tua voz

antes até de uma palavra

Ao longo deste texto, farei muitas vezes menção às espetaculares interpretações de Lívia Nestrovski, porque é inevitável: Lívia emociona ao ponto do arrepio e além. Para parâmetro de compreensão: todo violonista sabe que o violão, conquanto belo, está ainda no domínio do abstrato, da pura e livre imaginação excitada pelo som; dentro disso, um violonista impressionante como Arthur Nestrovski sabe como sugestionar com o som, sabe delinear as emoções e delicadezas necessárias. No entanto, e por óbvio, jamais (isto é, enquanto estiver como instrumentista, e não como cantor) usará palavras. Por isso, é tão diferente a escuta de uma voz que canta: ao dar nome e forma ao sentido e ao sentimento, o canto determina com maior assertividade um caminho para a experiência estética em seu ouvinte. A transferência, certamente, é mais imediata. E é o que acontece na segunda faixa do disco, “Clara (À Flor da Idade) [Dichterliebe, I] / Canção de Amor”:

...e o mundo entrou no coração

na clara tarde de verão

canção de amor, saudade

e a dor à flor da idade

Em “Clara (À Flor da Idade) [Dichterliebe, I] / Canção de Amor”, tudo está em plena luz (clara tarde de verão), nomeado e renomeado. Eis uma canção que acontece quando a beleza nos fere com beleza: recebendo a voz, a melodia, o violão, as palavras, o ouvinte é inundado de sentido. Em canções como "Clara..", Lívia Nestrovski, como intérprete, atua ao mesmo tempo como estrela-guia e nova fronteira, anuncia o amor e veste suas notas. Suas interpretações são exemplos impressionantes de educação sentimental, e sempre com tamanha delicadeza e precisão.

Além disso, formalmente, “Clara (À Flor da Idade) [Dichterliebe, I] / Canção de Amor” é um ótimo exemplo do pensamento musical que norteia o projeto Sarabanda. Como seu inusitado e longo título revela, trata-se de uma conjunção de duas peças musicais: de um lado, temos a "Dichterliebe I" de Robert Schumann, composta sobre versos de Heinrich Heine e datada do início do século XIX. Arthur Nestrovski traduziu o texto alemão, e alocou, ao tema de Schumann, o belo samba "Canção de Amor", de Dorival Silva (também conhecido como Chocolate) e Elano de Paula; "Canção de Amor", a seu tempo, foi magistralmente gravada por Elizeth Cardoso em 1962. A transição entre um tema e outro é perfeita, e não ocorre sem uma linda citação de Tom Jobim; Lívia Nestrovski matiza as duas canções em uma só, na narrativa única da emoção em sua voz.

O mesmo procedimento é repetido na faixa seguinte, desta vez com a conjunção de um lieder da dupla Schumann/ Heine com uma canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: “Colheita [Dichterliebe II] e Janelas Abertas”. A abertura de possibilidades demonstra, certamente, mais do que qualquer "pangermanismo", a riqueza manancial da linguagem da canção brasileira. Aqui, sim, reside um universo transversal, sempre sob a figura do amor (talvez seja um exagero meu afirmar essas coisas assim, mas o privilégio do erro deve orientar, noves-fora o rigor, todo aquele que escreve).

As duas faixas seguintes adotam uma estratégia ligeiramente diferente: continuam os lieder de Schumann/ Heine, traduzidos por Nestrovski, mas sem ilações a canções brasileiras. E não há nenhuma perda de textura, nenhuma perda de imagem; o violão de Arthur Nestrovski traz a essência de um aprendizado joãogilbertiano, transposto para fora do corpo dos acordes - isto é, clássico - e o canto de Livia é cosmopolitano e arcaico a um só tempo. “Cais e Perfume de Lírios”, assim, conduz a “Um Som No Ar”; é verdadeiramente difícil dar a dimensão da beleza dessas faixas - especialmente "Um Som No Ar", onde Livia alcança, tateia, táctil, o sublime:

ouço no som do ar

metade de quem eu sou

saudade me leva longe

me leva pra beira-mar

e as lágrimas vão caindo

caindo por onde eu vou

A canção termina com um frase descendente belíssima ao violão, cuja queda é precedida por um cumular de intensidades. As lieder desembocam em “Cisne”, quinta faixa do disco, com letra de Arthur Nestrovski, dessa vez, para a famosa peça de Camille Saint-Säens. Aqui, os versos de Nestrovski pai parecem descrever a própria voz de sua filha – ou Lívia os veste como se dona deles fosse. Mas dona deles ela é.

olha que coisa mais irreal

quando ela passa o chão parece mar

"Cisne", a peça de Saint-Säens tornada canção, sob o artifício dos artistas parece muito naturalmente ter sido sempre uma canção; uma faixa-encantamento. Arthur Nestrovski dobra os violões na faixa, muito sutilmente reforçando o refrão e os crescendos, enquanto o bonito arpejo mantém a textura da peça. E Lívia emociona; domina a própria tessitura, entre o etéreo pianíssimo e a intensidade da parte final da bela música. Molda, com a voz, a própria canção. É um clímax dentro de clímaxes, e como se percebe, Sarabanda realmente possui uma narrativa interna, um movimento íntimo.

De fato, "Cisne" é um ponto de inflexão dentro do disco: a medida de seu projeto ambicioso começa a tomar formas mais nítidas na sequência de canções que surgem a partir desse momento. A começar pela linda "Mais Simples", uma canção extraordinária de José Miguel Wisnik, inédita, e gravada por Lívia e Arthur Nestrovski com a mesma entrega, a mesma dicção e pensamento musical das faixas anteriores.

é sobrehumano viver

e como não seria?

sinto que fiz essa canção em parceria

com você

Não há dúvidas: após usar o samba e a Bossa Nova para fechar os lieder de Schumann e preparar a versão de "Cisne", a inclusão de José Miguel Wisnik no repertório de Sarabanda sinaliza que, diante dos Nestrovski, a canção brasileira merece um patamar de realização e pensamento musical dignos da mais vetusta e respeitada composição de Haendel ou Bach. "Mais Simples", com singelos dois minutos, é um primor; não há o que tirar, ou o que acrescentar à sua beleza - é, verdadeiramente, um elogio à "expressão mais simples". Amor que move o sol e as outras estrelas.

Já a faixa seguinte, "Bolero Sim", apresenta o Nestrovski compositor de letra e música, que dominará as próximas faixas. A narrativa desnovela o apaixonamento, o instante acalentado do encontro entre amantes; o amor e suas dores (também o tema de "Mais Simples"), seus ditos e interditos: estamos entrando em território interindividual. "Lost In Translation", sucedendo "Bolero Sim", traz os vocais de Arthur Nestrovski, em dueto com Lívia; o resultado é mais um acerto, e Arthur se revela bom intérprete de si mesmo, com humor e belo timbre. Lívia canta com doçura e lidera a canção, sublinhando o coro com Arthur, pontuando as notas sem a menor hesitação; apenas voz, violão e alegria. Algo de Gershwin, algo de Jobim.

“Duas Gatas”, terceira canção de autoria de Arthur Nestrovski, possui uma tessitura mais crepuscular. Habita, com a sabedoria da penumbra dos felinos, na madureza da paixão. Lívia emprega timbres suntuosos e lânguidos, e domina, mais uma vez, o que não tem nome e é só mistério. E começa a entardecer a Sarabanda: eis "Amor Maturado", delicadíssima composição de Nestrovski sobre as virtudes de uma vida preenchida pela vontade, pelo sonho de amar e ser amado:

foram anos e anos

cada um a vagar, sonhando ser feliz

em sonho errando errar

noites e noites e noites te procurando

sem saber distinguir você, você

todo tempo ao meu lado e não

nem um dos dois percebia

lenta maturação

o que os anos nos davam

e o que vinha depois

futuro atrás de nós

à frente, amar em paz

a vida por um triz

sonhos sonhado, amar

(em paz)

