LETRISTAS:

ANTONIO CICERO – O CHARME DO FOGO

Por Alexandre Marzullo

 

O instante prometeico e fatal em que um titã, insolente diante das fronteiras do Olimpo, rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens. E que venha o castigo de Zeus! Tudo o que envolve essa ofensa olímpica se inscreve como dramático, como situação-limite, e não é por menos: a ideia do fogo se presta muito bem a representar o que é demasiadamente humano em nós, da inquietude à danação das paixões. É por tal motivo que o advento prometeico – coisa que somente um titã pode nos oferecer – representa a possibilidade de uma nova e radical apreensão do mundo, a transfiguração de uma realidade. Na invenção da tocha que permite ver dentro da treva, temos um microcosmo do sol, crepitando sobre o talo de madeira. No conforto da fogueira que também nos ilumina, a semente de todos os incêndios, o começo de todas as metáforas. As faíscas: o imprevisível raio da vontade. Técnica da claridade e da destruição. O fogo lambe, devora e liberta.

Pergunto: não seria essa também uma bela imagem para o ato filosófico? Ou, ainda, para a consecução da poesia? Ou, mais além... já que é esse o tema oportuno, não seria a descoberta do fogo uma boa metáfora para o surgimento de uma canção? É preciso, talvez neste último caso, de um tanto de sutileza; é preciso certa paixão, certa tessitura do espírito, certa joie de vivre para entender como uma canção pode nos ensinar a arte do fogo. E entender como um compositor pode ser, enquanto mistura de Fausto e Mefistófeles, prometeico tal como narro. Pois bem: é dentro deste conjunto de elementos – mito, fogo, poesia, logos, ousadia e criação – epos – canção – que quero tratar do cancioneiro de Antonio Cicero, poeta, filósofo, ensaísta e compositor brasileiro.

Esses recursos ostensivos que faço a uma imagem poética do fogo – uma poética prometeica – não são aleatórios; afinal, logo no ano de 1979, no início de sua carreira como compositor, Cicero assinou com Moraes Moreira uma canção intitulada (não por acaso) “O Prometeu”:

 

Já esperei meu Prometeu

No céu da Terra se perdeu

 No fogo luz do nosso amor

O céu com a Terra se encontrou

 

No entanto, é importante ressaltar que as sutilezas de sua escrita se estendem para além do recurso ao mito grego do titã acorrentado. No corpo de suas obras, há uma visão do vasto concerto de emoções do ser humano, percorrido como iluminação da aventura apaixonada que é existir. Suas letras, ademais, são esteticamente propositivas: possuem um sentido determinado e, ao mesmo tempo, uma abertura metafórica. Elaboram uma atmosfera, possuem densidades especiais, cuidados no uso da palavra. Sobretudo, são letras narrativas, sem precisarem-se descritivas. E atuam à guisa de um convite lento e sedutor: as frases de Cicero, seus volteios poéticos e enjambements guiam o ouvinte sem que este o perceba. Canções de envolvimento: acontecem com uma pulsão poética à plena vista, ainda que cheias de instâncias subterrâneas e vulcânicas. 

A estreia de Antonio Cicero como compositor, como sabemos, se deu pela iniciativa de sua irmã mais nova, a cantora e compositora Marina Lima. Descobrindo alguns poemas do irmão e musicando-os à sua revelia, Marina despertou, com um só gesto, duas das carreiras mais longevas e bem-sucedidas da música brasileira – a sua própria e a de seu irmão. Já no primeiro disco de Marina Lima, Simples Como Fogo (1979), temos nada menos que quatro canções da dupla. O título do álbum, aliás, foi inspirado a partir dos versos de Cicero na música “A Chave do Mundo”:

 

Meu amor faz coisas simples como o fogo

Faz como o fogo e de repente me chamusca

(...)

Mas a chave do mundo

É ser exatamente assim como ele

Cruel como o mundo e tão simples

Eu queria ser assim como ele

Cruel como o mundo

 

Esses versos retratam o doído e o desejante em um apaixonamento. Simples como o fogo, o amado age, e brilha com uma espontaneidade que parece impossível a quem o observa; em tal facilidade, o amado acontece. Diante dessa simplicidade, que é uma simplicidade fenomênica (ou seja: está na ordem de tudo o que existe por existir), o enamorado identifica a crueldade do mundo no acontecimento do amado (eu queria ser assim como ele / cruel como o mundo). Em outras palavras: a chave do mundo é sua ígnea simplicidade em ser mundo; o amor queima, tão-somente, por ser amor.

