CLÁSSICOS CONTEMPORÂNEOS

Adriana Calcanhotto - A Fábrica do Poema (1994)

por Alexandre Marzullo

A Fábrica do Poema, lançado em 1994, ainda se posiciona como um disco de porte, inovador e marcante no cancioneiro brasileiro, mais de um quarto de século depois. Foi um sucesso comercial e de crítica à época, e de fato são muitos os seus méritos, de modo que me arrisco a ser redundante ressaltando a qualidade da escolha de repertório ou a inteligência impressionante dos arranjos, parte fundamental da atualidade sonora do disco. Contudo, ao mesmo tempo, reconheço que faz parte do mistério das palavras e das leituras que toda verdadeira redundância, e especialmente aquela que se sustenta maior em relação às outras, qual seja, a redundância mais gritante, mais exageradamente evidente, que esta exija ser dita e proclamada sempre que possível. Nisto, eis a que exige ser dita e proclamada da forma mais clara e óbvia possível em A Fábrica do Poema: o mérito total e maior do álbum, está na própria autoralidade de Adriana Calcanhotto, e em sua rara capacidade como cantora.

Pois é o que considero mais evidente ao longo do disco: seu timbre de voz tão doce, tão lírico, realmente bonito - e aqui poderíamos nos perder apontando a riqueza de matizes de seu canto - parece se concentrar muito fundamentalmente na evocação de algo que entendo como sendo uma espécie refinada de inocência cultivada. O que quero dizer: Adriana evoca em seu canto a inocência dos poetas (ou seja, sua própria).

Mas o que seria isto? Do modo que entendo, a inocência poética é uma qualidade que permite, ao artista que dela se serve, um "olhar para a palavra" como se ali residisse uma experiência única, sempre nova e portanto plena (na medida em que a plenitude for possível) e inédita a cada encontro, isto é, a cada uso. Ou seja, é uma capacidade de se viver a palavra, e quando tal força é dedicada ao canto, temos a riqueza extraordinária de uma voz que está vestindo a potência poética, a imagem de tudo o que se escuta e não se escuta naquela voz: estamos vendo a emoção, a inteligência, o despertar da beleza. É uma experiência de contemporaneidade e atemporalidade, reunidas no ato poético do canto.

E talvez seja este o segredo que permite a Calcanhotto abordar poemas antigos, bossas, canções românticas e poemas contemporâneos com a mesma consistência, com a dicção da justa medida, na distância exata entre os instrumentos e arranjos. Pois é impressionante como não parece haver disparidade entre uma letra rebuscada como a da faixa título, A Fábrica do Poema, e um dos grandes hits do disco, Cariocas; entre a experimental Portrait of Gertrude e o sucesso de Inverno, parceria da cantora com o poeta e filósofo, além de cancionista, Antonio Cicero. Em outras palavras, o álbum apresenta muitas dimensões diferentes, que mesclam-se muito coerentemente dentro de uma organicidade a que poderíamos chamar, com espírito de síntese, de "presença de Adriana Calcanhotto". Afinal, não seria uma fábrica de poemas, mais do que tudo, a própria vivência do poeta?

Claro, ao mesmo tempo, o álbum traça um diálogo muito natural com a própria história da canção brasileira. O ensaísta e compositor José Miguel Wisnik possui uma tese sobre a riqueza e complexidade da canção popular brasileira, que em suas palavras seria uma espécie de verdadeira "Gaia Ciência" brasileira, em sentido nietzscheano. Wisnik identifica a gênese fundamental da riqueza cancional brasileira na Bossa Nova, por uma série de motivos que, para o ensaísta, convergem naquele instante temporal e se consubstanciam na canção bossanovista formulada pela tríade Jobim-Vinicius-Gilberto; para Wisnik, nesta "convergência operada na canção" residiria a chave central para o grande fator extraordinário da canção brasileira: sua pluralidade poética, graças à permeabilidade especial que a canção brasileira teria com o mundo e com outras formas de saber. Como assevera o ensaísta, "a canção puxa por todos os lados." Esta capacidade, a seu tempo, contribuiria também para toda uma geração subsequente de artistas múltiplos, operando dentro da canção e explorando seus limites sempre renováveis. Como, por exemplo, nossa Adriana Calcanhotto.

Isto significa, e é por isso que fiz este breve excurso teórico, que Adriana Calcanhotto, nas alturas que conquista em A Fábrica do Poema (alturas prometidas pelo seu álbum de estreia, aliás), se torna uma das artífices da grande experiência da canção contemporânea brasileira; isto é, uma das orientadoras de nossa educação sentimental pela canção. A canção é nosso acontecimento mais bonito, nossa brasilidade verdadeira (e cada vez mais tímida). Aqui, em tais reflexões, notamos que a "fábrica do poema" é uma expressão maior do que o álbum, e não à toa: se refere a todos nós através do disco, através da canção. Calcanhotto está cantando, o tempo todo, pela nossa própria fábrica, nossa tessitura, nosso modo particular de acontecer. Fabriquemos, então. O segundo álbum de Calcanhotto persevera, como a canção brasileira, e se torna um clássico contemporâneo, desafiando o horizonte dos fins.

Sem amarras, barco embriagado ao mar.

Ou ainda: onde será que você está agora?

Ouça A Fábrica do Poema de Adriana Calcanhotto:

https://open.spotify.com/album/1WUpRU7xW4hs8TygFnh80S?si=n_wbYcXgQr-LKq7Lz7ZkVw

https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lxyfO3KX-9dHs1xRWSkEcluDN5EuWOnoo

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