Pequenos véus escuros surgem na luminosidade do duo, acentos do fim, como fragilíssimas sombras em uma marinha. “A Passante”, faixa seguinte, é uma canção-quase-vinheta, singelíssima, com menos de dois minutos; um voyeur narra a presença do encanto que, como ocorreu em o "Cisne", permanece encanto, mas tão-somente enquanto memória. A lembrança da beleza, a thing of beauty is a joy for ever. O sentimento é repercutido na faixa seguinte, "Nas Galerias", que também realiza um retorno às conjunções musicais que abriram o disco: desta vez, os versos de A. Nestrovski preenchem um tema do grande violonista espanhol Fernando Sor. Em "Nas Galerias", Arthur Nestrovski dueta consigo mesmo, empunhando dois violões, enquanto Lívia Nestrvoski assume a vocação da voz: atravessa os tempos, e passeia de nota em nota com nostalgia e ardor.

ah, quanta dor

quando eu acordar

Toda canção tem seu fim, e nos aproximamos do final do disco; "Anoiteceu" recompõe o samba como linguagem pertinente às sarabandas, na composição de Francis Hime e Vinicius de Moraes. De igual forma, as narrativas do amor que perfazem o disco começam, também, a mostrar um desmanche; ora, sabemos todos, todos vivemos um fim de paixão, um final de Carnaval; todos, em suma, vivemos. Do pó ao pó, de solidão em solidão: eis a terra escura de onde partimos. Lívia Nestrovski é impecável, do dilaceramento à resignação:

ah, leva a solidão de mim

tira esse amor dos olhos meus

(...)

mas não faz mal

quem ama não tem paz

"Anoiteceu" é o desfecho que não veio em "Amor Maturado"; resta, noite caída e véu desfigurado, esperar uma nova manhã. "Estrela D’Alva", lieder de Franz Schubert com letra de Friedrich Ludwig Rellstab, está logo na sequência, com tradução de Arthur Nestrovski. Trata-se de mais uma curta canção, onde o amor finalmente se torna estrela verdadeira, isto é, um grande suspiro – consolo e benção na amplidão. Tudo é lume, e já aconteceu no céu que vemos. Em "Estrela D'Alva" a retidão possui matizes enlutados nas interpretações do duo. O sentimento fundamental é a angústia, mais do que a tristeza. Angústia: o outro nome do amor.

Há um primeiro final em "Sarabanda (parte 2)", o final cronológico do disco: doloroso e extraordinário de belo. Apenas um violão e a voz, mais uma vez, mas agora sem palavras. Lívia solfeja as notas, e somente quem amou verdadeiramente pode reconhecer, em Sarabanda (parte 2), a cor das madrugadas. Tudo o que escapa, nos suspiros do inefável, e se mancha em despedidas.

E há um segundo final, o final lógico da obra: "Outra Noite", lieder de Franz Schubert e Mathäus von Collin, com tradução de Arthur Nestrovski. Sob as benções da demiúrgica poesia, traça-se uma distância de todo sofrimento. Lembro de Hölderlin: "a eterna jovialidade, a alegria dos deuses consiste em colocar todo o singular no lugar do todo a que pertence". Pois é o que"Outra Noite" almeja, sob o embevecimento final que Lívia Nestrovski nos oferece. Há sonhos pela frente.

sonhadoramente, a noite

vem caindo na cidade

como a luz da lua bate

sobre o coração de toda gente aqui.

Algo há de acontecer; eu ouvi o milagre.

Ouça Sarabanda, de Lívia Nestrovski e Arthur Nestrovski:

https://open.spotify.com/album/2xMpesdU4C4rkqbIXskO3p

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