Nesta canção, apesar da nítida clareza de seus versos, há também uma intensidade intelectual velada, que decerto não pretende protagonizar a canção, mas antes a sustenta como objeto poético, como expressão artística. São essas capacidades filosóficas da obra de Cicero, telúricas, singularíssimas e extraídas da luminosa qualidade da palavra, que caracterizarão, como já disse, a carreira de Cicero como compositor. A partir deste tremendo diferencial, Antonio Cicero se tornará um dos letristas mais requisitados de sua geração.

A escritora e pesquisadora Noemi Jaffe toca em pontos semelhantes aos que abordo aqui. Em sua tese de doutorado, de 2007, dedicada a uma análise profunda e percuciente do livro de poemas de Antonio Cicero, A Cidade e os Livros (2002), Jaffe traz à baila as mesmas observações desta espécie de poética apaixonada da lucidez, "embriagada de sobriedade":

 

Trata-se de uma poesia [a poesia de Antonio Cicero] que considera constantemente a contingência, os entrecruzamentos, os sentidos físicos, nos espaços da cidade. Ao mesmo tempo, embora deixe à mostra o efeito relativista e contingencial da contemporaneidade, sua poesia é inesperadamente clara e logopaica. Cicero traz o equilíbrio formal da poesia clássica para sua apresentação da atualidade (p. 17¸ 2007).

 

Se é certo que não devemos confundir as instâncias da poesia e da canção, sendo impreciso tomar de imediato as palavras de Jaffe para falar do Cicero compositor, é tão certo quanto que tais campos – poesia e canção, bem como poesia e filosofia – se intercomunicam, muitas vezes, com intensidade. Tal é o testemunho da própria canção brasileira, esta gaia ciência, como bem sublinha Zé Miguel Wisnik em magistral ensaio.  

Por sinal, lembro aqui do belo ensaio autobiográfico do próprio Antonio Cicero, em seu mais recente livro, Poesia e Crítica (2017). O ensaio, intitulado “Encontros e desencontros com a contracultura”, trata do momento em que Antonio Cicero, durante seu exílio em Londres, no começo dos anos 1970, inicia uma profunda amizade com os tropicalistas também ali exilados. Suas memórias – e especialmente sua convivência com Caetano Veloso, que por sua vez, espelha as palavras e a admiração de Cicero em seu memorial Verdade Tropical (1997) – servem como ponto de partida para uma reflexão acerca de sua própria formação poético-filosófica (ou seja, sua auto-poiesis; sua formação como indivíduo). De tal maneira, a partir dos líderes tropicalistas, articuladores fundamentais do que se estava produzindo nacionalmente (apesar do exílio) em termos de contracultura à época (Caetano, Gil, Mautner), Cicero faz notar seus pontos de contato e admiração com as forças contraculturais, bem como suas capacidades de dialética e reserva. Como resultado, oferece-nos uma espécie de fio de Ariadne para observar sua própria condução estética. Abaixo, suas palavras acerca de sua posição em relação à contracultura, em um exemplo da profundidade que pode vir a constituir um poeta-filósofo:

 

Seja como for, o fato é que, em algum momento, a contracultura acaba por se opor à racionalidade, ou ao menos à “racionalidade ocidental”, como se houvesse muitas racionalidades. Desfaz-se, desse modo, uma distinção crucial feita por Kant e desenvolvida por Hegel, entre o entendimento ou o intelecto e a razão. Ora, a destruição da razão é a destruição da própria crítica, que penso ter sido um dos fundamentos da contracultura, e a partir da qual se faz a própria distinção entre o princípio do prazer e o princípio do desempenho. Para mim, por isso, a negação da razão foi um equívoco suicida da contracultura. (p. 20, 2017).

 

Decerto, a consistência da razão, isto é, do exercício racional como pensamento de abertura do mundo – este intenso gume, afiado e torturante – é a pedra de toque filosófica por excelência. Para melhor entendimento do que pretendo afirmar, é necessário afastar um pressuposto fáustico para o exercício da razão: não compete ao ato intelectivo racional o suporte do absoluto. Ao contrário, entre a razão e a categoria do absoluto permanece uma reserva crítica que, a seu tempo, será justamente aquilo que fundamentará a atitude racional; assim se entrevê, pois, que diante de sua própria voltagem crítica, é justamente a capacidade da razão que permite, ao ser humano, o fenômeno do espanto diante do mundo – o princípio da filosofia.

Há uma outra forma de compreender esta concepção do que seria o racional, e ela passa pelos domínios da poesia no romantismo alemão. Para citar um poeta caro a Antonio Cicero, Friedrich Hölderlin, a partir de uma crítica à filosofia de Fichte, elabora uma concepção própria para o vir-a-ser do texto poético. Para Hölderlin, o poético necessita de uma elaboração capaz de unir o “ordinário” ao “extraordinário”, o que é feito por meio de uma intelecção intuitiva (isto é, distinta da intelecção racional). Em outras palavras, o poeta alemão propõe um transversal atravessamento da capacidade racional, unificando, por tal salto intuitivo, o poeta e a coisa à qual se refere a poesia. Eis aí, momentaneamente, a instância do absoluto, posteriormente organizada (aí sim: repartida; fatiada em versos – racionalizada) na experiência do poema (isto é, dentro de sua própria manufatura). Por isso, para Hölderlin (como também para Novalis, mas em outros termos), a filosofia cede terreno para a poesia; o poeta não pensa sobre o mundo. Ele pensa o mundo, sem intermediação linguística (sem "sobres": linguagem na linguagem). É por isso que a intelecção intuitiva permite a “rapidez na conceituação”, a penetração do instante no absoluto. Consequentemente, a estética será o modo superior de conhecimento.

Diante disso, o que resta ao empreendimento filosófico – forçosamente crítico – será aquilo que, justamente pela razão, não intenta o absoluto do mundo, mas o limite do possível ao seu próprio entendimento, seja este qual for. E se ao absoluto, ao contrário, competirá a poesia, será então da poesia que a filosofia colherá seus frutos. Assim, o que sobra diante do pensamento é justamente aquilo que, apesar de intuído, ainda deve ser pensado: o ainda por inferir: o não-trilhado, ou, em outras palavras, o mistério possível. Consequentemente, o par dialético, oposto à razão, não seria o "irracional-como-negação-da-razão", mas o irracional como aquilo que prescinde (momentaneamente) da razão: seu “desconhecido”, seja como perpétuo-oblíquo ou como ainda-por-conhecer.

Permite-se, assim, à razão um brilho próprio, apolíneo, embora sempre limitado (posto que caracteristicamente crítico). Donde, se a razão não precisa mais refutar o campo obscuro das paixões humanas, ela pode, como vimos, servi-las sobre o pressuposto de uma possibilidade de poesia; é reinaugurada, assim, como possibilidade residual de intelecção do ser humano. De tal maneira, retornando às primeiras canções de Antonio Cicero, encontramos, naquele que talvez tenha sido o primeiro grande sucesso de Marina Lima, a canção “Charme do Mundo”, do disco Certos Acordes (1981), vemos um belo exemplo dessa qualidade iluminante de um discurso racional que não nega o campo emocional, e que salta no mundo em um ato só. E mais além, unindo, “Hölderlianamente”, o ordinário ao extraordinário, Cicero apresenta-se, mais uma vez, sob a sutil imagética de um ladrão de fogo (é um fogo leve que eu peguei), simples e viril:

 

Eu tenho febre, eu sei

É um fogo leve que eu peguei

Do mar ou de amar, não sei

Mas deve ser da idade

Acho que o mundo faz charme

E que ele sabe como encantar

(...) tudo o que eu quero, sério

É todo esse mistério

 

Eis aí o que a canção ensina: apenas o mistério pode ser pretendido como absoluto, justamente por ser mistério. Tudo o que a razão toca, do absoluto permanece à parte. O charme do mundo, puro fogo heraclitiano. O todo em parte, a parte em tudo.

O sucesso da canção “Charme do Mundo” consolida, para o público, a parceria Marina Lima/Antonio Cicero, cuja consistência ali já alcançava o protagonismo de três álbuns. Após Certos Acordes (1981), Marina Lima lança ...Desta Vida, Desta Arte... (1982), um bonito disco, repleto de vulnerabilidades e pulsões sob a voz da artista; dentre outras faixas, o álbum contém a linda e melódica Depois Me Diz, parceria dos irmãos (te vejo e acende o fogo / um tremor me abala / suor me umedece / eu fico sem fala). Talvez, em retrospecto, este disco tenha sido eclipsado pelo monumental quinto álbum de Marina, Fullgás (1984), um dos maiores lançamentos da década, e da própria história discográfica brasileira. Fullgás abandona a abordagem mais introspectiva do disco anterior, apostando em uma produção musical mais contemporânea, na ponta de lança do que se estava produzindo sonora e artisticamente no momento. Sobre esta, o charme e o carisma de Marina e suas interpretações matizadas, repletas de intimidade, seguras e sedutoras. Corpo, rosto, aura e repertório. A própria canção Fullgás é cantada como que à meia-luz, com os versos de Cicero direcionados diretamente para o ouvinte, vocativos, elegantes, sensuais.

 

Tudo em você é fullgás

Tudo você é quem lança, lança mais e mais...

Só vou te contar um segredo

Não, nada, nada de mal nos alcança

Pois tendo você, meu brinquedo

Nada machuca, nem cansa

 

É difícil ler esses versos sem imaginar a voz de Marina entoando-os, sem perder de vista a melodia superior que os molda. Fullgás encerra com as célebres linhas “Você me abre os seus braços / e a gente faz um país”, em um desses momentos fulgurais da palavra, onde o que é dito possui tanta clareza poética, tanta pertinência, que se torna quase autoevidente; se torna parte do que nos constitui de imediato. Mais além, há uma maravilha filosófica neste “dístico” de fechamento, na extrapolação do limite do indivíduo: é uma outra forma de dizer, pensar, mostrar o princípio luminoso do amor, sua força ambivalente e erótica que inaugura sua própria ordem, sua própria urbe. É assim que a flor da civilização acontece. Você me abre seus braços, e a gente faz um país.

A esta altura, apesar da juventude, Marina Lima e Antonio Cicero já são parceiros musicais há quase uma década. Todo compositor (assim imagino) sabe que a música, enquanto arte superior, é um fenômeno que irmana seus oficiantes, que os enlaça para além do visível – para além da compreensão (isto é, para além da razão, mais uma vez: no próprio mistério). Dois e um, letra e música: canção. Algo acontece. Pois uma das faixas do álbum Fullgás parece justamente celebrar esta parceria de irmãos além da vida, parceria de canções, de multidões. E de modo muito originalmente único: é poesia. Um dueto recitado de Cicero e Marina, de quarenta segundos, intitulado (muito adequadamente) “Cicero e Marina”.

Cicero diz:

A minha vida tem um garoto chamado Cicero

Ele é a cobra do meu paraíso

Ele é a dobra do meu paraíso

Ele é a sobra do meu paraíso

Ele é a sombra do meu paraíso

Ele é a cobra

Ele é a cobra

Ele é a cobra

 

Marina diz:

A minha vida tem uma menina chamada Marina

Ela é a cobra do meu paraíso

Ela é a dobra do meu paraíso

Ela é a sobra do meu paraíso

Ela é a sombra do meu paraíso

Ela é a cobra

Ela é a cobra

Ela é a cobra

 

Não deixa de ser um gesto de humor que a faixa seguinte se chame “Veneno” (embora não seja de autoria da dupla). Seja como for, a partir de Fullgás, começam a se tornar mais recorrentes as composições de Cicero com outros autores, ainda que sua parceria mais fundamental permaneça sendo Marina Lima. Um breve apanhado: ainda em 1984, Cicero assina com Lulu Santos e Sergio Souza a faixa “O Último Romântico” – que traz o par fulcral de versos, “se é loucura, então / melhor não ter razão”. Ainda no mesmo ano, Cicero esculpe Graffiti com Caetano Veloso e Waly Salomão (por uma seta de cupido, filho de Afrodite / o nosso amor é um coração colossal de graffiti / nos flancos de um trem de metrô) e compõe para Olivia Byington (“Floresta Virgem”, com Vinicius Cantuária e Waly Salomão). No ano seguinte, assina uma composição para Gal Costa (“Acende o Crepúsculo”, em parceria com sua irmã), e em 1986 trabalha com Frejat e o Barão Vermelho na canção “Bagatelas” (curto as coisas que se acendem e se apagam / e se acendem novamente em vão), depois regravada com grande efeito por Adriana Calcanhotto no excelente “A Fábrica do Poema” (1994). Ainda neste período, Cicero compõe com Nico Rezende e Paulinho Lima a canção “Amor Explícito”, esta, para Simone.

Esses são os anos dourados da venda de discos de vinil no Brasil, e como prova de seu status cada vez mais consolidado como compositor, em 1987 Antonio Cicero ainda faria canções com dois nomes muito significativos do momento, os concorridos Guilherme Arantes e Ritchie. Com Arantes, assinou a faixa “Dança das Mercadorias” (que são os paraísos dos comerciais / perto do seu sorriso sempre que eu peço mais), e com Ritchie, Cicero compôs a impecável faixa-título do disco do artista daquele ano, intitulado “Loucura e Mágica”: lendo o jornal, no teu signo eu li / aguarde as maiores mudanças / não sei se é delírio, mas sei que senti / que ainda me resta esperança.

Na década de 1990, Cicero começa uma importante parceria com a então estreante Adriana Calcanhotto. Cantora, compositora e instrumentista, Adriana Calcanhotto construiu, desde então, uma brilhante trajetória, repleta de sucessos de público e crítica, com interpolações entre pesquisa de canções, poesia e imagem – de onde, aliás, um dos resultados mais nítidos foi o projeto Adriana Partimpim. Senhas (1992), disco de estreia de Calcanhotto, já demonstrava tais inclinações, das quais faz testemunho sua parceria com Cicero, a impecável “Água Perrier” (não quer o meu álcool forte / quer água Perrier), gravada também por Leci Brandão em 1995. Cicero e Calcanhotto iriam novamente em “Inverno”, canção do disco subsequente de Calcanhotto, o já citado A Fábrica do Poema (1994), que alude, como num relance, ao famoso barco ébrio rimbaudiano:

 

Lá mesmo esqueci

Que o destino sempre me quis só

No deserto, sem saudade, sem remorso, só

Sem amarras, barco embriagado ao mar

 

Mas antes, ainda em 1991, o barco ébrio & prometeico do compositor se juntará aos navegantes Waly Salomão e João Bosco para assinar a maior parte das faixas de um dos discos mais excepcionais daquela década, o singular, estupendo Zona de Fronteira, de João Bosco. Faço um destaque (injustiça minha, em um disco repleto de primores), citando a faixa “Ladrão de Fogo”. Não preciso sublinhar a consistência do tema titânico; a letra acompanha o inquieto acompanhamento, entre violões brasileiros (maravilhosamente bosquianos), e fraseados flamencos, pontuados por acentos jazzísticos na percussão e bateria – estes,  dominam e sublinham a intensidade da faixa. Tal arrojo musical, não por acaso, evoca algo próximo dessa estranha pulsão que, motivada sabe-se lá por quais desígnios, sobe montanhas e desafia deuses, águias, correntes, vaticínios. Vive por arder.

 

Penso na paz

Vivo na guerra

O céu fica distante desta terra

Às vezes sou

Ladrão de fogo

Às vezes prisioneiro de algum jogo

Seja o que for

Não tenho medo

Dos uivos dos fantasmas de mim mesmo

Na segunda metade dos anos 1990, Cicero publica dois livros fundamentais – o ensaio O Mundo Desde o Fim (1995), e seu primeiro volume de poesias, Guardar (1996). A tese fundamental de Antonio Cicero em O Mundo Desde o Fim faz um corajoso contraponto à então hegemônica noção de um “fim da história”, verticalizado por um pretenso “triunfo do Ocidente” após a derrubada do muro de Berlim. E não só isso, desafia também as correntes filosóficas pós-estruturalistas, em uma consideração detida sobre a modernidade e suas consequências estéticas e filosóficas. Em Verdade Tropical, Caetano Veloso não poupa palavras sobre o volume, tomando o livro de Cicero como “um do maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil”. Em sua síntese, “trata-se de uma retomada do cogito cartesiano em termos radicais, o que vale por um escândalo no ambiente acadêmico brasileiro, dividido entre comentadores do marxismo frankfurtiano e comentadores do pós-estruturalismo francês”. Seja como for, Cicero retoma sua tese, posteriormente, na obra Finalidades Sem Fim, publicado na década seguinte, em 2005. Ademais, sua ampla mundividência repercute, em seus ensaios de prosa bela e serena, nos volumes Poesia e Filosofia (2012) e Poesia e Crítica: Ensaios (2017), além de textos esparsos. E se O Mundo Desde O Fim encontrou alguma resistência acadêmica quando de sua publicação – Caetano Veloso assim o sugere – o mesmo não aconteceu com Guardar, que ganhou o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria estreante.

“Guardar”, na poesia de Cicero, diz respeito a uma consideração sobre a ambivalência do próprio ato da escrita, tomado como manifestação de um pensamento. A prática poética torna-se um registro possível para um desvelamento de si, de modo que seu ato escritural pereniza aquele instante do sujeito; guarda-o em luz, no próprio ato.

(...)

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo

(...)

 

Há no entanto uma ambiguidade. Pois concomitante a este aspecto luminoso, afirmativo, há outro, mais soturno, onde a “guarda” representa também o velamento do que não se diz, graças ao artifício do que se diz. Trazemos à luz e criamos sombra. A aparente contradição, ironicamente, não guarda uma traição de sentidos; ilustra apenas o inelutável “brilho tenebroso” da linguagem, brilho de amor pelo que existe. Guardar foi prosseguido pelo maravilhoso A Cidade e os Livros (2002), bela e intensamente comentado por Noemi Jaffé, como apontei mais acima, e posteriormente, pelos volumes Livro de Sombras: Pintura, Cinema e Poesia (2010), em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, e Porventura (2012).

As parcerias musicais continuaram, embora menos frequentes; em 2006, Cicero junta forças com sua irmã Marina Lima em canções e regravações do ótimo disco Lá Nos Primórdios, décimo-oitavo álbum musical da artista. Musicalmente ousado, com citações melódicas que atravessam de Chico Buarque & Milton Nascimento a Lou Reed, o disco reúne em sua sensibilidade pop-rock uma miríade de inspirações eletrônicas, com timbres densos e industriais gravitando em torno de construções rítmicas deliberadamente latino-americanas – do tango à própria música brasileira. Exemplos típicos são o par de faixas que abrem o disco, “Três” e “Valeu”: “você não compreendeu / que debaixo desse céu / rio, chuva, oásis, pranto / eram pra banhar você e eu”. Os irmãos retomariam a parceria em Novas Famílias (2018), disco mais recente de Marina. Dentre outras boas canções, destaco a faixa “Juntas”, de inesquecível estrofe inicial, onde o poeta como que pincela em palavras um crepúsculo universal:

Um rosa invade a cena

Alegrar e confundir

Um cinza que insiste em ficar

E outras cores vão chegando

Preparando o luar

Enquanto amarelo vai dormir

 

Isoladamente, a estrofe diz respeito a uma maturidade: contemplamos o tempo, sempre esvoaçante. Como movimento interno, uma possível tradução (dentro da ótica que guia este ensaio; uma intradução) seria esta: o titã não perde o ímpeto temerário, não hesita com seu fogo, mas escolhe, mais criteriosamente, as qualidades de sua ofensa aos deuses. Sua ofensa benvinda e milagrosa, cujos frutos multiplicam: a década de 2010, finalmente, observa uma nova parceria, desta vez com o talentoso Arthur Nogueira, representante de uma nova geração de compositores nacionais que, aliando considerações poéticas, apreço pela tradição da canção popular brasileira e um afiado senso estético, vêm realizando obras de crescente relevo e importância para o campo da música brasileira.

A parceria de Cicero com Nogueira batiza o primeiro disco do cantor e compositor, Sem Medo Nem Esperança (2015), a partir da faixa de mesmo nome, onde também temos versos representativos de uma poética contemplativa, como um titã que observa o próprio ir e vir, o próprio corpo, repleto de marcas, cicatrizes das chamas. Tanta luz: “eu viveria tantas mortes / e morreria tantas vidas / e nunca mais me queixaria / nunca mais”. A canção foi regravada, no mesmo ano, por Gal Costa no disco Estratosférica.

A colaboração entre os dois artistas se estendeu, no ano seguinte, para o disco-tributo de Nogueira a Antonio Cicero, celebrando os setenta anos de vida do poeta e filósofo. Intitulado Presente, o álbum traz a curadoria de Nogueira sobre as quase cinco décadas de canções de Cicero, revisitadas sob o talento de sua prenunciado canto. Arthur Nogueira ainda organizaria um volume de entrevistas de Cicero, publicado pela Editora Azougue como parte de sua famosa coleção "Encontros".

Que tamanha atividade, tamanha criatividade e reflexão tenham culminado na eleição de Cicero para a cadeira de número 27 da Academia Brasileira de Letras, em agosto de 2017, é coisa para poucos. E é incontestável que naquele momento, simbolicamente e de forma inédita, um legítimo representante da canção brasileira inaugurava a imortalidade outorgável – esta dos nomes – na história da Academia Brasileira de Letras. Representante da canção, da filosofia, da poesia, do pensamento, representante da linguagem como esteio, da razão como porfia, da possibilidade de futuro em meio ao vão, Prometeu venceu. Antonio Cicero inaugurou um incêndio que dura tanto tempo, e arderá a vista e encantará os ouvidos por mais tanto e tanto.